Quinta-feira, Maio 17, 2012

Buenos Aires Querida

Um passeio familiar (com a esposa, a filha, o netinho e a nora) à capital da Argentina vale como uma renovação de fé no humanismo salutar que ainda sobrevive em muitas das grandes metrópoles do mundo. No Brasil essa beleza humana ainda persiste em muitas cidades litorâneas e de tombamentos no chamado Patrimônio Histórico. Em Buenos Aires a parte antiga, imensa, mantém o tipo de modernidade da época (séculos 19 e 20) em nossos contemporaneíssimos dias. Ou seja, a parte antiga é ao mesmo tempo reconhecidamente moderna. As ruas estreitas ao longo de um aprazível afunilamento na interligação dos prédios diferentes uns dos outros, mas unidos no equilíbrio visual de uma estética de bordado gracioso e perfeitamente esmerado na pintura e limpeza dos adereços neo-clássicos. Todos, por assim dizer, em todas as ruas centrais, mantendo o equilíbrio das dimensões de dez a quinze andares, mais ou menos. As esquinas são pequenas praças e o trânsito bem controlado: os pedestres nos largos passeios, os automóveis em mão única, sem correria e sem barulho e sem acidentes. Muitas ruas são destinadas exclusivamente aos pedestres, todas ladrilhadas em cores, muito limpas: não se vê sequer um toco de cigarro... Um cuidado exemplar da Prefeitura, que não se constata na maioria das cidades brasileiras.
As ruas e praças primam visualmente, ostentam uma espécie de ênfase comercial: as lojas são belíssimas com suas vitrines engalanadas, chamativas. Uma sinfonia de cores, um luxo democrático. Os largos (terrestres e aéreos) espaços das praças perfazem boa parte da grande cidade. O bairro Puerto Madero ao longo de um aterro sobre o rio lembra as docas de Londres. Citamos também como áreas de saudáveis lazeres: a Avenida Lavalle, a Praça 25 de Maio, que abriga a famosa Casa Rosada (palácio presidencial) e os vistosos prédios da Basílica e da Catedral, ambos forjados em estilos rococó e barroco....
E a inesquecível Avenida Nove de Julho, considerada a mais larga do mundo, contendo 22 pistas para automóveis, além de conter as praticáveis passarelas dos pedestres. É comum dizer-se que em Buenos Aires cada esquina “tiene um tango”.
Grande parte da área do bairro Caminito (parte mais antiga da cidade) é ocupada por bares e restaurantes e pistas de dança de tangos a céu aberto, sob o sorridente sol dos turistas de toda parte do mundo. Imprescindível também é passar e contemplar os aparatos do Madeiro, da Recoleta, do Palermo. O requinte na cidade está nas comidas e bebidas, nos toques, timbres, regalias, nos museus e em verdadeiros palácios comerciais. Até os ônibus (coletivos) são enfeitados, elegantes. Uma cidade bem cuidada em seus cantos e recantos, proporcionando o bem estar das pessoas. Sabemos que o bem material bem cuidado atrai o bem espiritual e inspira o próprio desenvolvimento humano. A cidade não possui apenas um centro, mas muitos, cada um com as suas especificidades, a aparência agradável ao lado da serventia humana.
O cemitério é maravilhoso, se assim posso afirmar. Imenso em seus ruados que se multiplicam à esquerda e à direita dos visitantes, que contam até com guias turísticos. Cada sepultura é uma verdadeira obra de arte. De forma que ao que tudo indica está fechado para novos clientes: vagas só para os membros das famílias proprietárias dos túmulos existentes. A arte neo-clássica dos últimos séculos prepondera no traçado e nas fachadas dos prédios interligados sem a menor canseira visual, artisticamente diferenciados nas aparências e levezas das unidades em conjunto. A visita ao Jardim Zoológico foi outro “barato” do passeio. Imenso e faustoso, densamente arborizado, bem servido de água e de redutos para cada espécie animal. Um local de forma e conteúdo que encantaram o avô (eu), o netinho (Paulo), os outros familiares e também a Deus e a todo mundo.

