terça-feira, fevereiro 09, 2010

AS SETE MULHERES DE PICASSO - Conto de Lázaro Barreto.


O traço marcante na biografia de Panécio Pereira da Silva, pintor primitivo e criador, é a dimensão do fôlego de suas experiências afetivas, o calor de seu amor às mulheres que projetaram os horizontes de sua vida. Amou tantas nos decênios de sua maturidade, sem nunca, porém, exceder o prazo de cinco anos no amor extremado de cada uma. Quando uma saia pela porta dos fundos, a outra já assomava à porta da frente. A que ia, morria no quadro de evidências abstratas de seu cotidiano; a que chegava, acionava o interruptor das correntes elétricas, reativava os sons e os cheiros e as luzes da casa. Ele sabia que há mais de uma mulher em cada mulher, que os dedos das mãos (todos em linhas retas) não são iguais, sabia que há várias maneiras de dobrar um lenço de cambraia, de ver um melro no muro e, como diz Harvey Cox, há muitas formas de “se ouvir uma prece ou de simbolizar um cosmo”. Sabia que não podia ser o mesmo o tempo todo, que tinha de passar as roupas da alma e não apenas as do corpo, e mudar de lugares para não emparedá-los na rotina.

A primeira de suas mulheres, a dos olhos amendoados, Fernande Olivier, salvou-o da hipocondria, que já secava suas veias na transição da adolescência para a juventude. Quando vadiava na orla do mar, perdido em si na cerração das montanhas, encontrou-a na casa de paredes translúcidas, banhada no ar de sons de um mar furioso na curva das pedras e tão dócil na reta da praia. Amou-a nas mil e uma noites dos primeiros cinco anos, esforçando-se na intenção de pintá-la em cada uma das maneiras em que a amava, às vezes cantando mentalmente, às vezes provocando câimbras nos nervos sexuais dela. Ele com o dedo do pé a sangrar no lençol de linho, ela a torcer de dor e gozo nas câimbras, a cama amarfanhada nas carícias, decorada de cravos e rosas assinalando a quantidade de hímens rompidos. O mar tocando uma canção falando da veracidade do amor entre duas cores: uma do poema, outra do romnce.
- Sou tão diferente de mim, ele dizia.
A dissimulação é a pele que recobre a carne
(o melhor do corpo dela é a lisura arredondada?):
a maratona das linhas no afã da curvatura,
o prazer da morte pela vida afora,
amável na passividade – é assim que ela se deixa, que ela se deixa comer,
reagindo lá a seu modo em saborosos temperos –
Ela e ela: o jeito tão singular de adequar a boca aos olhos.
Ela sabe imprimir o que estava faltando no que está fazendo:
um certo riso inaudível das entranhas?
- Como despertar a essência do ser no estar?
- Como usufruir a epifania sem acordar os elos anteriores?

