terça-feira, setembro 05, 2006

O Amor Nosso de Cada Dia

O AMOR NOSSO DE CADA DIA - Conto de Lázaro Barreto.


O grande mito antropológico é o do andrógino, diz Berdyaev: o homem completo, masculino e feminino, solar e telúrico, lógico e cósmico ao mesmo tempo, o ser que fiou na saudade imemorial depois da divisão humana em dois sexos diferentes. No começo do mundo, diz Platão, os seres humanos não possuíam sexos diferenciados. Eram androginos valentes, ambiciosos, mandavam e desmandavam nos quadrantes da terra. Mas quando atacaram Júpiter, deram-se mal: o Todo Poderoso daquele tempo rebateu a investida com uma mão e com a outra dividiu os andróginos ao meio, de cima para baixo, fazendo dois de cada um. Depois da vertical cirurgia cada parte nunca mais sentiu-se completa e realizada, cada uma deseja, eternamente, unir-se à outra. Desde então buscamos o amor, experimentamos todos os amores sem jamais encontrar o único amor, a alma gêmea, complementar, do inextinguível desejo nosso de cada dia.

No meu caso, por exemplo, relatou-me o Hemetério, velho amigo, a quem passo a palavra. Não posso me conter, tenho que espernear, intrometer. Pois que sendo uma das linhas do novelo da VIDA, portando a consciência reflexiva da memória e da esperança, procuro novas palavras quando as fantasias se adelgaçam nos preâmbulos do sono e viram realidades no sonho. Sim, é assim que começo a procurar a minha cara-metade, a minha outra parte, ou seja, a mulher da minha vida. Assim mesmo! Mas como e onde procurar? e na procura, o que encontro? encontro a mera luzinha no meio do desfile das cenas salpicadas, assim desatrelado, como se na percepção a imagem dela passasse e repassasse num visor de tarjas de cores indistintas e contrastantes, numa disformidade complicadora que baralha as outras imagens circundantes no mesmo rol difuso, inexplicável. Desde sempre costumo ver através do rosto de qualquer mulher o cenário multifacetado: a encosta rochosa lá adiante dependurando as árvores floridas, as casinhas de graciosas janelas e, muitas vezes, outros ocupantes momentâneos: um pássaro a voar pelas grimpas das magnólias, um ínsito veículo rodando no chão e no ar, cortando aqui e ali o alongamento da paisagem. Foi assim que aprendi, na infância, a ver através das paredes e levar os olhos até às margens do rio e descer nas águas como se estivesse numa canoa de bambus, a sentir a súbita carícia da brisa no rosto onde os olhos continuavam a dissolver a massa compacta das figurações circundantes. Foi assim que uma vez me detive no rosto da moça estranhamente enclausurada na própria casa (o pai ciumento não permitia que ela nem ao menos chegasse a uma das janelas): os olhos dela me doeram. Descreviam uma virada de onda sob o influxo e o refluxo da correnteza mais potente e também uma espécie de parada de beija-flor sobre a cabeça de uma serpente. O olhar ao mesmo tempo apagado e lancinante a esquadrinhar os pontilhados e os rendados e as veias de uma pedra enorme, até abrir a comporta e divisar o primeiro horizonte, a partir do qual ela me dispensava para ser feliz em outra freguesia, a procurar outra mulher, já que ela estava interditada.

Algum tempo depois debrucei-me de amores pela Rimália, moça de cabelos compridos e espigados, os lábios secos de quem nunca mentia nem beijava, as sardas reticentes pintando frutinhas apetecíveis no pescoço burilado. Participava com ela de um piquenique na praia ao pé do Morro da Onça, ao lado da ponte grande do rio Cemani. era mais um domingo dos jogos, dos risos, dos beijos e abraços e das mil formas de nadar (estirão, braçadas, sereninho, cachorrinho) rio abaixo e margem a margem. A minha doce companheira ruborizava toda vez que me acercava dela, temendo e desejando que eu a abraçasse e beijasse, como os outros rapazes faziam com as outras moças. Eu, no entanto, não sabia romper a barreirade minha timidez e do pudor dela, esperando que de noite o procedimento fosse outro, mais liberal, no escurinho do cinema. estávamos longamente na areia e de repente ela percebeu que a Iara me dava bola, tentava explicitamente me flertar. Eu feito um bobo aceitava a transgressão, obliquamente, sem saber isentar-me de infelizmente ser pilhado num furtivo olhar de flerte com a outra moça. O azar adveio logo. A minha doce e consistente Rimália enrubesceu no desplante, trancou-se em muda indignação, fez menção de sair sem nem mesmo pedir que a acompanhasse. Segui atrás, como um cretino, e assim fiquei na mão, como se diz, pois a outra, a tal de Iara, o que desejava mesmo era atrapalhar meu romance com a imperdoável Rimália.

