domingo, julho 09, 2006

Falemos da Viagem

FALEMOS DA VIAGEM - Conto de Lázaro Barreto.

I

Se bem entendi o que disse, eu disse: estou no alto do morro, a enxugar o suor com a barra da camisa de riscado. Disse o que no momento penso. O homem do campo tem mais cerne, agüenta mais as pontas e as raízes. Se bem entendi, não sabia mais como ali chegara, já no fim do silêncio. “O gato nunca cai, ele sempre pula”, disse o compadre Zé Senhorinha, apiedado de meu cansaço, ele também mergulhado em cismas, penteando a barba com os dedos afilados. Alguns raios de sol batem em sua cara. Reparo no que mais falta nele: a sobriedade que falta ao ébrio ou a devassidão que falta ao puritano? Assim ruminando é que chego à beira do rio, onde o compadre capina a roça de milho, a cuspir nas mãos e esfregá-las uma à outra, antes de espalmá-las no cabo da enxada. Avanço pelas beiradas da roça, desapareço no meio do capim-gordura, até ganhar a subida do outro morro que leva ao Arraial.
Tinha visto mais um filme de John Ford:
Cathy Downs em preto e branco é rosada!
O azul é verde e amarelo perto e longe:
olha ele ali, depois do rio, a voar!
Dez mil rezes se extraviam, canta Lynda Darnell. O que ela me pedir é mais dela do que meu, como diria Shakespeare.
O violão faz o fundo das tristezas
a chuva castiga os ossos dos mortos
a poeira em baixo, a chuva em cima:
onde deixamos a pureza se perder?
A noite não dorme nem deixa dormir
o crepúsculo tange o rio para o lado verde
do amarelo....
Hamlet pode estar no meio dos bandidos e vaqueiros do velho oeste? Victor Mature está se matando aos poucos? Uísque no bar, tosse no alpendre,...mas tem, isso ele tem, duas lindas namoradas em Tombstone.

As árvores sobem o morro comigo, levam a relva e o gado para aos altos do futuro e os baixos do passado. Tião José de Almeida, um outro amigo, destampa a caixa de bilosca, tira a revista de fotos e poemas, toma um gole de café, fica com os cotovelos rentes aos lados da cintura – e a seguir embrenha-se nos sertões do quintal de sua casa, a pensar e a lembrar do tempo que trabalhava na estrada de ferro e vivia no saco de lombrigas do Diabo. Assim mesmo como rezava Bosch:
“por causa da ira de Deus, o Diabo estercou-nos”.
Assim mesmo como rezava Lutero:
“o ânus do mundo é o ânus do Diabo”.
Assim mesmo conforme rezava Marx:
“quem quer a riqueza, quer o poder”.
Alguém aí nos arrebaldes conhece o tal de heroísmo nacional?, tive vontade de perguntar, outro dia, a um dos da roda dos vadios. E o heroísmo social e mesmo o particular? Alguém aí sabe por que a nossa ficção tem que ser diferente das outras? E por que nosso teatro é desfibrado e desluzido?

E daí, seu imoralista de uma figa, e daí? Alguém está mais uma vez a me jogar pragas e pedras? De olhos fechados, eu juntava as imagens dos caminhos, guardava as visões nos bolsos mais íntimos e também as palavras que vinham como chamas de lenha nova, como as que vinham da boca do ator Christopher Fry. Que não me estranhe quem me ouve, quem me vê.Sou meio cinéfilo, meio roceiro. Ah, pois, sim. Vi uma vez no Brejo do Amparo o carro de bois a cantar na rua, de parelha com a casa da venda, uma de oito portas e sete janelas frontais: o menino candiava, o rapaz tangia os bois, motrecado no cabeçalho do carro de sucupira. Levava uma carga de rapaduras para o doce de pau de mamão de algum casório no Lavapés, no Capão dos Porcos?