Sábado, Abril 28, 2012

A Prosa do Poeta Lázaro Barreto

Sexta-feira, Março 23, 2012

Primeira Infância





O cartão acima (poema visual) adquiriu, depois de três décadas, uma nova significação. A LACTENTE referida “Um pingo d`água na folha do inhame”, Ana Paula, é hoje a mãe do Paulinho (Paulo Barreto Lopasso), queridíssimo por ela e pelo pai Guilherme, pelos avós paternos Fábio e Ana Lúcia, e maternos Lázaro e Inês.

Uma nova fase da vida parece ter nascido para todos, inclusive para os titios Paulo e Layla. Uma criança dotada de todas as virtudes físicas e mentais, uma graça sentimental, um poema em figura de gente, uma criatura que vem confirmar a nossa fé e a nossa afeição à humanidade. A expressão natural da beleza contagiante dele e do amor otimista à própria vida é a mesma que a Mãe inspirava em seus ditosos primeiros anos de infância

“Ninguém pudera tanto
(um Deus nos move),
Nem as palavras criaram tanto ardor”.

- São palavras do poeta Afonso Ávila, que cito, de memória, para completar, emocionalmente, minhas prosaicas palavras.

Quinta-feira, Março 22, 2012

ELEGIA - Lázaro Barreto.


A criança abençoa o idoso.
Sabe que não é dele a responsabilidade
Do estado horrível da modernidade
Universal.

A criança abençoa.
O jovem pragueja.
O adulto corrói.

Três estágios que salvam,
Depois condenam
A insípida humanidade.

Quem abençoa é inocente!
Vai depois praguejar?
Vai depois corroer?

Domingo, Março 18, 2012

O CORPO VALE MAIS DO QUE PESA - Lázaro Barreto.


O corpo até que pode ter seus defeitos,
Pode sim,
Mas é despido de muitas culpas da mentalidade.
Se as entranhas cerebrais
(onde se maquinam as maldades e bondades)
Possuíssem a mesma inteireza, a mesma beleza
Do sutil pregueado dos lábios,
E da mesma presteza afável das mãos
E da perspicácia delineadora dos olhos,
Ah!
Ninguém defrontaria os insultos e os desaforos,
Nem as maledicências da esquisitice do caráter atrabiliário,
Forjado em ancestrais dissensões humanas dos litigiosos
Embustes fisiológicos revestidos de auras anímicas....

Ele pode ter suas lesões, dores, imperfeições,
Mas não atraca nem amaldiçoa,
Não sai de si para molestar outras pessoas:
É alegre ou triste, feio ou bonito
Em si mesmo e tem vida própria
Sujeita às intempéries do meio ambiental,
Onde sua presença sempre ilumina alguma coisa.

Inocente das culpas individuais, sociais e mundiais,
Sozinho, solerte ou altaneiro em cada individualidade,
Obediente aos mandos e desmandos da mente que bola
E rebola o amor e o ódio das criaturas,
Da simpatia e da idiossincrasia dos conviventes,
Ele às vezes exorbita das peças mais que perfeitas
Da biologia indefectível
E aceita humildemente a subordinação aos poderes,
Presumivelmente mais altos.

Sexta-feira, Março 16, 2012

RESSONANCIA MAGNÉTICA

(Os encantos do Terror em Edgar Allan Poe) - Lázaro Barreto.

O espírito cósmico paira no ar
(é todo um sussurro de luz),
Baixa e sobe e torna a pairar
Ao sabor dos ares mansos e bravios
Nas quinze bandas do planeta,
Encarnando e desencarnando e reencarnando
Nos seres vivos de todas as partes,
Insuflando e amortecendo nas partes físicas da alma
As preocupações,
As meditações,
E assim num átimo de encanto e desencanto
Surge o peso mortal das dívidas atávicas
Sobre os nervos e os sonhos dos seres vivos
(humanos, desumanos, sobrehumanos)
Em cima das árvores, debaixo dos telhados,
e no silêncio povoado
De abstrações.

