terça-feira, junho 06, 2006

Os Grãos de Pólen

OS GRÃOS DE PÓLEN - Lázaro Barreto.


1 – Mae West costumava dizer que quando era boa, era muito boa; mas quando era má, era melhor ainda. Alguém pode rir do sexo? Ela ria. Mas ao contrário do que se propagou durante muito tempo (“tome cuidado ao passar perto dela; sua libido está a ponto de explodir”), ela morreu praticamente virgem. Praticamente virgem? Sim, era uma abstêmia sexual.
2 – temos que pôr a mão no coração e reconhecer que o sexo é mesmo algo fantástico e que a melhor sexualidade está ao nível de nossas fantasias, derivadas, é claro, de nossa realidade tátil-visual-olfativa-palatável-libidinal, com um pitada de mistério aqui e outra de poesia ali.
3 – Janet Leigh (ou uma sósia perfeita, que a representava): quando a vi numa manhã dominical do Parque Municipal de Belo Horizonte (onde eu vivia na década de 50), com os seus inconfundíveis olhos lancinantes me flertando, ah, tudo mais desaparecia, só ela era toda a manhã dominical, com aquele olhar de poesia que procura um poeta (que infelizmente eu não era) à altura de seus poemas mais interiores.
4 – Drenar um brejo é necessário? O arroz pode ser plantado noutro terreno, o pasto para o gado brota em qualquer outro lugar, mesmo nos altos. Mas um brejo..., a última lembrança de um rio...: é um viveiro auto-suficiente dos remanescentes dos seres amabilíssimos da fazenda. E além disso o que será do lençol freático que nele vem tomar um pouco de ar livre?
5 – Só nas mãos dos maus praticantes é que o ato sexual vira um ato violento, uma sevícia, um estupro. Quando isso acontece, a constelação das virgens lá no céu perde o sono e vira uma manada de rãs a coaxarem, viram uma caixa de marimbondos açulados.
6 – Quem aí não se sente culpado ao saber que Deus não é feliz? As obras Dele são maravilhosas. E a alma, invisível aos olhos de fogo, intangível aos olhos de ferro, a alma é a obra prima de Deus.
7 – Mas o deus antigo dos hebreus era muito injusto com as mulheres. O Deus de nossos dias ainda tem lá suas desconfianças, mas melhorou muito sua complascência em relação às mulheres, que são na verdade suas filhas prediletas.
8 – Sim, acho que consegui aprisionar nos meus os olhos dela. Estão aqui guardados, retinados, disponíveis para novos olhares pensamentais. Mas até quando conseguirei segurar o brilho deles, tendo no meio tanta neblina, tanta distância?
9 – Todo homem que se defronta com o infortúnio, que é despojado da prosperidade material, acaba descobrindo que existe um remoto e pequeno ponto na imaginação, que não se manifesta amiúde, onde o espírito é capaz de manter-se a salvo, embora tal ponto jamais fosse suspeitado nas épocas de fortuna e abundância. Job transformou-se em primoroso poeta assim que seus rebanhos e manadas foram tomados e carregados. Assim disse James Russel Lowell (1819-1891).
10 –Cibele Ruas dizia em fins do ano passado (2003) que os chamados doces bárbaros (existencialistas, surrealistas, socialistas, hippies, feministas, desconstrutivistas etc), que invadiram e revolucionaram o século 20, estão sumindo. O que é uma pena, penso. Penso na nova barbaridade (terrível) dos terroristas, traficantes, ganguistas, sequestradores, assaltantes, homicidas-serialisatas, mensaleiros, sanguessugas, fisiologistas, os desavergonhados em geral) que estão invadindo e destruindo o século vinte e um já em seus albores. Serão defenestrados como vírus letais? Quando?
11 – O criminoso hediondo (seja de colarinho branco ou de pescoço macuquento) a fugir das pessoas de bem, a procurar o nevoeiro dos ermos, a treva dos abismos. Por que não se planta logo nessas paragens lúgubres, dando sossego às pessoas de bem?
12 – Tenho até certo ponto dominado minhas tentações. Deixei de ver num canal de TV o jogo da Seleção e noutro o filme “As Três Máscaras de Eva” – e fui tranquilamente fazer a diária caminhada terapêutica. Mas fico na dúvida: e se o jogo fosse do Cruzeiro e o filme de Hitchcock?
13 – Você se desnuda todo quando perde a vergonha na cara – e aí não tem mais como esconder a feiúra dos defeitos. O sentimento da vergonha sobrepuja o da culpa, como lá diz Silviano Santiago, que põe na boca de um personagem a catilinária contra liturgia católica da confissão e expiação dos pecados. Pois a nódoa que se aprofunda não se apaga – e assim o expediente do confessionário é apenas uma credencial para novos cometimentos pecaminosos.
14 – O espaço flutuante (da ação e da situação) onde se movem a família e a comunidade: a guerra e a paz coexistem ali, explícitas ou implícitas, diuturnamente.
15 – As oportunidades não surgem gratuitamente, não são atiradas a deus-dará, impunemente. É pré-requisito para aproveitá-las estar adredemente preparado para recebê-las e cair em suas graças e fecundar suas entranhas, injetar e cruzar seus genes, e assim procriar a posteridade dos amálgamas. Assim como as árvores recebem as folhas, as folhas recebem as frutas, assim as mãos do escritor estarão aptas e espalmadas, sanguíneas e sedosas, otimamente preparadas para receber as palavras do dicionário e com a doce desenvoltura dos bons modos amaciá-las, proferi-las no crivo dos bons sentidos, e escrevê-las com todas as letras do alfabeto de que é constituído o mundo e a vida.
16 – Uma pessoa só vale a pena ser uma pessoa se for o amor de outra pessoa.
17 – Toda noite ia finalmente deitar num leito de pedra, tendo de um lado a angústia e do outro a canseira, e no teto o vazio que precisava preencher de sonhos e realidades.
18 – Primeiro você saboreia os doces eflúvios do ilusionismo e da enganação, depois come o pão que o diabo amassou com o rabo. Primeiro as sereias cantam nas ilhas paradisíacas, depois você se torna um bebê chorão sobre o leite derramado.
