segunda-feira, julho 27, 2009

CHEGA A DIVINÓPOLIS O BELLO POETA FRANCÊS




Os carros levantavam a poeira vermelha da estrada cortada numa terra de cultura da gema, como dizem os roceiros das regiões agrestes do centro de Minas. Depois de contornarem uma das serras da cordilheira emparelhavam ao casario longitudinal de mais uma das alegres cidades do sul de Minas. Qual é mesmo o nome dela (Passa Quatro? Pouso Alto? Baependi?)? Como o povo vive em seus quadrantes e contornos? As mulheres são bonitas e dengosas? Os olhos delas movem-se quando elas andam? Os homens do lugar sabem conviver com elas, entender seus pormenores? Os carros da comitiva roncam, voam ao longo do percurso entre a vegetação e a cadeia de montanhas, nos verdes contornos sem limites. Mais de uma vez Blaise Cendrars, poeta francês que assumira o drama brasileiro dos pobres vexados, anotou que na viagem pelos rudes caminhos da década de vinte as árvores das margens viravam as raízes para o ar como os raios de uma roda vertiginosa. Ele é doido e ainda bebe? - Diria quem o visse de repente.

Ele era assim e assado, na graça de certa estranheza, sempre caindo na tentação da revelia, na vontade de domar a serpente estética, sempre a repetir que a vida das plantas é mais repleta de emoção do que um drama policial. Assim ele falava, trauteando um chorinho. Queria conhecer a Minas Barroca: de São João Del Rei, Sabará, Ouro Preto, Mariana e Congonhas, ou seja, o que para ele seriam os anacronismos, as inverossimilhanças, as delineações formais do existencialismo mais natural deste mundo. Aqui nada embaraça a imaginação, alguém diz. Quem teria dito? De repente estavam num parque recreativo de Caxambu – e Tarsila Amaral e Olívia Penteado tomavam banho de água mineral da fonte da Princesa Isabel. A Tarsila tem o risco e o bordado no revestir e no adentrar (o que é triste dá outro sentido ao que é belo): sua boca não tosse, o nariz não funga, a saúde sempre à frente da moralidade, sempre loura como uma criança; a Olívia tem os seios apartados um do outro, como dois pássaros distintos da mesma sensualidade, que ela, constrangida, portava, como que contra a vontade. Só faltava na aquarela feminina a pureza mais primitiva, a meiguice mais criançola da Pagu, agora comendo o pão que o diabo amassou com o rabo nas hostes de um frívolo, acanhado comunismo tupiniquim.

No dia seguinte, em dois automóveis, chegam a São João, onde conhecem a mulher nanica e capenga, na praça da Igreja de São Francisco de Assis, os olhos dela cheios de lealdade e confiança. Cendrars afasta-se um pouco para chorar, verter as lágrimas mais quentes da piedade. Depois todos vão a Tiradentes, onde conhecem o Lobisomem aprisionado nas muralhas do santuário das montanhas escarpadas, em negrito. Os outros integrantes da comitiva: René Thiollier, Mário de Andrade (atônito diante do sol agudamente vermelho no poente do altiplano horizontal, que vai até à Ponta do Morro, onde os Inconfidentes discutiam seus planos de ação libertária, a ouvir uma vez ou outra os manjados galanteios do Oswald às damas-companheiras, antes de concluir, enfático, que o índio extinto não adorava Deus porque Deus é bom, mas adorava, sim, o Diabo, não porque este seja mau, mas sim, porque era e é inquietante. Assim ele impressionava as mulheres mais do que as infundadas parábolas de baldada sedução do colega cafageste), Gofredo Teles, Afonso Taunay (já picados pela mosca azul do integralismo do Plínio Salgado?) e Oswaldo Andrade Filho, abordavam as pessoas da terra, como se elas fossem de outro planeta: “nem contigo nem sem tigo: nem sem nada, nem contudo” – era assim que pensavam e conversavam, em conjunto. Nos ramos de todos os lugares os pássaros trilhavam o ar de ideogramas e epígrafes talvez apócrifas e/ou blasfemas. Uma tertúlia itinerante sob o sol e a chuva do conhecimento que alarga e aprofunda o mistério de todas as coisas. As pessoas são diferentes, o clima é mais quente e arejado, a mente abre mais as pestanas, o coração até parece parar de tão descansado. Assim eles chegavam antes de terem partido, apertavam as mãos dos desconhecidos, como se os conhecessem, episodicamente.