Aí então a folgança lilás do sol desanuviado
Empalidece ao entardecer das matas ciliares,
Dá seu lugar à lua que segue nos caminhos da noite,
Tentando afastar-se dos ocasionais torpedos e ribombos.
As perguntas da ventania não encontram respostas
Na montanha repentinamente estufada.
Logo-logo o assédio das folhas ventiladas
Predominam.
Elas que nascem e crescem na palma da pedreira.
Logo-logo os temores brotam na sola dos pés
Dos viandantes ressabiados....

E é aí que vem à tona a pergunta retórica:
E se a massa do éter que entra pela janela
Pegar fogo de repente?
Quem conseguirá desprender-se dos laços culturais
E ficar sozinho na imensidão da noite?
Só quem, perdido, procura encontrar-se,
Sabendo que os círculos menores dentro dos maiores
Estão sempre iniciando a perpétua dança
Do infinitamente grande dentro do infinitamente pequeno....

Sábado, Março 10, 2012

RODILHAS DO TEMPO - Lázaro Barreto.

Andei ausente da cidade por algum tempo e retornei sobrecarregado de afazeres. Só agora estou retornando ao lugar comum das atividades. E na pilha de livros aguardando leituras, pesquei o “Rodilhas do Tempo”, de Odete Assis Freitas, nascida e vivida em Cercado (hoje Nova Serrana), recomendado preciosamente por Osvaldo Ande de Mello e Paulo Bernardo Vaz, intelectuais e artistas de reconhecido prestígio. É a história da infância e da juventude da autora dando vida aos assuntos que despertam o atencioso interesse de todo ser humano nascido nas minas gerais e vivido nas áreas rurais das então pequenas e bucólicas localidades. Quem não leria com redobrado prazer as páginas que rememoram com sincera naturalidade o regresso no tempo que passou (e não devia ter passado)? Cito alguns dos temas tratados em concisas, afetuosas, deliciosas páginas: a casa da infância, o galinheiro, o chiqueiro, a horta, a lenha para o fogão, a parreira de uvas, o rêgo d’água, o pomar, os ofícios domésticos de passar as roupas, fazer os doces e as quitandas, o café, a feitura e a serventia do fubá e do sabão preto, a lavação do corpo, das roupas e do objetos de uso familiar, as pessoas amigas e aparentadas, as vendas, a sapataria, o correio, a farmácia, as temporadas dos circos e das touradas, os ciclos das serenatas ao luar, as brincadeiras de teatro e de rua, os bailes caseiros, as novenas noturnas no Mês de Maria, com o foguetório, os leilões, a cantoria, as Coroações de Nossa Senhora, as crenças afetuosas, as fogueiras do lado de fora da igreja e também as de São João e de São Pedro nas roças e fazendas, o mundo encantado da mamãe contadeira de estórias - e a fonte das futuras e melhores saudades.... Quem na vida já experimentou tais vivências sabe como é bom e necessário retornar ao passado de vez em quando, remoçar a personalidade, saudar o que no tempo é sem, mácula ou estigma....

As parcelas aglutinadas da Natureza – o enlace diuturno dos animais com os vegetais e os minerais – estão enfaticamente retratadas em grandiosas miniaturas e aquarelas. Como ela afirma, logo no começo do livro: “testemunhei e protagonizei muitos acontecimentos. Brincava, estudava, trabalhava, sempre interagida com a natureza. A natureza deixava que eu saboreasse toda a sua manifestação”. Colho aqui alguns respingos das brincadeiras infantis da época e do lugar constantes nas páginas do livro: as brincadeiras de roda com música folclórica, as assombrações, o pique-será, o entretenimento com os luzidios vagalumes (“vagalume Tum-tum: seu pai taqui, sua mãe tali”, a criança com o tição de fogo atraindo o luminoso bichinho voador. O renhido jogo das petecas ao entardecer, o do roda-pião na parte de terra da rua, o jogo das mariquinhas,o pular-corda, os balanços e gangorras, a formação de rodas cantantes, o passar anel, o guisadinho. Tudo na melhor da convivência infantil.... Todos os objetos utilizados nas brincadeiras (bola de pano, petecas, piorras e piãos, vestimentas apropriadas, tudo era feito em casa pelas próprias crianças ou pelos pais e irmãos maiores. Noto, pela leitura das belas páginas, que a modalidade do comportamento infantil e das brincadeiras era, mais ou menos, idêntica em muitos dos quadrantes mineireiros (isso constatei quando, já adulto, fiz uma criteriosa pesquisa sobre a cultura popular de Minas Gerais, que resultou num livro ainda inédito).