Depois de recair no vazio, ele encontra Eva (Marcelle Humbert), com aquele seu jeito manso de gatinha nas fofuras rosadas, levemente risonha e morenamente magra, a protestar inocência, a confirmar a veemência e a fé do amor carnal. Na época ele representava o papel de um fauno de uma das grutas do levante espanhol, acendia o fogo nas imediações das virilhas, e assim munido de uma multiplicidade pênica ao longo do corpo quase matou a pobre moça na delicada parvoíce do ensimesmamento, que não aprovava tais loucuras mas consentia em participar de todas as alegorias e fanfarras naquele corredor de fantasias parietais, a sorrir, a luzir em todo corpo vívido, dinâmico. Às vezes deixava transparecer em si uma flor ao vento, a dançarina flexível e sensual – ali mesmo no interior da pedra, uma alcova nupcial, agora possuída da leveza de uma nuvem nas alturas das estrelas mais luzidias. Ele beijava o nariz dela, engolindo-o maciamente, coloria os cabelos dela com os amarelos do pensamento, e queria sempre mais - e ela encolhia assustada, a perguntar: “você é tarado?” Ele pedia perdão, ela perdoava, abrindo novamente os braços e as pernas, novamente afeita e afoita. Foi difícil agüentar o peso da paixão alheia. Foi difícil agüentar o peso e o arranco da paixão. Ela queixava no fim de um dos turnos, e ele respondia que ia ser difícil trocar o sol da gruta por uma lua sonolenta. Aí ela voltava a luzir, atravessava a parede, voava pra os velhos reinos prussianos de Goethe, de Wagner, pois era quase assexuada, não obstante o que virava e mexia e emergia da alma:
ela tinha carne na alma?
(A beijar os pés de Deus, como diria o Bernardo Guimarães, o demônio
tem a figura do desejo) –
O lábio inferior é mais gordinho,
é mais palatável que o superior:
a vontade que tive de tê-lo entre os meus, aos poucos,
na hora de dormir, horas mais tarde!
Depois ela meteu a alma no caixão do dia,
encerrou o corpo na sepultura da noite
(do que desejo e não cometo, eu extraio o modo de fazer o que sonho
nas noites dos outros dias: não é assim mesmo que se diz?).
Aí é que o estilo de viver vem do abstrato e chega ao concreto.
Depois a borboleta bafeja as ruínas, resgata o abandono,
os dedos atiçam o fogo do corpo:
se não comprimir, o coração salta do peito!
Ele passava as mãos nos cabelos dela,
para desarranjá-los no desejo das chamas agora tão azuis.
Os desejos em chamas azuis,
as patativas dos cantos e recantos da memória.

Quando foi morar na vila italiana dos altos muros, os telhados cobertos de hera, de galhos e sombras, ela (a eterna a ave do paraíso) veio povoar seu hermético isolamento cubista até então por ele sovinamente resguardado. O rosto dela, de donzela provençal: a harmonia dos traços passados a limpo no caderno escolar com o desafio das novas tonalidades e arabescos, ora essa, assim sim. O que fazer? A fadiga que vem do ócio é pior, já dizia Machado de Assis. Toda a felicidade (a fusão das virtudes pela exclusão dos vícios) é excludente e, portanto, infeliz. Ficava no ar a pergunta: como pintar a singeleza do nariz, as armadilhas da boca, as auras que desciam e subiam na velocidade da luz dela e da natureza? Como exprimir o perfume dos olhos, a limpidez das pernas, o gotejar da vida interior? Ele desbravou o sertão dos trópicos, esmiuçou cada relva dos murmúrios, cada areia de tantas horas montanhosas. Uma cova de semente em cada poro, a inspiração das centelhas na floração dos beijáveis recantos da nuca.... Três vezes ouvia a fruta cair no telhado – cachos de uvas em cada paladar da voracidade de seu estro de pintor flamengo, sempre flamengo. Mas quando ela empalideceu ainda mais para se esvair de todo na fatal inexistência, ele nem tentou socorrê-la, sabendo que agora
ela era a Eva de nossos dias,
depois de assim passar de carne à flor,
e tornar-se palavra no caminho da música:
dois ou mais compassos no adágio da sonata,
o harpejo de três notas do súbito acorde,
pois
Beethoven não era surdo, era mudo e teve que inventar um dicionário especial para dar voz às suas palavras....
Quem já amou apenas uma vez, apenas uma pessoa?
Quem assim tanto se poupa precisa saber
que a principal ação da alma é a paixão
que quer
amar muitas vezes muitas pessoas:
pois está na cara que um só corpo não suportaria tanto amor!

