sábado, dezembro 02, 2006

As Cataratas Oculares

AS CATARATAS OCULARES - Lázaro Barreto.


Insone e atrelado nos limites do leito(r),
depois da delicada cirurgia de cataratas,
hibernado nas noites de tantos dias,
a desfolhar cada instância multiplicada....
Ah, o mal é da idade, diria, irônico,
o rapaz ensimesmado que um dia fui.
Assim, assim mesmo, eu via, sentindo
a chuva de versos e de mangas no telhado
(as pretéritas manhãs da realidade, depois
das vindouras noites dos sonhos ruborizados?).
Assim a toda hora a manga-Rosa
quebra mais uma telha do desejo
(do desejo de estar longe, aqui mesmo?).
Este é o meu íntimo que chove e canta
para ver se fica são (versificação?) e de bem
com Deus e Todo Mundo,
apesar da disfunção hipermetrópica
chegar ao ponto que chegou.
Apesar de estar longe até de mim mesmo,
nos olhos espertos e loquazes
(mesmo vendados),
as mangas-Rosas chovem e cantam
nas profundezas de um sol ainda noturno.
A fruta no galho quer voar para baixo?:
É um pássaro que canta antes de voar para cima?:
Uma Rosa cheirosa ao abrir seus lilases?:
Uma compridona dor estética,
parcialmente anestesiada?
Quem neste mundo e nesta hora,
mereceria tais delícias? O eu-sim de agora
ou o eu-não de sempre?