As românticas serenatas nas altas noite enluaradas marcavam o espaço da criança diante do da juventude. O som dos violões, cavaquinhos, bandolins e pandeiros entonizando as vozes apaixonadas dos seresteiros, brindava o silêncio da terra e do céu com o repertório dos cantores profissionais Orlando Silva, Francisco Alves e Carlos Galhardo, imitados pelos trovadores locais com a possível perfeição. As estrelas piscavam no céu, a terra orvalhada agradecia a fertilidade do amor universal, ali candidamente representado. Diante de tantas aquarelas nostálgicas e tocantes, quem da terceira idade como eu, não fica embevecido, possuído de muita ternura e saudade? Quem não fica agradecido ao refinamento rememorativo vivenciado pela autora Odete de Assis Freitas, que tão bem reafirma que o que realmente é bom sobrevive, atravessa os anos e brilha como a lua sempre nova e cheia das paisagens e dos tempos preservados na saudade, ressuscitando, sempre, um bom quinhão da FELICIDADE.

Quinta-feira, Março 08, 2012

A COMUNHÃO DO RISO - Lázaro Barreto.

- Já foi dito – não me lembro por quem -: sorri e o mundo sorrirá contigo; chore, e chorará sozinho.
- O pensador cáustico pergunta a si mesmo: o que matou o presidente da república? E prontamente responde: foi a desonestidade. Mas o que vou fazer com este pensamento: escrever e jogar fora?
- Citação de memória fraca: masoquista é o sujeito que gosta de um banho quente toda manhã – e por isso toma um banho bem frio.
- Ao contrário do que muitos pensam, a segunda-feira é o melhor dia da semana. É o que está mais longe da outra segunda-feira.
- O homem americano polui cinco vezes mais que o indiano. Logo, povo desenvolvido não é, consequentemente, povo limpo.
- A escritora Patrícia Melo raciocina em bloco como o escritor Paulo Francis raciocinava. Mas ela se distingue com a graça feminina, o que o guru do Pasquim não poderia fazer. A graça feminina ainda vai salvar a humanidade dos estereótipos desengraçados?
- Adoeceu. Inchada. Chamaram o doutor Machado. Foi-se.
- E para provar a impraticabilidade do onanismo entre os pássaros, o ornitólogo no viveiro, disse: Uma andorinha só não faz, verão.
- Conserve seu sorriso – diz o letreiro dentro do ônibus. As dificuldades são as passageiras.
- Era carpinteiro de cemitério. Seu nome: Armando Cruz de Madeira.
- Oposicionista chapa-branca é um oportunista que não se manca?
- A cama de um bordel de baixa rotatividade é também uma boa conselheira?
- Em se tratando de um político, a mão direita deve ignorar o que a esquerda faz?
- Outra pergunta cretina: quem morde na água quebra a cara?
- E onde andarão as chumbadas leves de antanho?
- Quem conseguirá extrair a raiz quadrada das cebolas?
- O degustador: armado de seu binóculo, da janela mais alta do edifício, vai desnudando, mulher por mulher, a cidade noturna.
- Seu coeficiente de inteligência é excepcional. É míope em terra de daltônicos.
- As mulheres não jogam futebol, mas praticam os melhores lances da arquibancada.
- Na cidade os pernilongos são descomunais, tão grandes que quando pousam nas orelhas dos sanitaristas, elas até balançam.
- Era tão distraído que quando retornou da lua de mel, deixou a mulher em Poços de Caldas.
- O rio da roça viajou muitas léguas para conversar com o rio da cidade. Mas quando chegou perto não aguentou o fedor.
- Nunca um não me doeu, dizia o otimista. Pois quem não me ama, não me merece.
- O futebolista jogava mal, mas era muito educado. Se recebia a bola de um adversário,
retribuía imediatamente.
- Com a mesma displicência o açougueiro cortava o frio com a faca amolada.

