quarta-feira, julho 26, 2006

Meu Trisavô Paterno

MEU TRISAVÔ PATERNO - Lázaro Barreto.


Bernardo José de Oliveira Barreto - 1797-1881.
“Diocese de São João Del Rei
Cúria Diocesana
Arquivo Eclesiástico
Certidão
Certifico que, às folhas quinhentos e cinqüenta e quatro (554), verso, do Livro de Registros de Batismo no. 9 (nove), (1791 a 1799), tomo II da Paróquia de Santo Antônio, da cidade de Tiradentes, desta Diocese de São João Del Rei, encontra-se o seguinte registro: “ BERNARDO – ine.- Matriz va. a 21 de 8.bro. de 97 – Aos dezasseis dias do mez de Oitubro do anno de mil e Settecentos e noventa e Sette na Matriz de Santo Antônio da Villa de São José da Comarca do Rio das Mortes, e Bispado de Marianna das quatro para as cinco horas da tarde baptizei e puz os Santos Óleos a BERNARDO nascido aos vinte e Sette dias do mez de agosto do dito anno filho legitimo de Antonio Joze de Oliveira Barreto e de sua mulher Donna Anna Joaquina Cândida de Castro natural desta Freguesia da Villa de São Jose neto pela parte paterna de Gregório Francisco de Oliveira, e de Maria Rozaria de Freitas, naturais da Freguesia de Santa Cristina de Aroens Termo da Villa de Guimaraens Arcebispado de Braga, e pela parte materna do Capitão Faustino Joze de Castro natural da Freguezia da Sé da Cidade do Porto, e de Donna Rosa Angélica (*) natural da Freguezia de Nossa Senhora da Conceição da Freguezia de Prados desta Comarca do Rio das Mortes: foi padrinho o ilustríssimo e exCellentíssimo Senhor Bernardo Joze de Lorena Governador, e Capitão General da Capitania de Minas Gerais por Procuração sua com o Sello de Suas Armas que pessoalmente appresentou o Doutor Joze Antonio Appolinario da Silveira Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes da qual o theor he o Seguinte = Bernardo Joze de Lorena do Conselho de Sua Magestade Fidelíssima Governador, o Capitão General da Capitania da Minas Gerais. Pela prezente faço meu bastante Procurador ao Senhor Doutor Joze Antonio Appolinario da Silveira Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes para que em meu nome possa assistir como padrinho ao Baptismo de hum menino filho de Antonio Joze de Oliveira Barreto, e de sua mulher Donna Anna Joaquina Cândida de Castro e elevar ex Sacro fonte o dito batizando. Villa Rica doze de Settembro de mil e sette centos e noventa e Sette = Bernardo Joze de Lorena = E foi madrinha donna Hyppolita Jacintha Teixeira (**) moradora na Freguesia dos Prados de que para o tempo Constar fiz este assento, e por verdade o assignei. O Coadjutor João Miz. Lopes”.//////////////////Nada mais continha do dito registro, que fielmente foi copiado do original a que me reposto.
Ita in fide Parochi.
São João Del Rei, 13 de Fevereiro de 2004.
Assinado por
Monsenhor Sebastião Raimundo Paiva
Pároco da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e Coordenador Geral do Arquivo Eclesiástico.”


A partir de 1818 o nome de Bernardo começa a constar nos registros paroquiais e cartoriais do Desterro do Tamanduá, primeiramente ligado ao nome de seu pai, o advogado, alferes de ordenanças e solicitador de causas Antônio José de Oliveira Barreto, que emprega a herança recebida por falecimento da esposa Anna Joaquina para adquirir as Fazendas Bom Jardim, em Cláudio, para a filha Francisca Constância (ou Lucinda) de Oliveira Barreto casada com Vicente Ferreira do Amaral; e a fazenda da Laje, no Desterro , para ao filho Bernardo, que se casou em 1825 com Josepha Maria de Jesus, filha de Manuel de Souza Pinto e de Anna Joaquina de Souza, fazendeiros na Região dos Souzas, distrito de Cláudio. O Arraial de Nossa Senhora do Desterro já era, na época, antigo e notório recebedor dos retirantes da Comarca do Rio das Velhas, entre os quais o Manuel Carvalho da Silva, cujo nome consta entre os que assinaram o Termo de Criação da Villa de Sabará (a terceira de Minas). Posseando-se de uma bela, grande e rica Sesmaria, ele construiu a Igreja de Nossa Senhora do Desterro (beatificada em 1754 e de pé até hoje graças às suas sólidas pilastras e paredes de pedras) e constituiu seu Patrimônio com a doação de 140 alqueires de terra. Os livros do século 18 constantes nos cartórios e paróquias do lugar que agora tem o nome de Marilândia (Município de Itapecerica) estão repletos de nomes de pessoas oriundas de Sabará, Congonhas e de Curral Del Rei. Isso porque o ouro minguava na região do Rio das Velhas e os mineradores procuravam outros destinos e outras atividades. Além de terras férteis e bem banhadas, o ouro era farto nas minas próximas do Tamanduá e brotava nos leitos dos Rios Boa Vista e Itapecerica, no Córrego Areado, nas regiões da Lavrinha e da Serra Negra e também no lugar chamado Bom Sucesso do Sabarazinho, sede da Fazenda da Laje, do Bernardo.