Viajei a cavalo, de trem de ferro, a pé, até chegar aos belos livros das mais lindas estórias. Em Bonsucesso do Rio Grande, onde vivia a minha primeira esposa (com a qual infelizmente nunca me casei, nunca me meti), os jovens promoviam o chamado baile do além, já que era o último sábado de julho daquele ano. As caveiras esculpidas em mamão verde eram usadas como luminárias. Uma corda de bacalhau, desfiada, atravessava o ar acima das cabeças, repleta de aranhas, morcegos e bruxas. Os símbolos da morte celebravam a vida, no seio da juventude daquele lugar perdido nas brenhas. E era assim emocionante nas surpresas de cada momento que vinha das portas e janelas do salão daquele clube social. Minha ex-primeira esposa não sabia o que fazer para me agradar, mas eu ficava sem graça. Já era casado muitas vezes em outros lugares.

Quando cheguei ao Povoado de Xarqueada, desisti de tudo que já tinha conseguido na vida. Entrei numa moita de bambus, deitei na relva, senti o mato crescer dentro e fora de mim. Aqui ninguém vai roubar minha alma, pensei. A poesia é a tábua rasa, o covil escuro, a viola do pagode:
Se você pensa que sabe tudo
está é confessando que nada sabe,
sabendo que o campo do conhecimento é feito de areia movediça. Se os olhos da amada confessam cumplicidades é porque prometem intimidades e momentos poéticos. É nesta hora que é hora de matar o bicho, tomar a nossa caipirinha, diz o compadre Zé Senhorinha, lá na venda do Modesto, na Volta do Brejo. O lápis risca o desenho das coisas e sobre o riscado, desenha outras coisas. Ele manca um pouco enquanto anda e seu olhar, enquanto as pernas andam, manca também. Não é hora de descumprir tratos, tampouco de me deixar na dúvida zangada. Fungando um pouco, desamarra as embiras das alpercatas e despede-se de mim, rumando para os lados da Capelinha. Estava no quebra-corpo da cerca que divide o pasto do padre com o pasto do Zé Pedro. O que fazer agora com o resto da tarde de mais um dia passado ? Desci o morro da Fontinha, entrei na grota, entrei bem devagar, na esperança de aprender alguma coisa dos mistérios daquele lugar assombrado. Fui arredando as latadas vegetais até chegar na parte escura do chão e do ar, ambos contaminados de outras feições:
pressentir o perpassar instantâneo
cauteloso e provocante
de um daqueles gênios das grotas que restaram da floresta que havia ali:
notei um rastro tangível no ar?
Um pé de vento nos pés das árvores e nas moitas de capim, nascidas e crescidas no lodo negríssimo?

Noutro dia tomava café na casa de adobes da rua enviesada, que morre no cemitério de Caquende de Catuá. Que o amor não estorve a vida, que a vida não estorve o amor – dizia na parede a fotografia da moça da casa, chamada Elza, uma flor dos campos, de olhos marrons. Vendo-a luminosa e ressabiada (uma coragem contraída, uma saúde recolhida?), a servir café, a escorregar entre portas e paredes, notei que a beleza oculta das pessoas às vezes dá mais na vista do que a mostrada através de anúncios. Mesmo assim fico sem saber. Deveras. A fisionomia enigmática à distância (no pensamento, no sonho) é ainda mais enigmática nas proximidades do amor. E o nevoeiro cobre o resto do mundo.
Só Caquende de Catuá permanece incólume
entre as barranqueiras e penedias circundantes
as flores roxas do cemitério, a igreja dos bandeirantes
dois meninos de estilingues, debaixo da bilosqueira
um cavalo quase a entrar no nevoeiro, coitado
A sombra da poesia acende uma palavra em Divinópolis,
finca as estacas no caos, em Divinópolis
orienta os escorraçados da roça e os humilhados da cidade
acende o estro no qual ardem
a ressonância gregoriana, as disquisições teológicas
e Deus, por um triz, ora essa ora essa
e Deus é o pique potencial de sua poética
que puxa em latim a ladainha das novenas
e quando estamos na genuflexão das graças e expiações
a poesia desafina os conceitos seculares que vinha cantando
e garante em voz alta que o cu feminino é lindo.