QUEM NÃO AMA GUIMARÃES ROSA? VAMOS À FONTE DO AMOR?

“Amar é querer se abraçar como o pássaro que voa.... Espero a lua nova como o cão espera o dono.... Podia ser um caranguejo ou um coração.... O peixe sem rastro na água sem nenhuma memória.... O esquecimento é voluntária covardia.... Se todo animal inspira sempre ternura, que houve, então, com o homem?....O medo grande que de dia e de noite esvoaça pousa na testa da rês como uma dor.... Também os defeitos dos outros são horríveis espelhos.... A queda do Homem persiste, como a das cachoeiras.... Nós todos viemos do Inferno; alguns ainda estão quentes de lá.... Os santos foram homens que alguma vez acordaram e andaram nos desertos de gelo.... Não ter medo: o mar não se destrói com nenhuma tempestade.... As velhas pedras influem, como os astros; mas só as árvores convivem com a terra impunemente.... A memória nem mesmo sabe andar de costas: o que ela quer é passar a olhar apenas para a diante.... Aviso: as sombras todas se equivalem.... Só as pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas.... Que vamos, que vamos, até os ponteiros estão afirmando.... Só na foz do rio é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes.... A água que não teme os abismos: a grande incólume.... O bagre tem sempre as barbas de molho.... Em alguma treva – como os mariscos no rochedo – as almas estarão secretando seus possíveis futuros corpos?

VIVER OU MORRER DE RIR? - Lázaro Barreto.

- Na corrida dos cromossomos o vencedor tem 9 meses de merecido repouso.
- Deus custa fazer um bobo. Mas quando faz diverte muito.
- Últimas palavras de um conformista ao ser atropelado fatalmente por um automóvel que seguia a 120 km.: “Tudo passa neste mundo”.
- Ficou cego de tanto pagar aluguel que custava os olhos da cara.
- A mentira tem pernas curtas e boca larga.
- A Santinha do Pau Oco tem tudo para ser personagem de Faulkner: presbiteriana à mesa e herética (ou erótica) na cama.
- O Desmancha Prazer tem dez manchas onde ninguém pode ver.
- Era um cantor que espantava os próprios males quando cantava.
- O que há de comum entre o escritor e o relógio é que ambos são imprecisos e trabalham de graça.
- Nunca mais levou desaforo para casa depois que descobriu o caminho do bar.
- Sujeito amarrado pro rabo tava ali: por mais que se batesse na cangalha, o burro não entendia.
- O algoz fez tanta cócega na vítima que ela morreu de tanto rir.
- A imaturidade feminina é biológica. Dos seus 100 mil óvulos apenas 450 amadurecem.
- Era realmente um cabeça de Bagre, apesar de ter nascido em Lambari.
- Humorista, Prometeu ria da própria desgraça: acorrentado ao rochedo, os abutres faziam-lhe cócegas no fígado exposto.
- A árvore da vida não dá mais frutos: só serve para quebrar galhos.
- O galanteador e a feminista, vestida de verde, trocam amabilidades:
Ele: “Verde é a cor da Esperança”.
Ela: “O verde nem sempre é capim”.

HUMOR DE ALMANAQUE (adaptação do colunista).

O marido Chiquito escreve uma carta à esposa Chiquita, nos seguintes termos: “Querida esposa: como não consigo falar com você sobre certos assuntos – você se irrita facilmente..., passo-lhe através desta os dados de uma estatística que fiz sobre o nosso insucesso conjugal\sexual durante o último ano. É o seguinte: das 365 tentativas que fiz para seduzi-la, só logramos êxito em 36. Isto por que: - em 17 vezes podíamos despertar sua irmã, que dormia no quarto ao lado; em 15 vezes você alegou que fazia muito calor e que suava em todos os poros; em 8 vezes fazia tanto frio que nenhum estímulo surtia efeito; em 52 vezes você alegava cansaço e indisposição; em 23 vezes você adiantava o relógio para alegar que estava muito tarde; em 26 vezes você argumentou que estava “naqueles dias”; em 69 vezes você estava dormindo que nem uma pedra; em 9 vezes você não suportava os ruídos que a cama fazia; em 6 vezes você culpava uma terrível dor de cabeça; em 2 vezes a sua dor era de dentes; em outras 2 vezes você rezava e não largava o terço para nada; em 10 vezes você alegava ter jantado muito e que podia fazer mal; em 32 vezes você estava brigada comigo; em 17 vezes você queria, dramaticamente, brigar comigo; em 12 vezes eu é que queria brigar com você; em 7 vezes você não queria perder o filme da sessão coruja.