19 – O que é pior: a arrogância do desafio ou a humildade da cabeça baixa?
20 – Quem quer pegar um passarinho não chega dizendo xô. Mas o pássaro que você pega e mata vira uma cobra, uma cobra que mata só de olhar.
21 – Uma mulher às vezes vale por todas. É a atriz que encarna várias personagens na sucessão dos espetáculos. A cada aparição dos lábios, a irreflexão do olhar – é assim que nela espelha-se a noite das peripécias, o dia das surpresas. E depois... a intimidade implícita, a perder de vista.
22 – Laura de Mello e Souza (é uma historiadora, mas bem que podia ser um poema, ou melhor, uma poeta) escreve que as colônias já estavam fadadas “a servirem de imenso purgatório aos pecados do Velho Mundo”. Na opinião dela o Brasil colonial era “natureza edênica, humanidade demonizada”.
23 – O caminho ao redor de uma esfera, a beleza que faz chorar. Quantas vezes já tive que recorrer ao lenço para não molhar as páginas de Dostoievski, Proust, Guimarães Rosa, Drummond e Pedro Nava, não por tristeza ou dor, mas pela emoção da beleza ardorosamente encontrada nas palavras que eram gestos, semblantes, beijos, caminhos, desejos, nuvens, fulgores, as palavras como seres e coisas. Os círculos concêntricos ampliando e desaparecendo como os efeitos de pedras atiradas na flor das águas de uma lagoa, que se desdobram em anéis de variações seqüenciais tão graciosas.
24 – Ésquilo define os gregos na peça “Os Persas”: eles não eram escravos nem súditos, -definição que condensa, na opinião de Cornelius Castoriadis, “um programa político para a humanidade inteira”.
25 – O sonho é uma espécie de vida paralela e complementar? Sem ele a vivência estaria confinada, perderia muitas de suas válvulas e de suas ações retroativas e mesmo progressivas.
26 – A injustiça continua a chover com seus afiados canivetes em toda parte. Nem vamos acreditar no dia que Deus vier de novo com o maná, as alvíssaras e aleluias bem temperadas, para estabelecer o amor despido de ciúme, de inveja, de vingança.
27 – existem pessoas inconfundíveis que, nem que passem muitos e muitos anos, jamais cairão no olvido de outras pessoas. É assim que às vezes quem está olhando o feio vê o bonito.
28 – A Ida Lupino no filme “Entre o Amor e a More”: os olhos em todo corpo, parte da bunda comida por um peixe, mas todinha auto-iluminada. Como uma pessoa assim pode um dia envelhecer e cair no ostracismo? Nem depois de morta.
29 – O verso livre é a linguagem franqueada de toda regularidade rítmica,logo uma prosa, como quer Roger Cailois? Não e não, eu penso. A própria prosa tem que ter lá seu ritmo, se quer exprimir uma continuação de vida e não sua paradeza.
30 – De fome e de sede morria o rei da lenda no pomar e no jardim onde abundavam as águas das frutas e as frutas das águas..., e é assim que morro de impotência e de ignorância ao pé das armários dos livros da sabedoria humana longamente concatenada.
31 – O historiador de arte, Jorge Coli, lamenta as lacunas e fragilidades de nosso sistema de ensino, citando Lévi-Strauss, que por sua vez lamentava a formação dos universitários brasileiros, atualizados nas últimas novidades e ignorantes dos fundamentos mais sólidos. Citam-se autores como Benjamim, Derrida, Adorno etc., sacralizando-os fora do contexto, “num âmbito provinciano”.
32 – O propalado boom da literatura latino-americana de língua castelhana, na qual pontificam os nomes de Cortazar, Borges, Fuentes, Garcia Marques,etc., lembra nostalgicamente o boom musical de tempos atrás, quando pontificavam Gregório Barrios, Carlos Gardel, Lucho Gatica, Pedro Vargas , Maria Antonieta Pons, etc., com as rumbas, tangos, boleros que de certa forma volvem hoje em forma de contos, romances, poemas.
33 – O colonialismo cultural começa cedo. As crianças de hoje gostam mais de rock do que de samba. Por que? O uso do bico deforma a boca? No rádio, na televisão, em toda parte, só se ouvem a chamada música pop. O samba agora é estrangeiro na própria terra natal.
34 – A certa altura da vida, desiludido com tudo e com todos, André Gide abriu-se: “Gosto de escandalizar as pessoas, adoro que me odeiem”.
35 – Com o alargamento dos horizontes as pessoas ficaram contraditoriamente mais limitadas? É difícil de se ver alguém desenvolto, falando à vontade das coisas e dos seres. Onde quer que esteja, está sempre espremido entre aspas, parêntesis e paredes.
36 – Os picles shakespearianos, nunca por demais citados: “me adula quem me conta a verdade”; “jamais a cólera foi boa guardadeira de si mesma”; “a palavra de amor cavalga o coração apaixonado como a plumazinha do cisne na alta onda do mar revolto: sem voltar-se para nenhum lado”. À mulher sovina, que mata o prazer ainda em botão, ele recrimina num soneto, alegando que ela dá de comer à terra o que é do céu. O que em sentido prosaico coincide em linguagem popular brasileira o que o amante afoito diz à amada avara: “se não me der , a terra vai comer”. Nutres o ardor com as próprias energias – ele acrescenta: causando fome onde há tanta abundância. Só ele mesmo, para nos ser tão fiel e prestimoso, heim?
37 – Uma pesquisa nos EUA confirma que é importante para as pessoas acima dos 60 anos de idade fazer exercícios físicos e mentais continuamente, ter a companhia de um gato ou de um cachorro – e que a vida amorosa delas deve ser valorizada, não existindo nenhum motivo para diminuir a atividade sexual. Isso eu sabia, mas julgo importante que outras pessoas também saibam.
38 – O poeta, este ser intemporal
contemporâneo do passado
do presente
do futuro
conterrâneo de Demócrito
de Jesus
e
de si mesmo.
39 – José Bonifácio de Andrade e Silva fala de um lugar e de um tempo em que o amor à natureza era sinceramente respeitável: “o lavrador que se vê pai de uma filha, planta uma floresta, a qual, crescendo com a criança, vem a ser um dia seu dote de casamento”.
