sexta-feira, novembro 22, 2013

DOCE PÁSSARO DA JUVENTUDE 22/10/2012

O quintal de minha casa, bem extenso e todo arborizado, perto do rio e desfrutando de subterrânea umidade e não longe de uma siderurgia com seus altos fornos fumegando a irreparável sujidade é um celeiro de pássaros sobreviventes de toda uma região desmatada, ou seja, transformada em carvão para os fornos da rude siderurgia.

Os cantos e vôos sobre a casa e no meio das árvores do quintal e nas folhas que encobrem o chão-viveiro de minhocas. Fico às vezes arremedando em assobios os cantos e piados dos bentivis e sabiás e rolinhas, atraindo a plêiade deles que freqüenta as árvores e mesas de cimento-armado e o chão onde se fartam de frutas, rações e minhocas.

Fico lembrando de minha infância rural, vivendo numa espaçosa casa, com as portas da frente dando para uma rua toda gramada e arborizada e as dos fundos abrindo-se com as janelas para o denso e extenso quintal de múltiplo e diversificado arvoredo.

O pomar na parte de cima, com as bananeiras, laranjeiras e mexeriqueiras, os trinta e cinco robustos e altaneiros pés de jabuticabas, as mangueiras de várias qualidades, os cajueiros, um jambeiro e uma parreira de uvas, as pitangueiras, articunzinhos e ameixeiras, pés de limas, limões e romãs – e dezenas de pés de café, sem falar na enorme área de plantação de milho, abóboras, feijão, favas, quiabos e couves e espaçosos nos lugares destinados ao paiol dos mantimentos, ao galinheiro com os varais de pouso e no chiqueiro para a engorda de capados, além dos porões de nossa casa e da de minha avó paterna, (uma casa colonial imensa e abandonada).

Uma propriedade festiva para a meninada amiga da gente e também para os pássaros e aves servidos de comida com fartura. Foi lá, naquele tempo, que aprendi arremedar os pássaros nos cantares chamando chuva no tempo da seca e sol no tempo das águas. No fundo e ao lado do quintal os valos divisórios, ladeados de farta e altaneira vegetação, esconderijo e vivenda de animais e pássaros estagiando entre a selva e a civilização.

Era bom e útil aprender com os passarinhos os cantos da existência, livre e desprendida, fugaz e constante ao mesmo tempo em todas as horas do dia, desde o romper da madrugada até o escoar da claridade solar, quando a lua e as estrelas do nosso descanso adormeciam a faina vivencial dos seres e das circunstâncias.

A parte do lado de fora da casa, vinha a rua larga e repleta de magníficas magnólias e bilosqueiras: era outro pedaço do pequeno paraíso de nossa terra. Os passarinhos do quintal e da rua voavam, saudáveis, pousavam e cantavam em contínuas revoadas. Fico lembrando das andorinhas, dos sabiás, pássaros-pretos, pardais, rolinhas brancas e escuras, tico-ticos, canarinhos e pintassilgos, curiós, as siriemas, as trocais, os jacus, os urubus, os azulões, acauãs, papagaios, periquitos, maitacas, joão-de-barros, pica-paus, beija-flores e, mais longe dali, no valo do quintal e na capoeira da Fontinha, as juritis e os nhambus, os sanhaços e gaviões, os curiangos, as perdizes, os chamados frangos d’água, os paturis e tantos outros de nomes agora esquecidos.

Lembro-me que, infelizmente, os mais robustos (carnudos) e também os mais canoros era perseguidos, atraídos e presos em laços de barbante, alçapões de bambus, arapucas e visgos por pessoas (adultas e crianças) de maus bofes, como se diz.

Mesmo assim a passarada era uma festa nas redondezas do arraial e não apenas nos fundos de nossa casa. Nas matas adjacentes dos lugares chamados Buracão, Presa, Fonte Grande, Fontinha, Corgo Areiado, Narciso, Lavapés, Volta do Brejo – e também nos capões de mato e nas capoeiras das quinze bandas: em todo lugar da roça a vida era muito natural, ninguém castigava ou destruía a parte animal e vegetal da vida animal, exceto os caçadores, pescadores e açougueiros e também as donas de casas matadeiras de frangos e galinhas.

Depois, anos depois, foi que em nome de um pretendido e contundente desenvolvimento civilizatório que a paisagem está assim desertificando, o solo esterilizando, o ar intumescendo, tudo isso a demarcar o primado da poluição planetária.

Depois dos males veio pior: o êxodo rural e assim os sítios e fazendas viraram chácara de lazer para o repasto dos finais de semana dos comerciantes e industriários e empresários e políticos dos centros urbanos. Tornaram-se meros viveiros de novas riquezas e pobrezas.

Assim como que expulso de meu gostoso e inocente habitat, fui para bem longe, envolvendo-me em outros aprendizados, por critérios de vocação e de necessidade.

Corri mundo, anos a fio, armazenando vivências de estímulos e de aflições. Vi e senti a diferença ente o realismo e a fantasia, ferindo-me mais do que deliciando-me com o que o mundo podia oferecer-me longe da inocência das árvores, das aves, dos animais e das pessoas abençoadas pela poesia da natureza, agora tão mutilada em sua pureza.


Uma transformação que clama aos céus, não?