Mas o êxito das restantes 36 vezes não foi completo por que: em 11 vezes você disse que eu não tinha tomado banho direito; em 10 vezes você me desestimulou ao constatar que o teto do quarto precisava de uma nova pintura; em 2 vezes você reclamou que eu estava muito afoito; em outras 2 vezes apareceu na tela da TV a figura deprimente de um político bilioso e ladravaz; em 6 vezes tive que acordá-la para dizer que desistia da intenção; em outras 6 vezes pensei que a tinha machucado, pois você dava sinal de vida.

É o que tinha a dizer, minha querida. Não me leve a mal e... beijinho-beijinho, já que deve, nesta altura, estar Xuxa da vida. Seu (eu disse seu?) Chiquito.

Terça-feira, Março 06, 2012

O RISO NÃO PAGA IMPOSTO - Lázaro Barreto.

- Era um cantor que espantava os próprios males, quando cantava.
- Escrevia tanto e tão mal que o digitador, mesmo zangado, bocejava.
- O juiz de futebol morreu esmagado por uma pedra noventa.
- A esperança dos covardes, dos corruptos e dos medíocres é que se dê um fim nos corajosos, nos íntegros e nos inteligentes.
- O silêncio de ouro: esse só os ricos compram.
- O bêbado noturno, deitado na grama da rua, apaga a luz da lua e dorme com os anjos.
- Esse cara é normal, dizem. Mas manca das duas pernas.
- Quando convidou a religiosa para queimar incenso no altar de Eros, levou um bofetão. Ela se chamava Elvira, mas não era Pagã.
- Quando São Pedro arrasta as cadeiras no céu, os desabrigados na terra dançam.
- O slogan de Bakunin “destruição é também criação” foi plagiado do dito de uma criança ao ver destruir uma casa: “Olha, papai, estão construindo um terreno ali”.
- Yeats, poeta inglês, afirmou: “das nossas desavenças com os outros, fazemos retórica; das desavenças que temos conosco, fazemos poesia”.
- A maior diferença entre a tecnologia e a mediocridade é que a última está mais ao alcance de todos.
- Quem é precavido come a lata e joga o conteúdo fora. A lata de sardinha.
- Escrevia à máquina porque não sabia o alfabeto de cor.
- A idade média dos favelados continua sendo a idade das trevas.
- A Disneylândia é uma selva tão civilizadinha que os leões dispõem de manicures, dentistas e barbeiros.
- O professor mulherengo ilustrava as aulas com recortes de revistas femininas.
- Os escritos dos autores modernistas da Semana de 22 não seriam como as balas de calibre 22: inócuas de perto e mortais à distância?
- O uso do cachimbo não faz a boca porca?
- O papel do jornal financiado pelo governo não serve apenas para embrulhar verduras?
- Ela é linda de morrer: é assim que os agonizantes dizem da morte?
- Era dado a trocadilhos infames. Morreu com uma palavra atravessada na garganta.
- Aquele atacante do time tinha o pé tão torto que não acertava nem a linha de fundo.
- Quem chora da testa para cima ri de orelha a orelha?
- Hollywood, antiga usina dos sonhos românticos de todo o mundo, agora só fornece energia aos repetidores de tevê.
- Deus foi sábio e justo em fazer o escritor Carlyle casar com a senhora Carlyle. Assim, em vez de fazer quatro pessoas infelizes, fez apenas duas.
- O Flávio Cavalcanti tinha fama de cabeça de toucinho. Já o Silvio Santos é um osso duro de roer.
- O sádico e o masoquista: enquanto um mata de raiva, o outro enterra de prazer.
- Segundo Ezra Pound quem fez a primeira cadeira é um inventor; quem fez a segunda é um mestre. E quem sentou na terceira é um diluidor.
- No mundo dos espetáculos, sempre que uma estrela cai, um astro cai em cima.
- No Brasil não há outono. Mas as árvores caem.
-Paulatino? É o nosso.
- Beaumarchais, quando disse que o que é muito tolo para ser dito pode ser cantado, estava profetizando o surto interminável dessa barulheira que a juventude eufemística chama de som legal.
- Afinal de contas o celibatário é muito sabido. Não tendo uma, tem todas as mulheres ao seu alcance.
- Distraído o estafeta entregou o destinatário ao remetente.
- Os sonhos da bela adormecida no bosque com o monstro da lagoa negra faziam a branca de neve corar.
- Sentiu a vontade indômita de olhar para trás. Acabava de passar por uma dona de rosto lindo.
- Com a atual amplitude dos horizontes do conhecimento, as pessoas ficaram mais ignorantes? A impressão que se tem é que estão sempre exprimidas entre aspas, parêntesis e paredes.
- André Malraux cunhou uma frase que assenta como um chapéu na cabeça dos políticos e novos ricos brasileiros: “O contrário da humilhação é a dignidade”.

