domingo, julho 25, 2004

A JANELA DOS ANOS - Poesias

O Moinho Rifoneiro   A navalha esconde estranhas palavras em seu rosto de neve: uma gota de sangue e outra de leite uma, duas argolinhas na mão cheia de dedos do amor. De manhã as palavras sobem à laje da tapera levadas pelo sol ruidoso e temporão de noite elas descem carregadas de silêncio, descansadas dos atavios intemporais. A laje não apenas escorregava mas também balançava e rodava afundava aqui e submergia ali qual nave avariada no mar bravio. O bom é um açude vulnerável o ruim nem precisa defender ataca, ciclópico o duelo sem tréguas dos dois garante a vida no planeta. A moça chamada Irilda dizia (não sei em que ponto de minhas leituras) que o peso da hereditariedade é muito grande mas que não sabia se era maior o dos pais viciosos ou o dos pais virtuosos. O inexistente me chama do lado de fora vou atender sem ter a menor idéia do que quer comigo (está em riste na boca de espera? Furado de projéteis no âmago?) - o inexistente (a boca diz aos ouvidos) fica atrás de si mesmo mas os olhos castanhos não cansam de procurar os chifres na cabeça dos cavalos. Os Vazios Cintilantes Falta luz ou falta quem acende a luz? é o Padre Zezinho, respondedor, que pergunta a própria realidade estremece acende e apaga nas vielas, quer saber se falta quem sonha ou se faltam os sonhos no coração. Ainda subsiste em nós os resíduos da divindade? onde? nos bolsos desapareciso do corpo? nas pálidas reflexões da alma? o passado avança no futuro - os ritos africanos viraram feitiço no Brasil? a própria fé a serviço a violência em todo mundo? a nau dos insensatos! o ergástulo dos excluídos! a dessacralização da natureza! é assim que se perde sem ver o amor convivial? Vamos fazer dos olhos uma arma? cantemos em voz baixa a metáfora dos vazios cintilantes - não temos noites a perder no derrame de insetos - a vida é uma criança: gosta mas tem medo.   

A Cantora O corpo vai do abstrato da partitura musical vai de leve e cheio de graça vai e chega ao concreto da dança aérea de pés no chão exuberante e soberbo ele não é apenas o som e a imagem da flor e do pássaro é a flor do pássaro. O corpo não seria móvel e vívido se não tivesse virilhas e axilas o fogo não seria água de luz verde se a cantora não debulhasse Ari e Noel a vida não é rodeada de abismos? a curva é boa porque faz de conta vai para sempre e chega a toda hora a vida é boa quando a morte abre quando ela abre uma das curvas da vida a perna não seria bela se não despontasse a cabeça é bela porque arredonda é assim que a cantora vai e vem a piorra no tablado da canção atenção dobrada dos trovadores toda a pressa da beleza a urdir blocos diáfanos assim vai e vem nos olhos dos ouvidos até esbarrar na sombra inversa o amor tem os passos da canção. 

Juliette Binoche A estrela do lado de fora do céu declinava dos caminhos secundários da viagem, reclinava no colo da moça a partir dos carinhos inversos, em versos a chuva pianística borbulhava nas pedras que eram espumas antes de serem lágrimas as luzes respingam as almácegas do rosto demoram nos olhos demorados da âncora convivial no meio dos marmelos andadeiras e agapantos. Os anelos contidos tocam flautas e glândulas modelam o corpo na elasticidade a voz de meio-soprano canta nos olhos a revoada dos harpejos a inspiração das baladas o piano a cair na emboscada o vviolino a cair no vendaval uma das pernas toma vinho doce a outra toca a flauta doce. “A minha liberdade é dos bichos”, ela solfeja em compasse ternário já bem longe do coro e da orquesta no palco de paredes trincadas de outras miragens.   

Diamantina Edificada sobre a rocha a cidade chega aos poucos de longe as crateras lunares aqui despenhadas o frio impessoal dos horizontes cada arrojo é uma vontade diáfana cada casa é uma igreja no morro os olhos ao lado da paixão, esculpidos nos beijos do desejo os olhos verdes e amarelos, esculpidos no adeus de cada esquina ali outra lua pousada nos galhos da pedra vivo antes de viver o que vem depois já é lembrança.   

Delírios Momentâneos Agora que dinheiro é poesia... Dinheiro é poesia? Salamandra é pirâmide? Agora que a formiga tem catarro (tem tutano?), pega um ou dois estereótipos de pernas curtas (uma grama de sal aqui, uma pitada de açúcar ali) e espere a vida, para depois morrer. Vamos esquadrinhar a fantasia e rir da lógica cartesiana? Vamos aplicar um eletro-choque no ego do narciso? A ponte vai ruir se você mijar na pilastra dela! Você que diz um absurdo desses, diz que dinheiro é poesia? que vai nascer cabelo na garrafa? As palavras viajam ilhas e continentes nas pupilas dos poetas na respiração das mulheres (de erro em erro o pensamento acerta, uma vez ou outra), dependuram máscaras nos galhos da laranjeira - uma delas corre mais que eu, chega na frente. É o dinheiro no altar de eros? Tudo então está perdido?  

Paráfase de Jill Wofman   É no sonho que ouço o chamado (o grito simbólico de meu nome). Num instante pulo da cama em silêncio para não acordar o marido que ressona. Encontro o chamador no quanto contíguo. E agarrados formamos outro casal na escassa luz da madrugada. Sua boca voraz me esvazia e me enche. Como é bom ficarmos assim na cama o longo tempo a brilhar nos espaços as gotas de leite escorrem no seu rosto meu corpo flui e boceja na entrega. Novamente a dormir no paraíso na área vívida das pétalas momentâneas ele dispensa minha companhia. Então levanto na frente da outra porta retorno ao ninho anterior e logo reaqueço no corpo de outro homem.  

A Imprensa do Interior   Homens teimosos, de palavra fácil, arremessam dardos plantam os jornais no chão às vezes sáfaro às vezes fértil da cidade que espreguiça nos horizontes sertanejos. Nomes satíricos e falazes como A Sogra, a Gazeta Sanitária, A Carta, bolados certamente por filhos mórbidos da vida que sabem do amargo salutar da face humana. Procuram quem está na berlinda? brilham no escuro, escurecem na claridade sabem que a floração nos escaninhos do poder não influi na tremedeira do medo alvar. Carregam os nomes de Sentinela e de O Clarão recolhidos nas dobras de uma bandeira hasteada aos ventos contraditórios. assim cumprem umdestino, adubam os campos enchem de perguntas os terrenos baldios - os nomes portadores de lírios como Diadorim, Bilhete, Arrebol, colecionam incertezas escrutinam os fazeres e as omissões do cotidiano. Caramba! às vezes procuram a flor e encontram a ferida Caramba! às vezes até conseguem interceptar o malfeitor interrompem a deportação de mendigos em caminhões sem freio. É o gosto que provam, que aprovam da vida.  

O Santo Forte   O que mais te desejo no dia-a-dia agora que andas achacada de males é a proteção de um santo forte a cada hora do dia e da noite: Santa Terezinha do Menino Jesus, a das rosas para manter intacto o encanto de teu rosto São Jerônimo  

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Lindos os poemas!

Valhei-me Santa Teresinha "a das rosas" e a sua benção Dom Lázaro,lendo esses versos certamente a criança que a vida é, vai se encher de coragem e só vai ter tempo pra sentir quão boa a vida é.
Com grande respeito e admiração,Leonor.

11:35 PM  

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