sexta-feira, dezembro 08, 2006

Banho de Civilização

BANHO DE CIVILIZAÇÃO (*) -Lázaro Barreto.


Voltei de São Paulo com as mãos doendo de tanto bater palmas nos sucessivos espetáculos públicos da melhor qualidade artística possível. Também não é para menos. São Paulo é a quarta maior cidade do mundo e possui uma estrutura de funcionalidade urbana exemplar, apesar do número excessivo de veículos motorizados, que tira a liberdade de locomoção dos pedestres. Ruas e avenidas bem projetadas e bem cuidadas, e por assim dizer, consequentemente humanizadas. Pois cercadas de arborização, áreas livres, passeios espaçosos, tudo beneficiado pela competente infra-estrutura respeitada e secundada pelo carinho de autobenefício dos moradores. Os prédios até que, às vezes, chegam a ser bonitos – e é um prazer quase festivo passear a pé ou de carro pelas ruas e bairros da zona sul e adjacências (Jardins, Moema, Itaim, Ibirapuera), desfrutando ao mesmo tempo da sensação de segurança e de bem estar mental.

O ponto alto de nossa temporada (além do proveito das requintadas iguarias dos restaurantes e das casas noturnas) foi a programação cultural de tantas atrações recreativas: salas de leitura, teatros, cinema, auditórios, livrarias, museus, salões de artes plásticas, inclusive os templos católicos, nos quais a fé cristã é ilustrada na beleza dos cantos gregorianos do Mosteiro de São Bento e na Comunhão Reparadora dos Arautos dos Evangelhos, na Catedral da Sé. O culto intelectual das pessoas mais exigentes é contemplado com o que há de mais fino e puro para deleitar a cupidez mental e enlevar a vulnerabilidade sensitiva. Ciceroniados pela filha Ana Paula, que desde a infância cultiva o interesse e o bom gosto da arte e da cultura, eu e Inês purificamos a alma diversas vezes no banho de civilização de uma cidade que no passar dos anos, décadas e séculos, mais se aprimora nas instituições, apesar dos percalços administrativos da política brasileira.

O Concerto da Orquestra Sinfônica, na Sala São Paulo, deixou-me um tanto perplexo e até meio acabrunhado, no bom sentido, é claro. A concorrência das partes da orquestra – os instrumentos de sopro, de cordas e de percussões, escreviam em meus sentidos alertados os nomes de uma nova coleção antológica de poemas – e mesmo no escuro da platéia fui rabiscando em vãs tentativas de versificação as palavras que fluíam da execução do Concerto em Lá Menor de Schumann:
a palavra que exorbita da partitura
reluz na pauta e canta no solfejo
grita nas claves, fere a grafia selecionada
no silêncio promovido a som compulsivo
Os olhos nos ouvidos
os ouvidos nos olhos
a possessão dos sentidos
no estar do ser
no almejado inesquecível
do amor de alguma coisa inexprimível
que dá mais vida à vida
que recolhe para entornar
reflui para absorver
transtorna para retornar
ah!
A malícia arraigada é uma delícia
delineada e
finalmente exposta na tramitação
de uma idéia da alma
agora na ponta dos dedos do pianista.

Vimos depois “O Fantasma da Ópera” no mesmo teatro que no ano passado vimos “Os Miseráveis”, outro espetáculo de efeitos especiais e de recursos visuais inimagináveis para quem sempre via o palco imóvel diante de um pano de fundo sem vida própria. Ambas as encenações lembram-me, cinéfilo de muitas décadas, a surpresa antiga causada pelos artifícios do cinemascope e da terceira dimensão e da hoje chamada computação gráfica. Do começo ao fim do desenrolar, a peça é uma espécie de filme ao vivo e em cores, de montagem e decupagem instantâneas: o cenário abre, fecha, expande, aprofunda, adquire aspectos e formatos dinâmicos, e às vezes simultâneos, alinhando e expondo os camarins e os bastidores, o fosso da orquestra, os escaninhos das intrigas, as alcovas dos amantes, os jardins dos índios, os tetos dos lustres macabros, os nichos de monstros, toda a parafernália bem urdida concorrendo na tessitura contextual. E fica a impressão que a tecnologia é o personagem principal do enredo, além de influir na diretriz do conceito e da imagem dos segmentos, resultando num formalismo fundido à trama romanesca. Algo que realmente impressiona, principalmente a um espectador do interior do País.