Olga Khoklova chegou de remotas brumas, a desembrulhar para ele um coração de anjo tártaro. Ele encontrou-a como que por encanto numa alameda de seus caminhos: os carros noturnos cortavam as direções, as cores das vozes líricas contavam uma história policial de amantes irresponsáveis.... Assim ele, Panécio, encontra outra mulher de sua mesma vida, a recitar-lhe o dito segundo o qual o amor faz até o cão ladrar em versos. Quando ele bateu na porta, ela já o aguardava, prenhe de sortilégios e violetas. Ele desejou uma dose de gin com tônica para despistar a emoção e facilitar a umidade de qualquer um de seus lábios? O umbigo dela, ansioso sob as vestes, os olhos fúlgidos, o corpo todo aureolado, como o da Sofia de Machado de Assis, era um reino unido com as cidades, as vilas, os campos, as florestas, as fronteiras dos rios mitológicos – e o desejo a nadar no meio dos peixes ariscos e das pedras preciosas. Ela conversava com as árvores, dava bom-dia aos cavalos do pasto? Logo depois, quando a estreitava nos braços, sentiu repentinamente que ela esfriava e desfalecia. Aí ele interrompeu o abraço, e era isso o que ela queria, pois logo esgueirou maneirosa, esticando as pernas, numa espécie de dança ou exercício de musculação, ora essa, isso mesmo ali no atelier atulhado de telas e molduras, esboços de esboços de esboços de esboços. Ele, boquiaberto, estava como que se nadasse nas águas turvas, aqui e ali, a procurá-la no rol das figuras agora fracionadas em reles sabugos, moelas, tições, girassóis, chapéus de sol e sombrinhas arrebitadas, ora essa, tudo assim disseminado no repentino desamor, na reviravolta dos reveses de outras escapadas, agora assim com a boca na botija de água azul e vinho tinto e rosas e rosas e mais rosas de Gertrude Stein, a dileta amiga das outras, tantas e tantas horas vagas de seu cotidiano assas tumultuado. E numa das águas que do céu gotejava, a de lampejos azuis dos olhos de Olga, ele molhou o gosto dele no gosto dela das prendas e dos dons até então interditos. e foi assim que se deu o enlace infinito, mais uma vez. E depois, para finalizar um conto e começar outro, ela se foi no humano borborinho de Montparnasse – e ele, mesmo de longe, sentia o andar dela no peito dele e o arfar dela no peito dele – e também o olhar entristecido, o fulgor lancinante do adeus no peito dele,
a reconstituir os bons tempos do amor.
Pois é assim mesmo que da fruta,
que da fruta ao verso muita água corre:
e quem não sabe nadar, morre.
Quando o êxtase é orgasmo,
a gente anda sem se mover
e a diabinha dos anjos anda
para os lados de si mesma, devagar, a divagar
sobre outros desejos menos cansativos....
Ah enigmática melancolia dos crepúsculos,
o heroísmo é a renúncia e não a ganância.
Só quem ama sabe olhar e ver
(os sentidos a redemoinhar)
que o minuto mais longo da vida é o da morte,
que é o fim da sensualidade (da sensualidade
que é o não-esquecimento dos sonhados prazeres).
Como chovia nos filmes franceses!
Onde ela estava?
Onde eu estava?
O que deixei em casa?
O que procuro aqui?