40 – Como diria a Sabedoria Zen do Oriente: antes de conhecer a verdade, as montanhas são montanhas, as águas são águas. Enquanto conhecemos a verdade, a montanha já não mais parece montanha nem a água parece água.Mas depois de conhecer a verdade (a iluminação da beleza) a montanha volta a ser montanha e a água volta a ser água.
41 – Já existe um mundo novo e melhor, pronto para nascer? Gore Vidal acha que sim e aponta a unidade cidade-estado, que fez, há séculos, a Idade de Ouro da Civilização Grega. Assim ele escreve: “Graças à tecnologia, todos sabem ou podem saber algo sobre todas as outras pessoas no planeta. A mensagem que hoje é transmitida incessantemente pela Internet é a irrelevância, para não dizer o perigo puro e simples, da nação-estado tradicional” de ambição imperialista. Em outras palavras ele quer prognosticar a queda do imperialismo e o soerguimento da terra natal das pessoas, não é mesmo? Que os anjos digam amém.
42 – A expressão “mundo xuxa” começa a ser cunhada na imprensa mais consciente do país, para tentar explicar o esforço (melhor diria o despudor) de certas figuras para boiar na mídia, mesmo que para isso tenha que vender a alma aos diabos da presunção e do estrelismo imposto e não merecido. É uma variação (uma modernização?) da antiga expressão “mundo cão”, sem a mesma crueza, mas com o mesmo despudor.
43 – Falam do chupa-cabra fisiológico e esquecem do chupa-cabra ideológico. Afinal quem esvazia mais a mensagem do socialismo utópico (como uma possível escada de Jacó)? Quem usurpa da juventude bem articulada a vitamina do cristianismo e injeta nela o arrivismo das castas e corporações que se impõem a qualquer preço? Quem fundiu as imagens (agora manjadas) do FHC e do Lula numa espúria bolha gelatinosa? Quem está comendo a mão esquerda das pessoas ou tornando-as, nas pessoas, uma outra mão direita, irrisoriamente cooptada?
44 – Muito político esclerosado de nascença julga que o poder público é uma creche na qual pode aninhar seus parentes e amigos incapazes de viver por conta própria. É assim que boa parte dos recursos que deveriam beneficiar muitos, concentra-se nas mãos inábeis e desonestas que não sabem e não querem trabalhar e têm raiva de quem sabe e quer.
45 – Cristina Landman, teóloga africânder (da minoria da África do Sul), recomenda a poligamia contra certas conhecidas mazelas sociais: infidelidade conjugal, doenças sexualmente transmissíveis e o divórcio.
46 – O Padre Pedrosa, um legítimo imitador de Cristo nas idéias e nas ações, ampliou as alternativas de jejum nesta quaresma, sugerindo aos paroquianos o jejum de outras partes do corpo: o da língua (ficar sem falar besteiras e sem xingar), o dos pés (poupar os passos nos caminhos que levam à maledicência) e da vista (não olhar as pessoas com o chamado olho gordo ou com o tal de “mau olhado”).
47 – Bela Bartok, compositor e folclorista húngaro, era um apaixonado pela busca do novo no velho, assim como no Brasil fazia o nosso querido Mário de Andrade, poeta e pesquisador, que classificava as tradições em móveis e imóveis: elásticas e recicláveis as primeiras, empertigadas e inúteis as segundas. Os dois artistas e intelectuais sabiam dar nomes aos bois, abrir e fechar aspas para citar os precursores e até os diluidores. Não como certos autores de nossos dias que encontram tudo pronto e julgam que tudo lhes pertence – e nadam de braçadas nos mares alheios.
48 – Na página “África e América” da Folha de SP de 13/12/98, o pesquisador suíço Martin Lienhard faz um alerta sobre as ameaças à cultura popular brasileira, realçando o aspecto enganoso da telenovela, que é um discurso fabricado pela classe dominante para consumo da classe dominada. É preciso distinguir a cultura destinada à massa daquela produzida por grupos populares – ele diz, com toda certeza.
49 – Lido, se não me engano, num miniconto de Dalton Trevisan: “Tadinho! Tadinho dele, acabou de morrer, como eu vou viver sem ele”, dizia, soluçando, a mulher do homem doente. “Acabei de morrer nada, sua nojenta, você bem que desejava, mas....” “Mas gente ruim não morre nunca!”, ela completou, chutando os palavrões em cima dele.
50 – O casal andava tão às turras que quando o telefone tocou e o marido foi atender, a mulher ficou de lado, olhando-o, inquisitoriamente, querendo saber quem estava do outro lado da linha. O marido, percebendo, tampou o bocal e disse, olhando-a: “É a sua mãe”. E ela (sabem o que ela disse em resposta, vermelha de raiva?) Ela disse em alto e bom som: “É a sua, seu...!”.
51 – Os monopólios agroindustriais acabam com as fazendas e controlam a produção de grãos no mundo inteiro, causando desemprego, êxodo rural e desqualificação do produto. O sanduíche de presunto não tem gosto de nada “e sua textura”, diz Gore Vidal, “é de um plástico cor-de-rosa. Isso porque nas grandes criações de porcos, estes permanecem em um só lugar durante toda a vida. Como não se locomovem nem fuçam na terra, não criam resistências naturais às doenças”, precisando da injeção de muitas drogas em seus corpos “prisioneiros, até sua morte e transformação em presunto incomestível”.
52 – A missão do intelectual (o homem de bem, ou seja, o que harmoniza a inteligência com a sensibilidade) reflete o antigo objetivo de Pulitzer: confortar os aflitos e afligir os confortados.
53 – A criança de hoje em dia considera a violência como algo comum do seu dia-a-dia de tanto vê-la, incessantemente, nos canais da televisão de sua casa. Chego a pensar que ela às vezes chega a pensar que o ser humano em geral só tem mãos para esmurrar e atirar – tal é o grau de veiculação do culto da violência em nosso tempo.