Outra atração imperdível é a conjuntura física, verde e fulgurante do Parque Ibirapuera, dotado dos melhores aparatos de uma natureza que se deixou urbanizar sem se corromper, através das repentinas extensões dos gramados e arvoredos e pistas de caminhadas e de ciclismo e os lagos e os quiosques, os monumentos arquitetônicos, as alas e moitas, apresentadas como se fossem seres vivos (que na verdade são mesmo), produzindo um aprazível jogo de revérberos de sombras e luzes nas dimensões de tanta recreação agraciada de clorofila e de ares oxigenados. Vimos, na oportunidade, a inefável exposição “Andy Warhol Motion Pictures no MAM”, da qual eu só conhecia fragmentos, de longe. Nela figuram muitos trunfos da iconografia norte-americana, saídos da câmera de 16 mm do controvertido artista, como a série de filmes mudos: Sleep, Eat, Kiss, Blow Job, estrelados por algumas de suas mais lindas modelos: Jane Holzer, Donyale Luna, Edie Sedgwick, Susan Sontag (quem diria que ela depois seria a grande intelectual de nosso tempo!), Cathy, Kioko Kishida e Ivy Nicholson, todos priorizando suas primazias encantatórias em simples e naturais expressões faciais em tantos minutos ininterruptos durante boa parte do dia nos telões espalhados nas paredes dos amplos salões, diante do deleite dos espectadores, que talvez nunca tivessem reparado como o rosto humano carrega tantas feições, energias, mensagens, poemas.

E depois, numa incrível manhã de quinta-feira, desfrutamos do espetáculo do Teatro Municipal intitulado “Cena Aberta, A Tragédia na Ópera”, constituído de árias selecionadas das obras de “Orfeu”, de Gluck, “A Dança das Fúrias”, com o Coral Paulistano, “O Coro das Feiticeiras”, da ópera “Macbeth, de Verdi, com o Coral Lírico, o final do ato III de “Romeu e Julieta”, de Gounod, com o mesmo Coral Lírico, a ária “Ah, Piu Non Ragiorno” da ópera “Rigoleto”, de Verdi, com o Coral Paulistano, o “Ecounte, Compagnon”, da ópera “Carmen”, de Bizet, com os cantores líricos Laura Amberi, Adriana Magalhães, Heloisa Junqueira, Valter Felipe, Eduardo Góes e Sandro Bodilon. E, para concluir, o final da ópera “Tanhausear, de Wagner, com os líricos Rubens Medina, Márcio Martins e Magali Litieri. Tudo sob a batuta de Mario Zaccaro e a direção cênica de Vivien Buxkup. Uma verdadeira manhã de primavera paulistana.

No Teatro Alfa, a estréia mundial da coreografia “ONGOTÔ” (caipirismo mineiro que quer dizer Onde é Que Estou), do grupo mineiro de projeção mundial “O Corpo”, espetáculo acrescido de uma série de quadros calcados nas belíssima canções de Ernesto Lecuona. Espetáculo desnorteante, transbordante de plasticidade, sensualidade e de coletiva coordenação motora/estética (a incrível sintonia – mobilidade automática? – dos bailarinos em pares e grupos, sem o menor errinho ou deslize, mesmo assim ao vivo e em tantas emaranhadas, ágeis, ciclópicas, entrelaçadas evoluções). E mais uma vez as mãos ficaram sentidas de tanto aplaudirem a Família Pederneira e os Bailarinos(as) emplumados na sensualidade onírica de imemoriais deidades, todos bailando maciamente ao longo do tempo e ainda agora mesmo, ali naquele palco mágico.

A apoteose de nossa temporada estava reservada para a última noite, com a performance de Maria Bethânia, a deusa musical de tantos anos seguidos de sucessos e mais sucessos. Eu que sempre colecionei seus discos e decorei suas interpretações e que inexplicavelmente nunca a tinha visto ao vivo..., tive que preparar meu coração para vê-la assim cada vez mais jovem e bela, como sempre a imaginava, dona da mesma voz encarnada que um dia tentei descrever num dos contos do livro “Aço Frio de Um Punhal”. No repertório do show na casa de espetáculos da Avenida Jamaris, Moema (a dois quarteirões do apartamento de minha filha), constava as composições de Vinicius de Morais, Chico Buarque, Toquinho, Jobim, Adoniram, Baden Powel, Carlos Lira, uma torrente dos melhores fluidos, a tocante revelação em cada entonação suspirosa e flamante, uma esteira emocional em espiralada ascensão. Ela surge discreta, pequena e igualável no palco, mas em seguida e aos poucos vai engrandecendo, criando asas nos braços e nas pernas, alvoraçando a cabeleira enluarada, e assim vai às grimpas de si mesma e logo-logo toma conta do palco e da platéia e da orquestra e de tudo o mais no ambiente repentinamente ampliado em luminárias e ressonâncias. E num átimo não é mais a moça pequena e modesta, mas sim a mulher imensamente bonita e fascinante e faceira e maravilhosa, o amor de toda gente, a intérprete de todos os sonhos, a flor de todos os sentimentos de amor. E assim encanta, cantando o repertório anunciado e, cúmplice da platéia, acrescenta canções igualmente empolgantes de Noel Rosa, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Gonzaguinha e outros numes tutelares do cancioneiro nosso de cada dia da bela e sonhada eternidade melódica, da cantora maravilhosa que ela sempre foi e será.

(*) Texto publicado na edição de 20/08/05, no jornal Magazine, Divinópolis (MG).