Algum tempo depois, quando descansava na sombra das molduras, Panécio lembrou-se de Málaga, Florença, Los Angeles, Guarapari, Dores do Indaiá, Andover e Babilônia. Ele pintava a luz interior do rosto de Marie-Thérese Walter num extenso painel de seda, aproveitando a cintilação de um fetiche de cores sóbrias no vão da janela. Desfolhava as páginas de um romance de Proust, multiplicava as tentações de tantas doçuras ao alcance das mãos. Como captar o excesso do limitado? A seda expandia, a cor entornava, ele interrompeu a fluência, pois assim embriagado era impossível continuar. Ele tinha bebido todos os líquidos do corpo dela: ela ficou mais esbelta, ele mais obeso. De repente percebeu que a criatura superava o criador, que a cópia não mais conferia com o original. Assim não, ele pensou. Deus está brincando comigo. Começou a recitar sonetos, baladas, de meia-voz, a certa distância dela, agora tornada um mero e inerte modelo. Quando finalmente ela aquiesceu aos rogos e sucumbiu aos afagos dele, perseguida por assim dizer pelas sombras das próprias luzes que saiam das mãos deles, ela gritou: “Panécio!” Ele assustou, pulou a janela, e ela, tirando a última peça de roupa do corpo, começou a comer ameixas. E de longe eu percebia os olhos de ambos mastigando o verde rebrilhar da folhagem, uma loucura aos olhos dos anjos que diziam amém em homenagem a tudo que nela agora perfazia a perfeita imagem de uma santa grávida. E foi assim que mais um quadro se pintou no atelier do Panécio ausente.
O abraço carinhoso na oitava esfera da amplidão:
é assim que uma garota nua coberta de flores
tem que posar noventa vezes seguidas!
E ele, rubicundo, careca, pasquácio?
A possível beleza dele seria invisível?
Seu amor ao trabalho produz uma nova realidade?
Seu amor à vida, satisfazendo o estômago, o cérebro, o sexo,
atingiria a metafísica, abalaria o sobrenatural?
O nariz diferente de uma mulher,
os braços engraçados do rapaz de boné,
os terrores da paz:
apesar de tudo ser tão igual, tudo é tão diferente!
A canção na janela parecia dizer cuide bem
das folhas da relva de Deus e de Whitman,
sob o olhar das criaturas de Deus e de Picasso.
Assim que chegaram a lua e o demônio de Sócrates,
as mulheres azuis e rosas e francesas chegaram também
as quedas na vertigem das diversões voluptuosas
e, no dorso de uma nuvem retilínea chegou Dora Maar,
a caminhar antes do sol nascer na direção oposta,
na pretérita distância dos lenços acenando sem parar nas mãos sedosas de outras beldades: ela agora a carregar com certa dificuldade as partes do corpo (a bunda maravilhosa, o rosto igualmente lindo): por que Deus me beneficiou tanto? Ele se pergunta, assas desconfiado, agora a submergir nas trevas de uma nova paisagem, a pintar uma ária de Mozart no nariz da própria Dora Maar, a moça mais nova de uma família de sete moças aquinhoadas:
Ela é a do corpo que às vezes corre para trás
(corre até ser alcançado na contramão).
Panécio gostava de pintar os olhos dela (os olhos de uma criança um pouco estróina?), visando encontrar o que perdera nas outras (mas o que foi mesmo que perdeu nas outras?). Pensando bem ele teve uma infância bem triste e até mesmo um tanto trágica. Seria por essa causa que não podia ver uma criança, onde quer que fosse, que não conseguia segurar as lágrimas dentro dos olhos do coração?).
Onde o sol ilumina o nosso amor,
ali está a nossa lua,
bem ali na “árdua aprendizagem dos reveses”, como diria
o incrível Euclides da Cunha dos sertões nordestinos.
A cidade que sofre o controle excessivo,
morre como se estivesse dormindo.
E a bela mulher que faz dos olhos uma arma?
Ela constrói uma nova realidade para o homem?
Sim, ela diz sim, e não sabe dizer outra palavra:
no ato de capitular, ela encontra seu perdurar
(tal como lá diz a poeta Marianne Moore).

Quando morava na Rue des Grands-Augustines, já desprovido do amor e do desvelo da ingrata Françoise Gilot, ele se desordenava na bagunça das quinquilharias no chão e nas paredes, na promiscuidade das cabras, cães e gatos, na sensação animal de solidária efusão. A miséria humana tem que ser acompanhada pela violência descritiva, puxando a autocrítica para testar as manchas do sol e do piano das desgraças humanas, a execrar a crueza dos fatos e a enaltecer a gentileza dos seres, abraçando e beijando, caindo e levantando nos braços e nas pernas das mulheres de seus amores. Só mesmo o amor (assim ele poderia dizer, como Huxley depois disse) instantâneo ou definitivo (este acaso existirá, além da simples intenção?) pode fazer do desejo físico um desejo espiritual, convertendo o corpo em alma, isso através da perspicácia e da engenhosidade da arte. Pois que a natureza, como dizia Pope, é livre, tão livre que só obedece às leis que ela própria cria. E daí? Por que a civilização me tolhe e castra tanto? Quem ganha com isso? Quem perde? Ah, será que sou como André Gide, a dizer de si mesmo que não passava de um aventureiro na vida e no mundo? Também James Baldwin, abismado diante da sede e da fome do processo modernizador da humanidade, negligenciava, indagando: “que destino estará reservado a toda essa beleza compungida que desabrocha?” Assim indagava, rememorando o trecho da profecia bíblica recriada no submundo popular: “Deus forneceu a Noé o sinal do arco-íris; não mais água – da próxima vez, o fogo!” Assim ele (Baldwin-Picasso) via, angustiado, ali nos umbrais da patética modernidade o painel contextualizado da fragorosa Guernica. Mas, apesar dos amargos arroubos, ele não podia passar incólume pelo clarão das estrelas nem pelas gotas das chuvas de maio, como depois diria Céline diante de outras nefandas estrepolias cosmológicas, deslustrando o mistério sideral. Ah, ainda bem que sabia que devorado por tais enigmas, ainda assim era necessário
inventar antes de dissipar, inventar depois de dissipar.