Foi assim que fiquei sem as duas – e gostava de ambas, muito mais da que me tentava de perto, cantando silenciosamente em meus ouvidos as promessas mais inefáveis, entrando em meus olhos com os melhores perigos e doçuras da paixão. A outra tentava-me apenas de longe, arrepiando meus sentidos com seus olhares carregados de segundas intenções, suscitando minhas comichões de palpáveis instintos. Assim é a vida: ninguém deve correr atrás de dois pássaros ao mesmo tempo sem correr o risco de por causa de um belo corpo perder uma bela alma. Mas algum tempo depois veio outro piquenique, no mesmo lugar. eu namorava, então, a Moza, bonequinha linda mas um tanto afrescurada, que não entrava na água do rio para não atrapalhar os cabelos louros e bem penteados. Só queria sombra e água fresca, eu estava afim de atender aos apelos da água azul, já quente, ainda limpa e fluente. e foi aí que a rechonchuda da Fornarina, amiga da Mosa, pediu-me que a ensinasse a nadar. Minha namorada fez gosto ao pedido dela e até insistiu para que eu atendesse – e assim fui, meio sem graça no começo e muito inserido depois, a carregar a moça até as partes do rio onde a fundura ainda dava pé e a correnteza não era tão forte. Fiz um círculo com os braços, entrelaçando as mãos. no qual ela entrou horizontalmente, submersa na flor da água, a bater os pés e a puxar a água com as mãos dos braços estendidos, como eu orientava. Caminhava com ela assim envolvida e protegida, ela fazendo de conta que nadava. Íamos rio acima e voltávamos até certa distância, para reiniciar a trajetória. Aconteceu que aos poucos meus braços foram resvalando nas partes adjacentes ao abdomem, não intencionalmente no começo e depois um tanto contrafeito e depois já um tanto mais à vontade, uma vez que ela própria propiciava, assentia e gostava da quase que natural bolinação. E assim tentado e já um tanto enrabichado, sem me conter, quando vi já resvalava de propósito na carnadura arrepiada dela, a resvalar e resvalar até tocar de leve nas partes mais íntimas dela, assim já arrepiado e caído em tentação, sem atentar se a Moza e as outras pessoas estariam reparando e notando alguma alteração de ânimo entre nós. de vez em quando ela me olhava, maliciosa, esticada aqui e flexível ali, a desejar mais e mais o toque de minhas mãos, a mostrar-me agora tão de perto a bunda quase desnuda e tão bonitinha, meu Deus, tão bonitinha que até devia ter, como todo o corpo dela, boas e lindas idéias, por dentro e por fora dela!

É claro que tentei trocar de namorada, depois do piquenique, mas não consegui. A Fornarina não me quis, alegando que não podia trair a amiga, e a Moza, bem, ela eu não quis – e iria querer se ela própria era indiferente a mim e a si mesma? Outra perda aconteceu algum tempo depois, numa praia de outro rio, paralelo ao Cemani, o das Imbaúbas. Tinha ido num domingo com a Ester, moça toda empacada e formal, que não dobrava o corpo nem desdobrava os movimentos – e só lá uma vez deixava que os seios soltassem do sutiã, na flor das águas borbulhantes. Ficava nisso, no aguçamento logo resfriado, até que a danadinha da Lolinha chegou, arrastando para a praia do outro lado, brincando de fazer cócegas em todas as partes de meu corpo, buliçosa e irresponsável, como só ela sabia ser em toda nossa mocidade. Agüentar, como? Quando vi já estava com ela na sombra dos ingazeiros, entre os juncos e samambaias e tantas moitas adjacentes. Qual das duas namorei depois? Nenhuma. A Ester ficou de mal comigo, a Lola, ah a Lolinha gostava mesmo era de fazer hora com deus e todo o mundo.

Algum tempo depois conheci a Laurinda, na região rural da Pedra do Indaiá, moça encantadora e maravilhosa, que podia ter inspirado Shakespeare, quando disse que a palavra de amor cavalga o coração apaixonado como a plumazinha do cisne na alta onda do mar revolto, sem voltar-se para nenhum dos lados. de olhos verdes e amarelados, ela excluía a apatia do rol de minhas então insípidas vivências, naqueles dias de minha juventude já um tanto crepuscular. era noite de vento e frio e ela passou na farmácia para comprar um tablete de cacau. Depois de passá-lo nos lábios, cuidadosamente, ela me deu o tablete para passar nos meus e eu, enquanto passava, disse-lhe: “Só assim, por tabela, consigo beijar teus lábios tão pertos e tão fugidios”. ela apenas riu, agora com a boca ainda mais carnuda e vivaz. Ela esperava a minha iniciativa? Mas eu sabia (eu jamais soube?) ser audaz? Quantas vezes estivemos face a face e nenhum beijo pedi nem ganhei nem roubei. Fico ainda hoje pensando se a minha inibição advinha do fato de saber que ela era casada com um fazendeiro de Goiás e apenas passava uns tempos com os pais na Pedra do Indaiá. Se conquistasse um beijo, aí sim podia dar mais um passo e aí sim começaria certamente a feliz continuidade de um grande e belo amor. Mas um misto de emoção e medo impediam-me de avançar o sinal e prorromper no possível caminho das venturas, sempre postergadas.

