domingo, abril 25, 2010

O OURO AZUL DA ANSIEDADE - Lázaro Barreto.


Ela canta no quintal da casa dela,
nos áureos tempos do nosso velho arraial,
uma canção no meio das pitangueiras,
que faz reamanhecer a tarde doméstica
em serras e mares de ilíadas e eneidas.
Sereias aportando em meu quarto
de janelas abertas aos horizontes?
Ela canta – e eu não apenas ouço:
eu vejo, agarro e beijo.
A voz é do pássaro arcaico das quimeras,
de lascívia plumagem acariciada?
A saudade em gotas de outros enlevos?
A promessa eficaz de futuros fervores?
Ou apenas uma fruta momentânea
que agora tateio, aspiro e como vorazmente?
O ouro azul da ansiedade,
a íntima pedra das confidências
prorrogadas?
Será que amar é assim mesmo:
um não na terra dizendo sim no céu
das inolvidáveis dúvidas favoráveis?
Ou um sim diurno em cores noturnas?
Um disparo doce e fugaz no coração?
Será que amar é mesmo assim:
o diapasão do jardim na roça do quintal?
A momentânea sofreguidão da eternidade?