54 – Já que não se pode cuspir em cena nas gravações de TV, os atores e jornalistas não deveriam repetir tanto a expressão (de muito mau gosto): “isto me dá água na boca”, fisiologicamente errônea no sentido palatável. Afinal, água na boca não é cuspe?
55 – A Televisão Brasileira está ótima em muitos casos e péssima quando acirra a competição por audiência. Aí surgem as figuras nada simpáticas dos Ratinhos e Faustões, dos Gugus e Silvios, das Márcias e Xuxas da vida.
56 – O colapso da humanidade é iminente se nada de drástico for feito contra o amor ao poder e ao dinheiro – é o que Maria Lúcia Palhares infere da leitura da obra de D. H. Lawrence.
57 – O capitalismo avançou para o caos, ao derrotar o comunismo? O crash global (crise das bolsas, falências de empresas, governos e bancos etc.) veio logo e parece que para ficar, pois não tem antídoto: o capitalismo (leia-se ganância do lucro) reina absoluto, incontestavelmente. O comunismo, ruim ou bom, era o fiel da balança que equilibrava as discussões e propugnava a democracia da distribuição das rendas. E agora, o que faremos? Sentar na beira do caminho e...lamentar?
58 – Affonso Romano de Sant’Ana fala das pessoas que envelhecem mal e desconfortavelmente. E oferece a escolha: envelhecer com mel ou com fel? “Envelhecer deveria ser como plainar”, ele diz, e não “aos trancos e barrancos como alguém caindo no abismo e se agarrando aos galhos e pedras, olhando em pânico para o buraco enquanto despenca”. Fausto e Dorian Gray (ele lembra) venderam ao Diabo suas almas em troca da eterna juventude. E se deram mal, pois o Diabo não joga para perder. O artigo do qual pincei estes dizeres, é ótimo (saiu num jornal de circulação interna da FORLUZ, subsidiária da CEMIG) do princípio até ao fim, quando ele diz: “nunca vi o sol se queixar no entardecer, nem a lua chorar quando amanhece”.
59 – Freud tem razão até nas coisas que talvez não tenha feito e nas palavras que talvez não tenha dito. Está aí o famigerado Clinton para comprovar a tese de resposta violenta do frustrado sexual. Depois de ver o nome enxovalhado no mundo todo por causa de uma aventura desastrada, na qual ele tentou até mesmo desmontar as letras da palavra sexualidade, ele, o dom juan das arábias modernas, saiu do tribunal (onde foi obrigado a confessar que havia mentido), atirando em países distantes, destruindo bens materiais e matando pessoas inocentes. Kennedy havia dado o mau exemplo, agindo desastradamente no envolvimento com Marilyn Monroe: mandou invadir Cuba e massacrar o Vietnã. Nixon e Reagan, que vieram depois, também não são flores que se cheirem. Já o tal de Bush, este não ama ninguém, só odeia. Ah, meu Deus, se o amor não buscar a felicidade, não é amor.
60 – Como sentimos hoje a ausência do político-tribuno e a presença do político-despachante! O primeiro subia a tribuna para defender as grandes causas populares; o segundo é este que entra-e-sai nos gabinetes com os tapinhas nas costas, desviando uma verba daqui e outra dali, desmoralizando as dotações orçamentárias de todas as instâncias governamentais, para unicamente defender os próprios (inconfessáveis?) interesses.
61 – A noite o frio era tanto que congelava a voz até das pessoas monossilábicas. Era preciso que o dia amanhecesse e o sol saísse para degelar o ar. Só então a voz deles ficava audível.
62 – Sade, Byron e Baudelaire, entre outros, trazem a angústia para o primeiro plano da literatura e transformam o feio, não em instrumento de beleza, mas em categoria estética autônoma. Igualmente estão em sintonia com eles as formas sobrenaturais de El Greco, a movimentação trágica dos barrocos, os pesadelos de Goya, a epilepsia de Brueghel, as figuras anãs de Velasquez. Foi assim que modernamente se rompeu a estética tradicional de filiação helênica (adaptação de LB de um arrazoado de Jamil Almansur Haddad).
63 – Relativamente à idade da criação do planeta, os velhos são sempre mais jovens do que os novos.
64 – O doce pássaro da juventude não só voa no esplendor das plumas como canta na graça das flores. E tem a forma física específica e o conteúdo espiritual da conjugada leveza e mobilidade.
65 – É difícil e desnecessário polemizar com as pessoas mentalmente bloqueadas. O raciocínio delas é lento, curto e grosso: vai e volta indefinidamente no restrito círculo do cérebro hermeticamente fechado. Polemizar com eles é perder tempo e torrar a paciência. Em incurável bronquidão , o simplório desafiador dialético julga que o outro não compreende mas aceita seus argumentos porque é um tolo como ele é. E é aí que a conversa cai no marasmo do desentendimento às vezes irrascível e belicoso. É um atraso de vida polemizar com esses bloqueados: suas premissas e conclusões, de tão fúteis, já estão antecipadamente invalidadas. O que deveriam é voltar à infância e começar tudo de novo ou então ir plantar batatas ou abocanhar seu quinhão e fazer a demorada sesta numa cama bem fofa e sombreada.
66 – O filho pode perdoar o pai cruel que mesmo na crueldade acredita agir corretamente, imbuído do egoísmo que provavelmente contraiu à sua revelia ao longo de sua formação? O filho pode perdoar, tendo a certeza que o próprio pai vai certamente se arrepender de todo mal que praticou, quando atingir a triste fase da extrema solidão da velhice.
67 –“ Se o espírito não tem limites na criação, a matéria o limita na criatura”, escreveu o poeta e folclorista Mário de Andrade. A música na voz tem muito de condicionamento fisiológico: as paredes e cavidades da garganta, as arestas e pétalas da língua, os vasos comunicantes entre a traquéia e a laringe à extensão do exôfago, tudo isso tem suas diferenças nas resultantes vocais de Martinho da Vila, Aracy de Almeida, Jamelão, Nara Leão, Lúcio Alves, Adriana Calcanhoto e Milton Nascimento. A entonação e o volume, a verve e o esgar, o timbre e a extensão, tudo é distinto nas individualidades interpretativas da canção imaginada pelo compositor-criador e recriada pelo cantor-criador.