Sei que a conformação fisiológica prepondera na distinção sexual masculino/feminino: a mulher tem a direção erétil mais internalizada, por isso seu desejo maior é o de ser desejada e não o de desejar; já o homem possui o aparelhamento de forma mais exteriorizada em virtude da própria dotação fálica: assim ele não cuida de ser desejado, mas sim de desejar, ou seja, quer ser o elemento ativo e não passivo ou intermediário, condição que o leva mais ao caminho do estupro do que o da paridade. e só de pensar no estupro quase automático do modelo usual da relação, ah, isso me inibe, me inibe e me inibe. Mas lá um belo dia desfrutei da ventura de ver os seios de Odília no alpendre da casa dela, quando ela se inclinou para mostrar-me uma folha de versos e de flores. Isso aconteceu mesmo onde, no Camacho? Mas nunca fui ao Camacho em toda a minha vida! Ah deixa pra lá, mas que aconteceu, aconteceu, indelevelmente. Vi então as duas juritis ali retendo o vôo e o canto, duas maçãs de rosto formoso, dois olhos miraculosos, duas palavras do mais extremado amor instantâneo. Meu coração bateu forte e só faltou falar e cantar que o corpo dela é a planta e a alma, a flor peregrina pousada no galho de uma das primaveras da eternidade.

“Ela passou aqui”, alguém me informou, na estrada de terra que vai do Curral à Pedraça.
Passou, e devia estar como sempre: a bunda levemente arrebitada, o rosto levemente erguido, e aquela maneira só dela de ficar calada como se estivesse conversando. Segui a vontade de procurá-la, rodeando as serras lisas e escarpadas, os vales encapoeirados, as encostas e pastagens, os pedregulhos e campos sáfaros, salpicados aqui e ali de arbustos de boizinho e barbatimão. de longe apreciava as ilhas de chuvas, a cerração líquida e delimitada, a gotejar nos pontos da paisagem em que o verde mais escurecia. Já entardecia quando cheguei ao lugar chamado Baú, lugar antecipado de brejos, espinheiros e cipoais, onde ainda vive a tribo remanescente da escravidão negreira, que vive poupando ao longo de tanto tempo sua herança genética, seus usos e costumes, seus festejos e a mobilidade verbal dos entendimentos de seus antepassados. eles cantavam em banto no eito da roça de milho. foi aí, de longe, que senti a luminosidade dela, antes de vê-la. Tampado pelas moitas de alecrins, esgueirei-me na estradinha à deriva até alcançar a melhor cena daquele paraíso reencontrado: a simulada princesa iraniana, uma filha distante da Raquel, serrana bela e bíblica, ali estava a mergulhar e emergir no amplo poço do monjolo, a singeleza rara que aviva o sol da natureza, o aroma da beleza, as nuvens vermelhas nas serras azuis, ah, a alma prescinde da roupa para se encalorar! O ar passa nas árvores, não passa nas pedras: a canção voltava dela para mim?
Dói Itambé ao Itatiaia,
a correr de uma nádega à outra;
do Tabor ao Calvário
a correr de um seio ao outro –
uma perna na Mantiqueira, outra na Canastra,
lá vou eu passando embaixo
com o vento que carrega os horizontes para bem longe.

O vento que traz as coisas e as palavras diz que a “a história é forjada não pela destreza da razão mas pela astúcia do desejo”, e diz também que a felicidade é a realização adiada de um desejo pré-histórico – e por isso, como diz Norman O. Brown, o dinheiro, não sendo um desejo infantil, traz pouca felicidade e muita desventura. Mas ela agora mergulha e bóia na flor da água, o sol a dourar seus pêlos pubianos, a água a molhar os outros poemas de seu corpo, e ela ali, esplendida!, a recuperar a linguagem sensual na qual segundo Jacob Boehme todos os espíritos falam uns com os outros, pois a linguagem sensual é a linguagem da natureza. As árvores sentam com ela na grama, pensam com ela na solução dos problemas comuns, falam com ela nas canções passarinhas.

Os andróginos, segundo Platão, tornaram-se insolentes e os deuses ofendidos, para castigá-los racharam-nos ao meio para que eles assim, preocupados em encontrar a outra metade, movidos por esse desejo sem fim, renunciassem ao desafio que até então lhes faziam. Assim é que nasceu o AMOR, esse desejo, uma nova forma de desdobramento individual. Ah, esse amor, que tanta falta nos faz!