No dia seguinte chegam a Divinópolis, de onde seguirão para Sabará, dois ou três dias depois. Blaise Cendrars, o belo poeta que havia perdido um braço na primeira guerra mundial, ficou à vontade no meio dos franciscanos, ferroviários e carroceiros. A Tarsila (tinha o sexo literalmente doce, metaforicamente verde e realmente lindo) namorava o Oswald, enquanto ouvia de Cendrars a intenção dele de ambientar na cidade um romance surrealista. Mário de Andrade recolhia as imagens para compor seus festins poéticos e folclóricos, mergulhando “no melhor chuveiro do mundo”, do Íris Hotel, que ainda existe até hoje. Depois Cendrars proferiu uma conferência em latim sobre o romantismo de Victor Hugo para os franciscanos holandeses (que ele confundia com os jesuitas) e ferroviários em plena praça da estação. Cada linha de suas palavras era, conforme Cocteau, uma tatuagem indelével. Les négres parlent tours latin et ne travaillent pás. Isso mesmo: os morenos da ferrovia danaram a cantar em latim, entrando na greve começada pelos carroceiros da praça da estação. As mulheres da cidade deitavam sobre os trilhos, impedindo a marcha do trem de ferro. Por que Tarsila não aproveitou num quadro a óleo essa imagem da obstinação e do despreendimento femininos, malgrado o obstinado machismo daquela época? Olívia queria conhecer os arrebaldes, os ritos de passagem do Desterro, as encomendações de almas da Bocaina, a fabricação caseira dos queijos do Buriti. Mas Gofredo Teles prognosticava a escalada da radicalização direitista da política, enquanto um frade debatia com Oswald a doutrina da antropofagia: se o colonizado come o colonizador, ah, daí pode resultar o meio-termo da nacional-democracia, vereda perigosa, que pode levar à outro banho de sangue.

Blaise Cendrars levou Mário à beira do rio das itapecericas para verem os bagres saltando sobre as pedras no líquido vento das multiplicadas cachoeirinhas. Segredou-lhe que o pessoal dali não era flor que se cheirasse facilmente, dando a entender que deixava de lado muita coisa de si e mostrava só o que não podia ocultar. Sabe, fiquei sabendo de um prefeito daqui que comia a mulher de um doutor, e lá um dia ou outro ela se aborreceu e desfechou três tiros no coração dele, dentro de sua própria casa, depois de terem comido da maçâ aos dois proibida. E sabe o que o marido dela fez, ao chegar em casa? Apagou as impressões digitais da esposa na arma e desfechou mais três tiros no cadáver estendido no tapete da sala. Eta homem, heim? Esse é dos nossos! Eta mulher, heim? Eta três pessoas arretadas, heim? Desabusadas, heim? Serão personagens do romance que vou escrever quando voltar para a minha Oropa-França-e-Bahia.

Tarsila (o nariz escorreito na perfeita conjunção dos olhos argutos e da boca capitosa: só de encostar os pensamentos nela que o Oswald esquecia sua penca de mulheres subalternas) queria pintar as lavadeiras do Canto da Mina, mas tinha esquecido o pincel no carro que regressou a São João. Cendrars pegou o grisu e foi ao Bairro Operário da Esplanada das Oficinas para ver de perto a sistemática operativa da rede mineira de viação. Bateu inúmeras fotos nos olhos mnemônicos para revelar e montar, depois, um painel romanesco. Estava maravilhado e nem sentiu a aproximação de Mário, que estava aflito por rever Henriqueta Lisboa, musa e poeta das alterosas, cuja imagem de calafrio e rubor aproximava nos sonhos dele e depois distanciava na realidade. Ele morreu solteiro, ela morreu solteira.

O franciscano argumentava: só o ensino das artes nas escolas pode restabelecer o equilíbrio entre a tecnologia e o humanismo. Olívia prenunciava o som do olhar, colhido cinqüenta anos depois em muitas moças da cidade por seus poetas inibidos e arredios. Ela se prevenia dos agouros, beliscava os braços de Tarsila, que parecia viver só de beijos e abraços. E por falar em abraços: quê falta que todos sentiam de um dos braços do belo e talentoso poeta francês.... Que parecia anotar num dos cadernos da cachola lá dele: todo autor deve ir com calma, sabendo que ninguém está a morrer por causa de sua imaginação travada ou solta. Mas se algo nascer dela, no devido tempo de sua luz natural, tanto melhor se for uma coisa válida e bela, que recompense o trabalho de parto que deu.

E todos viam as palavras andando pelos campos mineiros até os horizontes circulares e montanheses, alçando vôo ali, aterrissando acolá, reverenciando uma curva, aplaudindo o pássaro das quimeras nas grimpas do jatobá, ali pelas bandas de Azurita, agora todos encavalados nas poltronas da primeira classe do trem de ferro que os levavam de Divinópolis a Belo Horizonte.

(escrito depois de ler o livro “A Aventura Brasileira de Blaise Cendrars”, de Alexandre Eulálio e Carlos Augusto Calil).