Quando estive na Catedral de Reims
(nunca estive lá o tanto que desejava, como diria Ferlinghetti)
senti Deus nas asas do invisível a grifar imagens
eu morrendo de medo de perder as linhas da beleza
de perder os movimentos que sigilosa a beleza faz
(como diria Ferlinghetti) –
mas logo vi a boiada passando na única rua da Barra do Coité
a levantar poeira abrir janelas tilintar o meio-dia
rumo à rocha negra da encosta
onde encosta o velho arraial.

Em Paredão de Minas o nosso Tião José de Almeida
vê na frincha da porta, na rachadura da parede
a nudez a neblina a diadorina Bruna Lombardi...
Depois que viu, procura a segunda dobra do tempo
os minutos que fluem no interior da fruta
a luz que vem do outro lado da estrela
o banho de corpo inteiro na bacia de cobre
as gotículas pousadas nos poros
o feliz enlace da ossatura e da canção.

II

As gotículas pousadas nos poros
o feliz enlace da ossatura e da canção.

Quando chegou ao Chapadão do Pau torto no lombo do burro tardio
o Tião se ergueu da sela
aspirou o ar terapêutico da verde planura
aqui e ali riscado de roças caminhos telhados bicharada
as teias de tua casa (lá diz a trovinha portuguesa)
são bonitas, têm virtude
entrei nelas doente
saí delas com saúde.
Numa daquelas casas, daqui a pouco ( o Tião pensa)
vou almoçar feijão com torresmo e farinha de mandioca
não precisa de mais nada para ser feliz
(talvez um pouco de arroz vermelho e pimenta de bode?).

Três dias depois o ávido Tião acompanha o enterro de um amigo
em São Sebastião do Curral:
enquanto o féretro se move em rezas e epicédios
ele promete a si mesmo viver muitos e muitos anos
“quero ser levado à última morada
de alma lavada
o corpo leve nas mãos dos parentes e amigos”.
No que disse me disse no entanto, quando
cabeceava no alpendre, quem sabe a citar
João Cabral de Melo Neto:
“alguém me diz toda noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos da viagem, eu lembro.
Alguém me fala da viagem”.

Chego de canoa à praça do Arraial do Rio das Mortes:
as casas dormem
quando sonham, acordam
o galo no topo do cruzeiro canta e recanta
sem atordoar a doce fluência do silêncio
as ovelhas pastam como no antigo testamento
um morador (o único?) quenta sol no banco de pedra
seja tudo oferecido ao amor de Deus e das Criaturas
Dias depois atalhando um dos caminhos
torcendo o pescoço nas árvores de pedras
vi o muro telhado do lugar chamado Sopa
a recortar os triângulos escuros do cruzeiro de viático
A parte superior da igrejinha de pedra
a cruz na torre que aponta o senfim do além
tendo em cada braço um par de andorinhas
assim vi devagar e demorado
a parte do céu que desabava sobre as bananeiras
e nem assim Deus me acudia!
Em Desemboque cheguei depressa e voltei correndo
fui buscar fogo?
ah ruínas de áureas eras, soterradas na rasteira vegetação
dos mata-pastos e vassourinhas e capins
como recuperar o alento e a convicção
de que o sofrimento
existe justamente para neutralizar o sofrimento?
Estamos conversados, eu disse aos fantasmas dos bandeirantes
egressos de meu outro arraial do desterro
fui com um pé e voltei com o outro
sem ao menos esperar a caneca de café, a fumegar
Só tenho um coração dentro do corpo.

No último agosto acompanhei a procissão das casas
(eu disse a procissão das casas)
rumo à Igreja de Mercês de Água Limpa
O crepúsculo pedia silêncio ao verde que crescia
nas demoradas campinas da infância
mesmo assim o sol, mesmo soterrado
continuava iluminando as casas noite adentro
Mas as paredes externas estão descoradas e enrugadas
como um rosto inerte na janela dos anos:
mas por dentro estão novinhas, como preservados corações
E eu nas andanças de deus-dará
tenho alguma coisa a ver com o que vejo?
sou parte deste amálgama, desta comunhão?
Tenho prazer de visitar a limeira da Água Fria
de dar boa tarde a cada uma das limas
de abraçar o vento renovador dos ares
o vento que canta e dança na rua de Guaxina
que instaura e marca o ritmo do bailado das calcinhas
no varal do terreiro do quintal de uma das casas.