68 – Apreciei muito um dos quadros do especial de TV sobre a premiação do Oscar/98, justamente o que focalizou os astros e estrelas da chamada fase áurea do cinema, que ainda estão vivos. Encantou-me profundamente rever, numa aquarela risonha e franca, as figuras que encantaram minha adolescência e juventude, entre as quais Patrícia Neal, Claire Trevor, Tereza Wrigth e Jenifer Jones, que aproveitei como personagens (a Patrícia e a Claire, marcantes) em meu romance “Por Que Choras, Saxofone?”, ambientado na Belo Horizonte tão cinematográfica dos anos 50.
69 – Enquanto os governos brasileiros (dos municípios, dos estados e da federação) não conseguem resolver os dolorosos problemas dos menores abandonados, um casal de abnegados (ela alemã e ele paranaense, ambos diplomados em cursos superiores, no estrangeiro) começa a executar um projeto de aldeias educativas para menores carentes numa fazenda (que por sinal pertenceu a um trisavô meu) adquirida por uma ONG alemã, em Marilândia, a 30 km. de Divinópolis. O projeto tem tudo para dar certo, é de uma simplicidade franciscana, que inclui a participação efetiva da comunidade e se baseia no princípio cristão do amor entre os semelhantes. Conversando com os dois constatei uma coisa rara, e que devia ser comuníssima: a vida humana tem a mesma importância numa criança de rua e numa criança palaciana. E na ação deles fica também evidente que a humildade dinâmica constrói e que a vaidade improdutiva (que tanto vemos em tantas administrações da miséria) destrói.
70 – A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão deixa de ser um guia, uma diretriz informativa para estimular o eleitor e torna-se uma chuva de aborrecidas pregações inverídicas. Se a lei eleitoral quer ser justa e otimista com o processo democrático devia estipular melhormente os critérios dessa propaganda, atrelando-a à verdade histórica do processo democrático, tal como ele se apresenta aos olhos e ouvidos do descrente eleitor, carregado ao longo dos anos de chulice e insensatez, de despropósito e clientelismo, de nepotismo e corrupção ativa e passiva, de irresponsabilidade na gestão do serviço público – causas e conseqüências de tão longo e agudo sofrimento popular. Em vez de perorar no vazio e na mentira, no engodo e no descaramento, cada político devia aproveitar seus minutos gratuitos na mídia caríssima para fazer um sincero, um rigoroso depoimento de mea-culpa.
71 – A escritora Leyla Perrone-Moisés , em seu livro “Altas Literaturas” esclarece muita negligência da vida cultural de nossos dias no país. Afirma que “os teóricos da escola de Frankfurt discutiam a relação entre arte e política em termos de ação emancipadora do homem. Hoje não vemos nem estetização da política nem politização da arte; o que vemos é uma circulação indiferente da arte, como um dos bens de consumo da sociedade capitalista”. Estado demais é terror, ela diz numa entrevista ao caderno “mais!” da Folha , “mas o que estamos vivendo é o Estado de menos. É a entrega dos destinos, não só da cultura, mas da sociedade, às leis do mercado, que não partem de avaliação nem de critérios de valor, pois só visam o lucro. ( ) O que está acontecendo é uma nova barbárie”. No livro, a certa altura, ela põe a ponta do lápis na crise atual de nossa literatura: “passaram a ter sucesso os escritores fotogênicos ou de vida interessante, as biografias dos mesmos começaram a ser mais vendidas do que as próprias obras.”
72 – O articulista da Folha de São Paulo, Marcelo Coelho, comenta o livro de Renato Mezan “Escrever a Clínica”, no qual o psicanalista tenta montar um curso para melhorar o estilo de escrever dos pós-graduandos em psicanálise e também nos outros cursos. Assim o faz o por estar “chocado com a má qualidade dos textos que é obrigado a ler como pesquisador, orientador de teses e professor universitário”. No fim do artigo, Marcelo escreve: “Mezan está lutando contra as falsas vocações, contra a absoluta falta de talentos”. E fico mais uma vez na dúvida sobre a preferência que as editoras brasileiras têm por livros assim acadêmicos, mal escritos e de sacrificante leitura. Não é um contrasenso?
73 – Pequena Homenagem a Liv Ullmann:
A boca carnuda, os lábios revirados
como os de quem vive a beijar
(inchados de tanto beijar?).
Andando dentro de um sonho,
como se o sonho fosse uma paisagem.
Tire a parte azeda do amor
deixe apenas a mais doce.
Assim quando a luz do meio apaga,
a das beiradas enrodilham-se, rosadas.
74 – Fragmentos da Poética de Antônio Carlos Secchin, publicada no jornal “Poesia Viva” (Rio, agosto de 1997): “evite acordar o incêndio implícito de cada fósforo. E quando nada mais tiver a evitar, evite todos os horóscopos (...) Não nos iludamos: a disputa pelo trono do poder literário anti-acadêmico é tão ferrenha e feroz quanto a que se dá do outro lado. (...) As noites de autógrafos se transformam em rituais simultâneos de batismo e óbito de um livro, que, fora dali, não será mais visto em lugar nenhum”.
75 – O desemprego campeia livremente de norte a sul, de leste a oeste. As previsões são ainda mais sombrias. Os entendidos em projeções dos anos futuros conjeturam que apenas 20% da força de trabalho mundial será empregada. E os demais 80%: o que farão quando cansarem de ficar à toa? Vão procurar chifres nas cabeças dos cavalos, como já fazem muitos dos desocupados de hoje?
76 – Constrangimento, melancolia, obscurantismo. Na homenagem cultural que a Biblioteca Pública Municipal tentou prestar à memória de Federico Garcia Lorca, um dos melhores poetas do século 20, no transcurso de seu centenário, o publico (dez pessoas chegara a ser um público?) ficou surpreso de ser, ele próprio, tão escasso. Que de lá onde está, o grande poeta espanhol não nos visse tão pequenos neste mundo tão grande.
