terça-feira, outubro 31, 2006

As Neves de Antanho

AS NEVES DE ANTANHO (*) - Lázaro Barreto.

Quem me dirá em que país verde e amarelo
a balada de François Villon ainda anda, curiosa?
Em que outro lugar da terra uma das moças agora se esconde,
aquela que jogava as tarde de abril em cima de mim?
E onde estão as matas e os rios de outrora? As brisas?
Os ecos propalantes dos vales das redondezas, onde estão?
Aquele casal de lobos debaixo do pé de jacarandá?
E os luares daquelas noites estivais? O verde mais noturno?
As inventoras de albores e dos crepúsculos e dos noturnos?
Onde estão aquelas meigas senhorinhas de antigamente?

Onde a doce balada continua a falar do amor perdido,
depois de desestrelar o céu de tantas naves perdidas?
Em que ninho de outubro a rolinha agora se anula?
E a moça dos fartos cabelos aureolados, de lábios inchados?
De onde agora o amor telefona sem nunca mais estar lá?
De onde agora ele manda as palavras dentro de uma goiaba?
Onde estão as moças da roça, agora tão sumidas, coitadas?
Onde estão as chuvas miúdas daquele tempo, sobre o telhado?
As tanajuras os vagalumes os lobisomens as siriricas?
A moça que vestia a minha alma visitou-me outro dia
na reles lembrança nublada de outro dia tão diferente?
Onde se dependura agora a promessa dos cálidos beijos?
Onde se amoitam os prenúncios e os momentos dos desejos
mais frenéticos?
Onde se escondem as jabuticabas e os cajus daquelas tardes?
E as neves de antanho de François Villon, onde andam agora?

(*) François Villon (1431-1463) é o autor da famosa Balada das Neves de Antanho, que li uma vez e jamais esqueci. Em que livro de qual biblioteca, ela dorme atualmente?