Anos depois ele viajava de Minas para São Paulo, visando alcançar o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. A promessa que ia fazer era: esquecer as mulheres e viver bem no esquecimento delas. Ia dar certo? Assim como Picasso, ele tinha vivido e amado um rol delas, mas agora amargava a boca nos dissabores dos desleixos: ou arranjo uma que faça minha definitiva felicidade, ou tiro todas da cabeça! Viajou dois dias e duas noites no trem de ferro da antiga Rede Mineira de Viação, dormindo aqui, acordando ali, a ver na esquisitice da sonolência o espigão que ora descia e ora subia com os vultos andantes (homens fardados? Cavalos arriados?), ora em verde sobre o negrume, ora em negrume sobre a verdura do terreno passageiro visto da janela do trem. E subitamente (Em Três Corações ou em Perdões?) a moça entrou e veio sentar a seu lado, no único lugar vago daquele vagão. Entrou toda prosa-e-poesia lembrando a Maria do romance de Graça Aranha, na noite da floresta: o corpo todo coberto de pirilampos. Pediu licença, precisava despedir-se das pessoas pela janela em movimento, aí ele trocou de lugar com ela – e a partir daquele momento ela passou a ser a janela e a paisagem de sua vontade de olhar. Ela suspirou, depois dos acenos de despedida que deu, e caiu em si na cadeira, bem à vontade. Portava uma aliança no dedo (e ele nem sabia se era de noivado ou de casamento). Ele olhava, despistando, para não constrangê-la. Depois das outras (ele pensa), vem essa agora, como se fosse a primeira. Quem ela me lembra? Uma deusa grega? Uma índia guarani? Uma pastora judaica? Uma diva francesa? Uma cabrocha brasileira? Uma emoldurada muçulmana? Uma musa do Parnaso ou da Arcádia? O que posso fazer para agradá-la, sem aborrecê-la? Ela que é ela e mais ninguém, a única no mundo que ostenta o nome de Jacqueline Roque!
Tantos ninhos no corpo e na alma dela!
As árvores da Mantiqueira passam correndo pela janela.
Ela já dorme tão cedo?
O sono dela é uma espécie de aura?
Nela a Ninfa Eco repete os cantos do vale.
O jovem Narciso repete as imagens no poço:
somos aqui as duas solidões do amor?
Dormindo ela se inclina para defender-se
de outros lances.
Seu braço encosta nas nuvens?
A brasa do amor refresca no sono?
O batom desmaia nos lábios?
A luz circula o ventre aninhador,
os cabelos acalmam os ímpetos:
o que se apóia, mais voa.
Que mal faz se conversar comigo?
Que mal faço se a cantar, aos poucos?
Mesmo dormindo resplandece nela a fração divina do humano, a chamejar, a pulsar sem jamais extinguir, a interpelar minha fome, a replicar meus argumentos. Que mal pode haver em meu desejo mais ansioso? Quando ela acordar..., terei coragem de abordá-la? Não terei? E então: tudo se perde e nada se aproveita? Meu Deus do Céu, nenhuma aventura despontará no horizonte nestes dias tão insípidos? E a esperança (ou a promessa) de ao menos uma noite de amor eterno? Por que ela não acorda e diz “esta boca é minha, mas pode ser tua nessa noite de amor eterno”? Por que dorme tanto diante de minha insônia? E assim desistindo da prosápia, ele virou para o lado de dentro de si mesmo, abriu um dos livros de Guimarães Rosa e leu: “os meus quatrumanos: quais as caras deles iam ficando demônios...(...)....: Se todo animal inspira sempre ternura, que houve, então, com o homem?”