77 – O talento humano é um bem que nenhuma nação pode desperdiçar. Tal desperdício seria dramático para o indivíduo e criminoso para a sociedade: assim afirma C. K. Zumayk. Mas o que sempre vemos no serviço público brasileiro é o prêmio à incompetência e à desonestidade e o castigo à competência e à honestidade. Quem estuda e aprende fica do lado de fora, a ver e lamentar um país marginalizado, eternamente abismado.
78 – Os que em nome do progresso e no afã do enriquecimento destroem a natureza, sem proporcionar os benefícios do progresso aos outros, esses empobrecem a vida e o mundo de seus descendentes. Uma frase mais ou menos assim é que James Fenimore Cooper queria que fosse escrita em grandes letras metálicas nas estradas e estações de veraneios.
79 – Gostei muito da opinião de meu filho sobre os alemães – ele que estava estagiando numa Universidade de lá: “Todos são muito corretos, gostam de tudo muito certo e na hora certa. São rigorosos, mas isso é o correto. Estou gostando muito daqui, embora esteja com saudades daí.”É claro que o jogo de cintura brasileiro, seu flay-play e non sense, são comportamentos mais divertidos. Mas infelizmente toda a virtude dessa bela afabilidade está hoje sendo maculada pelo estigma da desonestidade que provem da chamada lei de gerson que recomenda levar vantagem em tudo, doa a quem doer.
80 – Durante muito tempo acreditei que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso fosse um homem de bem. Votei nele convictamente para Presidente, mas nem tive tempo de comemorar sua vitória: logo-logo ele fez os acordos espúrios com partidos e políticos notoriamente corruptos – e assim ele, em vez de governar sadiamente, danou a salvar bancos trapaceiros e a cooptar nomes e legendas espúrias no afã de garantir a reeleição, o que infelizmente acabou acontecendo.
81 – Presidente norte-americano bonzinho, simpático, humanizado? Acho que não vemos desde os tempos de Jéferson e Lincoln. A própria megalomania do cargo (tem que ser o dono do mundo) já faz de qualquer um daqueles sobrinhos do Tio Sam (sardentos, alourados, sorridentes, pragmáticos e arrivistas) uma repetição do Truman da bomba de Hiroshima, do Kennedy das invasões de Cuba e do Vietnã, do Nixon do Watergate, do Reagan reacionário e agora (com o perdão da má palavra) do Clinton com a cara de bezerro desmamado antes da hora, do chamado zipergate. É tudo farinha do mesmo saco, dema a dema não tem escolha. A fôrma de fazer de um político um homem de bem quebrou-se e nunca mais será refeita, tanto lá como aqui? (palavras escritas antes do aparecimento de Bush, certamente o pior da fornada.
82 – O amor tem seus altos e baixos, alegrias e tristezas, em toda sua inteireza muito de bom e muito de ruim. É uma teia de fios desconsertantes, uma incessante indicação de incertezas, um viveiro de dúvidas. Mas é também uma fonte de boas afirmações: doçura, felicidade, fervor, sublimidade. Diante dele os juízos de valor têm pernas curtas e braços canhestros: as pessoas pisam nos rabos, mordem nas línguas, dão varadas na água, exultam e deprimem com a mesma facilidade (e regularidade). Os conceitos de fidelidade, constância, traição, adultério, continência, param no ar das hipóteses e não no chão firme dos respectivos postulados. É levado da breca, esse tal de amor, essa flama conduzida por Cupido, o deuzinho grego que atirava flechas a torto e a direito nos corações confiados e arrependidos. A sociedade monogâmica sofre com suas diabruras.
83 – Pobre gosta é de luxo, já dizia o carnavalesco Joãozinho Trinta. O historiador francês Marc Ferro afirma que o socialismo ruiu de dentro para fora e não o contrário: a sociedade por ele produzida cansou de dividir as dificuldades e desejou mudar para uma vida mais livre e mais fácil. Mas o impasse do bem estar social permanece, pois ao escapar do espeto (comunismo) caiu na brasa (capitalismo), ou seja, nos braços da mesma opressão. Mais vale, penso, abraçar de forma ampla e leal o cristianismo, politizando- no bom sentido, ou seja,oxigenando um pouco seu dogmatismo, esclarecendo um pouco o seu misticismo, sem banalizar seu contexto. Assim atingiremos (quem sabe) a finalidade cristã de arrancar do coração humano a ambição e a crueldade, o que afinal de contas é também a finalidade de toda humanidade que ainda não perdeu a linha simétrica que liga a sensibilidade à inteligência.
84 – Para o crítico literário Steiner, o escritor Solzhenitsyn, em sua fúria consciente, é o grande sobrevivente de nossa era conspurcada pela frivolidade do consumismo dessa execrável economia de mercado. À essa objeção, o escritor russo (da mesma estirpe de Dostoievski e Tolstoi) contrapunha “a nobreza de espírito, o sacrifício pelos ideais, a proximidade a Cristo e aos santos”. Os frívolos que o crucificaram ontem e que desprezam seus livros hoje, esses passarão, como a fumaça das lixeiras e a poeira da terra petrificada. Ele ficará.
85 – A poesia de Leonor Motta Vieira, sintonizada no fundo musical das ocupações e preocupações de nossos dias. Quando o amor físico ( o elo natural entre os amantes) não se aproxima a ponto de fundir-se, o que prevalece e fica no ar são os mimos, os flertes e signos, os abstratos ícones da mímica.
86 – O sonho ecológico reincidente. A figuração móvel, tremeluzente,de um círculo branco rodeado de tarjas verdes: a brancura do deserto e a verdura da vegetação. Nota-se na circularidade tremeluzente da brancura um avanço paulatino nas bordas verdejadas. É o avanço da morte sobre a vida, na natureza?
87 – A tristeza é um sentimento dominável,que se localiza abaixo de nossa força de vontade.Para removê-la é só afastar com as mãos do pensamento os objetos deprimentes que se aproximam, ou seja, é só trocá-los pelos rudimentos e auspícios da alegria.
88 – Vi hoje um anjo que não me viu. O que estou a dizer? Um título de poema? Alguém amou alguém à distância, num gesto afável e generoso de onanismo mental delicioso? Se for apenas o título de um poema, por que não o escreve e manda aos quatro cantos da paisagem cotidiana?
