sábado, junho 17, 2006

O Dia Destruído

O DIA DESTRUÍDO - Lázaro Barreto.


O dia ignóbil chega aos becos do arraial,
traça seus ponteiros afirmativos na sujidade,
na pança do enfeitiçado que vomita torresmos
sobre as ervas daninhas,
galopando sobre o cavalo de maminhas
ao lado de aldonças e domingas e seus ungüentos
e poções de ervas orvalhadas, que curam
quebrantos e maus-olhados
em troca de rapaduras e zombarias,
que aguçam as doentias influências dos infestados
de maldições
e de descorçoados penitentes e peregrinos, moradores
dos casebres caindo aos pedaços na beira
dos desbeiçados caminhos.

Logo mais um dos pássaros trepados na umbela
levará nas garras a casa da viúva odete para os ínvios
esbarrancados das penúrias,
onde mutretam as cobras e os lagartos.
Antes de ontem uma flor regada no sereno
espetava suas pétalas
nos mastros de cocanha dos ritos dos reisados.

Alguns dias depois
o possesso que vomitava capim e farelo
sobre um pragmático segmento social
do arrivismo verde-e-amarelo,
vituperava a estupenda , a estúpida classe dirigente,
escoimava
os sortilégios dos adivinhos com açoite e baraços
dos acólitos empedernidos.

Por que ninguém mais está a favor do pobre coitado,
da vítima indefesa?
Por que todo mundo prefere alinhar-se à direita do poderoso,
do algoz e do Diabo?
No açougue da rua principal do arraial
a rês e o suíno, esquartejados e pendentes
de ganchos, como asas sinistras,
mostram debaixo das vísceras e em torno das gorduras
e do sangue
os fariseus contando as moedas do mais vil
dos opróbios.

As nuvens escuras pintam e bordam nas alturas
as emergentes imagens dos reveses,
as trituradas facetas dos embriões,
as maceradas efígies dos bandidos;
pintam e bordam os versículos do pináculo,
de onde surge encombucado, o dia ignóbil,
na estreita forma de uma estrela pífia,
avermelhada nas olheiras e nas tranças dos rabichos,
a chover os foguetes das desavenças
de um ex-amor da falida, extinta humanidade,
da extinta sinceridade
dos mutantes da atualidade.