Em 1873 ao escrever seu Testamento, ele declara que teve em estado de solteiro a filha Mecia, com Maria, do Lavapés (arrebalde do Desterro), que naquele momento estava casada com Manuel Fernandes da Cruz, e residia no Arraial Novo de Santa Rita do Aterrado, hoje Santa Rita de Cássia, sul de Minas. Declara também que em estado de viúvo teve a filha Maria Honória, com Eva, parda, que era filha de Raquel, criola, todas moradoras em sua casa, acrescentando do próprio punho que reconhecia, para efeitos legais, as duas, Mecia e Maria Honória, como suas herdeiras legítimas. Os outros filhos que deixa e que constam do Testamento são, pela ordem de nascimentos: Francisca de Oliveira Barreto, casada com Pedro Amaro Teixeira e depois com Joaquim Bernardes Teixeira; Antônio José de Oliveira Barreto (meu bisavô) casado com Maria Arcângela Tavares e depois com a sobrinha (através de autorização clerical do próprio Vaticano) Galdina Cândida Barreto Tavares; Bernardo José de Oliveira Barreto cc Maria Florea de Jesus; Maria Bernarda de Oliveira Barreto cc Manoel Lino da Santíssima Trindade; João José de Oliveira Barreto cc Firmina Cândida de Moraes e Lara e depois com Ana Cândida Tavares; José Bernardo de Oliveira Barreto, celibatário; Pedro José de Oliveira Barreto cc Escolástica Lucinda do Espírito Santo e depois com Maria Antônia de Jesus; Joaquim José de Oliveira Barreto cc Maria do Carmo Fraga; Rosalina Cândida de Oliveira Barreto cc José Antônio Tavares Sobrinho e depois com João Gabriel do Amaral; Mariano José de Oliveira Barreto cc Maria Tavares Barreto e depois com Rita Cândida Tavares; Manoel José de Oliveira Barreto cc Belarmina Maria de Jesus; e a citada Maria Honória Barreto (tinha apenas 3 anos de idade em 1873) cc Antônio de Souza Leite. Além da irmã Francisca, do casamento do pai com Anna Joaquina Cândida de Castro, Bernardo teve mais seis irmãos do segundo casamento paterno, com Felizarda Maria de Jesus, a saber: Joaquim José de Oliveira Barreto, celibatário; João José de Oliveira Barreto cc Vicência Joaquina do Amaral, depois com Maria Teodora de Oliveira (bisavós do empresário, advogado e escritor Ruy Barreto), depois com Maria Cândida de Jesus e depois com Cândida Bellarmina de Jesus Coelho; Anna Felizarda de Oliveira Barreto cc Domingos José da Silva Fayal (da família de Tiradentes); Rita Umbelina de Oliveira Barreto cc Carlos José de Resende; Alexandre José de Oliveira Barreto cc Marianna Lúcia Vianna e depois com Anna Custódia de Jesus; Francelina Cândida de Oliveira Barreto, que permaneceu solteira.

No Mapa Populacional do Desterro, de 1839 cx. 14, doc. 44, do Arquivo Público Mineiro, BH, MG), o Bernardo consta como Negociante e Fazendeiro, possuidor de 16 escravos. Desde 1833 era Juiz de Paz: numa das eleições obteve 116 votos dos 118 eleitores do Distrito. Foi também Jurado, Subdelegado, Ajudante de Ordenanças, Capitão e Comandante da Guarda Nacional do Desterro e depois Major e Comandante da Guarda Nacional de São Bento do Tamanduá, hoje Itapecerica.