89 – Quando você jura lhe pertencer,
arrepiada e sorrindo
e ele lhe jurar seu amor ser
imortal, infindo –
moça, é bom escrever:
um de vocês está mentindo.
(Dorothy Parker,trad. de Daniel Piza).
90 – Bouchardon, o escultor, disse, há dois séculos: “Quando leio Homero, sinto-me como se tivesse seis metros de altura”. ( ) O grande poeta nos proporciona aquelas palavras-chave, cuja posse nos transforma em mestre de tesouros insuspeitados existentes nas cavernas do pensamento, do sentimento e da beleza e que se abrem a nossos olhos sob o poeirento caminho da vida diária. (James Russel Lowell).
91 – dizem que o famoso músico mexicano Xavier Cugat gostava tanto de mulher, que mesmo depois de morto, sentindo a aproximação de uma, de dentro do caixão abriu os olhos e disse: “Ô minha linda!”
92 – O folclore é uma disciplina essencialmente humanística. Segundo Jorge Luís Borges, “o Indostão atribui seus grandes livros ao trabalho de comunidades. O que um homem não pode fazer, as gerações o fazem”. E Kipling disse que a um escritor é dado inventar uma fábula, mas não a moralidade dessa fábula.
93 – Vendo o filme LAMARCA, de Sérgio Resende, lembrei-me de meu pai, falecido quando eu contava apenas seis anos de idade. Ele era fazendeiro, comerciante, farmacêutico homeopático e produtor cultural no Distrito do Desterro (município de Itapecerica, MG): dirigia o Clube Dramático, era pintor de aquarelas em paredes, músico e regente da Banda, poeta e ator teatral. Na parte final do filme o nome de Zequinha Barreto é dito e repetido várias vezes, com ênfase – e o personagem é assassinado pela repressão da ditadura militar, gritando “Viva a Revolução!” Zequinha Barreto era o nome pelo qual meu pai era conhecido e é lembrado (com carinho, graças a Deus) até hoje.
94 – Carlos Drummond de Andrade, o poeta mais social de nossa história literária, escreveu em uma de suas crônicas que no Brasil o último escândalo nunca é o último, é apenas o anterior ao próximo. Na verdade o tempo brasileiro não parece constituir-se de ciclos sazonais e de fases lunares, mas sim de períodos de violência de ação e de situação. Já sofremos as repetidas fases das fraudes da Previdência e da falsificação de medicamentos e da compra superfaturada das ambulâncias; da corrupta compra de deputados corruptos; das chacinas em presídios e favelas e arrastões em ruas e praias; das fraudes e propinas na licitação de empreitadas de obras e serviços públicos; do extermínio puro e simples e impune dos focos de resistência às arbitrariedades; da onde de seqüestros duradouros, relâmpagos e/ou letais; das constantes e periódicas invasões dos desordeiros chamados de Sem Terra; dos sistemáticos assaltos aos caminhões de cargas; do socorro governamental aos banqueiros e usineiros; do fisiologismo e do nepotismo camuflado aqui e escancarado ali; da ascendência e mandonismo de figuras hediondas tipo PCFarias, Marcos Valério, Zé Dirceu, Paulo Maluf, Eduardo Azeredo, açambarcadores do erário público; da acumulativa, impiedosa escalada do desemprego; da proliferação dos mensaleiros, agora a nível federal, escandalosamente impunes; da diuturna insegurança pública de todo e qualquer rico ou pobre mortal não filiado às quadrilhas do chamado crime organizado; e das rebeliões dos presídios de insegurança máxima, que extrapolam para as ruas como focos de desesperada guerra civil. Até quando tal desordem pública constará da vulnerável e indefesa agenda das pessoas de bem, honestas e trabalhadoras? Qual será a manchete do próximo escândalo desse impiedoso destino da vida nacional?
95 – Está morta a égua, como dizia a titia lá na roça, quando ficava sabendo de algum escândalo público. Hoje os presidentes da república, os ministros, os deputados e senadores, os juízes, os empreiteiros, tantas excelências implantadas na nau dos insensatos. O que ela diria hoje das atuais circunstâncias? A vaca foi pro brejo? Só Deus sabe. Na verdade andamos sempre espremidos entre aspas, parêntesis e paredes, neste país que nunca alcança a maioridade, ou seja, a seriedade. É sair do espeto e cair na brasa, como a tia diria. De tal maneira que a palavra política virou sinônimo da palavra corrupção.
96 – Meu Deus, quando a falência do poder público chega ao cemitério, é porque o demônio está mesmo tomando conta. Todos os acompanhantes de um enterro, outro dia, ficaram bobos de ver o cenário de terra arrasada, de coisa desarranjada, de infinita tristeza e agudo desespero de um dos cemitérios da cidade (nem preciso dizer qual deles, pois a situação é a mesma em todos, exceto no do Centro, que foi construído e estruturado no tempo que havia mais seriedade no meio dos administradores públicos).
97 – E assim é o capitalismo, que com o tempo piora cada vez mais. Agora seu tacão castrador reina absoluto em todos os domínios da atividade humana, escangalhando até mesmo setores sólidos como o da produção e divulgação cultural. O sociólogo alemão Robert Kurz é bem claro em suas recomendações: “os produtores culturais talvez devessem associar-se em grupos, sindicatos, guildas, clubes e ligas anti-mercado, preocupados não em vender, mas em salvar os recursos culturais da barbárie do mercado”.
98 – A boa música popular brasileira está emudecendo aos poucos. Às vezes, no trânsito das ruas e das estradas, sinto um pungente mal-estar, fico um tanto inquieto e preocupado. O que estaria acontecendo com o carro ou comigo? Aí resolvo desligar o rádio e assim como que por encanto a situação fica desanuviada e tudo se normaliza. Percebo então que a barulheira da pretensa música é que desatinava o ambiente dentro do automóvel.
99 – Quando o tiro sai pela culatra: o caso do psicólogo com a mocinha traquinas. Ela era a paciente no começo e ele ficou sendo no fim.