Assim é, é assim, graças a Deus!
uma vez por semana a mulher de todas as horas
estende sete pares de calcinhas e sutiãs
no varal do terreiro da cozinha de sua casa
Aquelas peças alvejadas, de fina tessitura
pequenas auréolas dependuradas no arame aéreo
a rosa boreal na indesmanchável aurora
pespegada ali nos barrancos dourados
oh duradora duradona lindela belinda
inserida em definitivo no breviário do relance
na sobrevida do desejo mil vezes apreciado
e glorificado na sobrevida dos anseios
nos doces e lentos arraiais da mundial mineiridade
Ora pois assim seja por bem dos nossos pecados
a fileira pênsil dos orgasmos presumidos
(a boca e o esôfago e tudo mais da libido:
nem sei mesmo como afinal consegui
atravessar o arvorejo das lonjuras e aqui chegar
para enfim cheirar e absorver tais fragrâncias
sumamente sentimentais)
quando a brisa baixa no terreiro afrodisíaco
a melodia silenciosa dos píncaros
bafeja meus ouvidos, abençoa meus olhares
os pirilampos dançam no empíreo, mesmo de dia
as palavras trocam de lugares nos poemas
a festa de fogos comemora o espairecer dos seres vivos
as calcinhas mínimas
semínimas
colcheias semitonadas
cada uma com a pele de uma fruta:
a laranja campista na cor e no suco
a pêra sonhada nos momentos de sede
a maçã de outra eva, magrinha e galega
a goiaba do rosto dourado, de boca vermelha
a romã dos dentes que beijam em vez de morder
a pitanga em cima da árvore, acima das mãos
a uva tonteira nas sete noites sem dormir!
Assim é o festival das calcinhas no varal
e já estou bem longe, aqui no Morro da Onça
a lembrar o implícito assédio em Guaxina
a presença da natureza nas ausências mais choradas
o sutiã sem a mulher, a mulher sem ele
os mínimos sinais anatômicos do prazer
(o jogo dos limões doces no bom gosto da felicidade)
os montículos amanhecendo nas proximidades das lonjuras
os sons as cores os cheiros
sem parar em todos os sentidos
assim é assim mesmo:
uma vez por semana ela monta seu jardim nos terreiro
eletrifica a casa para jogar meia-luz nas begônias
e mais ação nos ramos, nos grãos do chão e do ar
ali mesmo
as rosas místicas e cândidas da sexualidade
as violetas as orquídeas os agapantos
a aura virtuosa e abissal em cada ponta de bambu
ali a esticar o cordel bemaventurado
a graça esganchada em cada nesga da manhã
ali toda a intimidade à luz do sol masculino
a imagem desvestida do carinho feminino
a canção que perpassa cada dobra
a flor aérea a evocar a fruta terrena
ali inteirinha no transe
e o Tião a tirar retratos íntimos
mesmo de longe
na agora cada vez mais longe Pedraça do Desterro.

Dias depois em barranco Alto, ainda a digerir
as delícias dos ares da outra paragem
fiquei sabendo por via das dúvidas
que os moradores daqui tinham ido
ver a luta mortal do último lobo
contra a última onça das redondezas
Lá no fundo do barranco
o arraial estava deserto
o mato tomava conta da rua
as casas abriam-se para acolher as árvores e os bichos
os galhos ofereciam flores e frutas aos visitantes
entravam pelas janelas abertas ao eterno luzir
dos respingos entrevistos aqui e ali
Mas onde estavam os moradores?
Todos na mais completa ausência
Ninguém ali
ninguém estava ali pra dizer onde estavam
os moradores de Barranco Alto.