No Testamento ele pede Missa de Corpo Presente e mais 80 Missas de esmola do costume, mais 10 por alma de Josepha, sua esposa falecida, mais 10 por alma de seus pais, mais 8 por alma de cada um de seus filhos falecidos: Maria, Bernardo, Francisca e José. Deixa boas quantias em dinheiro para as Igrejas do Rosário e de Nossa Senhora do Desterro (ambas do Distrito do Desterro) e também para os escravos alforriados e para muitos afilhados. A relação dos bens móveis e de raiz e de semoventes ocupa 62 páginas do Códice. Entre os quais destacamos: seis casas no Desterro, as Fazendas da Fontinha, da Lage, da Cachoeira do Junco, do Itapecerica ou Cachoeirinha e da Lavrinha, além de móveis, prata, ouro, 303 arrobas de café e 3.145$195 em moeda corrente. Em 1841 obteve a Carta Patente de Capitão da 3ª. Cia. do lo. Batalhão da Legião da Guarda Nacional do Município do Tamanduá, sediado no Desterro, cargo que já ocupava desde 1832 e que perdeu em dezembro de 1842, mesmo obtendo 110 votos dos 126 votos apurados na eleição junto aos membros da tropa. Perdeu o cargo porque tinha sido suspenso das funções em 22 de julho do mesmo ano, por ter comandado o Batalhão a favor dos insurgentes na chamada Revolução Liberal de 1842 que visava, não derrubar o governo imperial, mas sim o Ministério que dissolveu as Assembléias, amordaçou a oposição e centralizou o poder executivo, limitando, em conseqüência, o Poder Político dos Municípios.

No Processo de Autuação (Lote 20260, de 1842, do Arquivo Judiciário de Itapecerica), de 23 páginas manuscritas, constam os depoimentos de quatro testemunhas, todos enaltecendo as qualidades morais e militares do acusado (que chegou a ser preso e a ter os bens sequestrados), de tal maneira que não restou ao Promotor e ao Juiz senão o trabalho de absolvê-lo. Passado algum tempo (outubro de 1845) um Ofício do Chefe Interino da Legião é remetido ao Presidente da Província Quintiliano José da Silva, nestes termos: “Como se mudasse deste Município para a cidade de São João Del Rei, o Major do Primeiro Batalhão da Primeira Região da Guarda Nacional deste Município o cidadão Manuel Pereira de Andrade, vendendo o estabelecimento comercial que aqui tinha, e estando por conseguinte vago este posto, que cumpre preencher-se, tenho a honra de apresentar a V. Exma. o cidadão Bernardo José de Oliveira Barreto, pessoa hábil e abastada, cuja adesão ao atual governo é assás reconhecida e me parece digno de ocupar o dito posto, se merecer a aprovação de V. Excia.”. Nesta época o contingente da Guarda Nacional do Desterro (instalado no Largo da Igreja Matriz) constava de : um capitão, um tenente e um alferes, um primeiro-sargento, dois segundo-sargento, um furriel, oito cabos, cento e dois guardas de serviço ordinário e vinte e cinco na reserva. A Legião do Tamanduá (novo posto do Bernardo) era muito maior: totalizava um mil quatrocentos sessenta e cinco elementos e abrangia, além da Villa, os Distritos do Desterro, de São Francisco de Paula, de Santo Antônio do Monte, do Pântano, do Diamante, do Andaiá, de Campo Belo e de Candeias.

(*) Seu nome completo é Rosa Angélica da Luz, descendente de ilustres membros da nobiliarquia paulistana. Sua biografia é bem romanesca: de seu casamento com Faustino José de Castro foi mãe, além da Anna Joaquina, de Joaquim José Carlos Fulgêncio de Castro casado com Anna Antônia Querubina de Jesus e depois com Anna Tereza de Jesus Villas-Boas, legando à posteridade descendência ramificada nas famílias de nobres e potentados do Império ) os Andrada, os Fontoura, os Caldeira Brant, os Leite Ribeiro. Depois, em estado de viúva, viveu um caloroso romance com o Capitão-Mor Pedro Teixeira de Carvalho, tendo com ele o filho Pedro Teixeira de Carvalho, o Moço, expoente, na época, da administração pública da Villa de Barbacena, merecendo a homenagem póstuma de ter hoje o nome da principal Praça da cidade.

(**) A Hyppolita era filha legítima de Pedro Teixeira de Carvalho e de Clara Maria de Melo, proprietários da célebre Fazenda da Ponta do Morro, em Prados. era casada com o Inconfidente Francisco Antônio de Oliveira Lopes – e é considerada pelo historiador Dario Cardoso do Valle como a única presença feminina consciente e positiva da Inconfidência Mineira, não só inspirando como instruindo o marido e os companheiros da Conjuração.

(Dados extraídos de meu livro “A Família Oliveira Barreto – Genealogia, Notas e Comentários “–Editora Express, Divinópolis, MG, 2005).