100 – As donzelas guerreiras são tão numerosas na história, na literatura, na mitologia, na religião, que talvez possa dizer que não existia etnia que não tenha pelo menos uma heroína representativa da importância feminina. Na mitologia grega, Ônfale obrigava Hércules a cardar e fiar, vestido de mulher, e ainda lhe aplicava chineladas, quando ele se atrapalhava. E mais: Electra, vingadora do assassinato do pai; Antígona, desafiando a lei da cidade; Atalanta, que luta contra o javali divino e o vence. No sincretismo religioso afro-brasileiro, a Iansã, a que roubou o raio dentro da boca de Xangô, tornando-se a senhora das tempestades. E na literatura, a metamorfose de Maria Deadorina de Bettancourt Marins em simplesmente Diadorim, sob o disfarce dos cabelos cortados, os seios apertados pelo gibão de couro. O mito é reiterado na literatura oral e livresca de todos os povos, desde a famosa balada de Um-lan, do século V na China, até à figura histórica e lendária de Joana D’Arc, na França medieval.
101 – Maria Esther Maciel, poeta de Patos de Minas, há muito radicada em Belo Horizonte, assiduamente afeita aos ensaios e às aulas de teoria literária na UFMG, mandou-me gentilmente dois de seus livros “Dos Haveres do Corpo” e “Triz” que depois de lidos e relidos e absorvidos estão na privilegiada estante da mais bela poesia, bem ao lado dos de Emilio Moura, Dantas Mota, Manuel Bandeira, Drummond, Henriqueta Lisboa, Kaváfis, Garcia Lorca, Auden, Keats, Sylvia Plath, Pessoa, João Cabral, Marianne Moore e tantos outros do mesmo nível, com exceção dos divinopolitanos, que merecem uma estante exclusiva. Os livros dela, cintilantes de versos como “tramar nos olhos fios de palavras”, “parti/arrastando a sombra/ de tua presença”, epigrafados pelos aforismos medulares de Roland Barthes, como o que diz: “sei então o que é o presente, esse tempo difícil: um simples pedaço de angústia.” E também, entre epígrafes de Cioran e de Clarice Lispector, ela vem corporificar a própria ausência “entre o sigilo e a ressonância, o óbvio e o absurdo, com seu belo conjunto de fractais”, como afirma Maria Luiz Ramos a respeito de seus trabalhos. E é assim a iluminação de um de seus renovados flashes:
“É noite mas não sei a hora:
entre mim e o aqui agora,
a sombra e suas sobras”.
102 – Algum tipo de catástrofe, diz Reinaldo José Lopes, atingiu os mamíferos da América do Sul há cerca de dez mil anos. Muito mais que os portugueses e seus sucessores, a catástrofe é a que fez mais estrago na fauna: desapareceram os ursos, cavalos, megatérios (preguiças gigantes), gliptodontes )tatus do tamanho de um fusca), macranquênias (herbívoros), tigres de dentes de sabre. Só os pequenos mamíferos salvaram-se da hecatombe.
103 – Muitos bairristas prosaicos esnobam minha bela e querida Marilândia, ignorando a grandeza de seu passado, quando, com o nome de Desterro, era um Distrito polarizador na região, que circunscrevia uma área territorial enorme com partes que depois perdeu para Carmo da Mata, Cláudio, Divinópolis, Pedra do Indaiá e São Sebastião do Oeste. Naquele tempo, metade do século 18 até a metade do século 20, o lugar abrigava uma população mais numerosa do que a do Espírito Santo das Itapecericas (hoje Divinópolis) e de todos os outros distritos regionais da antiga Villa de São Bento do Tamanduá, hoje Itapecerica. Tinha um Batalhão da Guarda Nacional (meu trisavô Bernardo José de Oliveira Barreto foi o Comandante, por décadas), com centenas de praças na ativa e na reserva. Tinha um Juizado de Conciliação, um Clube de Arte Dramática, uma grande produção de rapadura, aguardente, café e, em tempos anteriores, de ouro, muito ouro, nas minas da Lavrinha, do Areado, do Bom Sucesso e nos rios Boa Vista e Itapecerica. É um lugar aprazível (conserva a igreja de Nossa Senhora do Desterro, uma das mais antigas de Minas), banhado por dois rios paralelos e eqüidistantes e servido por uma ferrovia e por uma rodovia. Como se diz: lugar bom está ali, só falta é trato. Terra também do grande estadista Gabriel Passos. E dos irmãos e sobrinhos do Padre Francisco Guaritá Pitangui, deputado provincial e depois deputado geral, nos meados do século 19, quando era o pároco local.
104 – Um simples pensamento
(por mais singelo e bolo que seja,
por mais complexo e inteligente que possa ser)
é o que resulta do esforço de uma chusma de neurônios,
uma chuva de pingos da mesma natureza,
uma acareação de componentes,
a coerção de uma força de vontade:
assim chegamos ao mesmo tempo
à iniciativa da finalidade,
à vontade da vontade da vontade.
Mas que façanha danada é esta,
afinal de contas?
105 – Se der asas ao medo, ele vai longe dentro de você. Motivos não faltam: as sombrações dormem e campeiam nas quinze bandas da crosta terrestre. E mesmo no subsolo: cole os ouvidos na grama ou na nudez da terra...: não ouve os passos e os gritos dos gigantes e dos pigmeus, não vê as desgraciosas feições, os azarados movimentos? Dê trela às visões desavisadas e logo chegarão as figuras medonhas, as garras e os ferrões, as beiçolas e cabeleiras, os esgares embutidos e as vísceras expostas. Mas na verdade tudo isso é quase nada relativamente aos perigos que corremos diuturnamente diante do chamado bicho-homem.
105 – Os alforges noturnos da bruxaria despencam dos galhos e dos troncos vivos do arvoredo tolhedor das alturas e olhador dos chãos. Uma fera espiona naquela moita fechada? Uma interrogação atrás do cipoal? As atenuantes estrias filtradas no emaranhado das folhas. As criaturas sem bojo como as borboletas e as aranhas e as siriricas são profundamente superficiais, ou seja, o âmago e a pele delas é a própria encarnação do espírito e da beleza delas. Cada coisinha ou coisona tem lá seu íntimo significado? Tem? Tem! Então por que a nossa vida é tão estreita e pequena num mundo tão largo e grande?