sábado, junho 06, 2009

CELINE AINDA AGORA - Lázaro Barreto.


Céline em 1932 ia até o fim da noite
ao encontro de outra noite,
pisando nas agitadas serpentes das luzes.
Entrava no cinema sem ver qual filme passava:
precisava esquecer-se nas amplas e precisas
coxas das mulheres de combinação...
Hoje a beleza é mais embaixo,
exposta aqui e ali nas ruas e praças:
as mesmas amplas e delicadas coxas,
agora embrulhadas em jeans para presentes...
E na mirada a contra-plongé se vê
no alto delas, mostradas em contraste,
as cabeças frágeis desenhadas na leveza
dos poros e rabiscos as imprudências
da beleza impudica, como ele diria,
sobre as profundas harmonias profundas.
E não se há de ver que hoje,
como ele em 1932,
mergulhamos a cabeça quente no frio
perdão de um transe
(na pior das dúvidas) humanizado, adoçando
a contrapartida de outras tensões, tentando,
assim,
quem sabe?, converter ao menos
uma parte do mundo num átimo
de finas e abençoadas indulgências.