O RISO NÃO PAGA IMPOSTO - Lázaro Barreto.

- Era um cantor que espantava os próprios males, quando cantava.
- Escrevia tanto e tão mal que o digitador, mesmo zangado, bocejava.
- O juiz de futebol morreu esmagado por uma pedra noventa.
- A esperança dos covardes, dos corruptos e dos medíocres é que se dê um fim nos corajosos, nos íntegros e nos inteligentes.
- O silêncio de ouro: esse só os ricos compram.
- O bêbado noturno, deitado na grama da rua, apaga a luz da lua e dorme com os anjos.
- Esse cara é normal, dizem. Mas manca das duas pernas.
- Quando convidou a religiosa para queimar incenso no altar de Eros, levou um bofetão. Ela se chamava Elvira, mas não era Pagã.
- Quando São Pedro arrasta as cadeiras no céu, os desabrigados na terra dançam.
- O slogan de Bakunin “destruição é também criação” foi plagiado do dito de uma criança ao ver destruir uma casa: “Olha, papai, estão construindo um terreno ali”.
- Yeats, poeta inglês, afirmou: “das nossas desavenças com os outros, fazemos retórica; das desavenças que temos conosco, fazemos poesia”.
- A maior diferença entre a tecnologia e a mediocridade é que a última está mais ao alcance de todos.
- Quem é precavido come a lata e joga o conteúdo fora. A lata de sardinha.
- Escrevia à máquina porque não sabia o alfabeto de cor.
- A idade média dos favelados continua sendo a idade das trevas.
- A Disneylândia é uma selva tão civilizadinha que os leões dispõem de manicures, dentistas e barbeiros.
- O professor mulherengo ilustrava as aulas com recortes de revistas femininas.
- Os escritos dos autores modernistas da Semana de 22 não seriam como as balas de calibre 22: inócuas de perto e mortais à distância?
- O uso do cachimbo não faz a boca porca?
- O papel do jornal financiado pelo governo não serve apenas para embrulhar verduras?
- Ela é linda de morrer: é assim que os agonizantes dizem da morte?
- Era dado a trocadilhos infames. Morreu com uma palavra atravessada na garganta.
- Aquele atacante do time tinha o pé tão torto que não acertava nem a linha de fundo.
- Quem chora da testa para cima ri de orelha a orelha?
- Hollywood, antiga usina dos sonhos românticos de todo o mundo, agora só fornece energia aos repetidores de tevê.
- Deus foi sábio e justo em fazer o escritor Carlyle casar com a senhora Carlyle. Assim, em vez de fazer quatro pessoas infelizes, fez apenas duas.
- O Flávio Cavalcanti tinha fama de cabeça de toucinho. Já o Silvio Santos é um osso duro de roer.
- O sádico e o masoquista: enquanto um mata de raiva, o outro enterra de prazer.
- Segundo Ezra Pound quem fez a primeira cadeira é um inventor; quem fez a segunda é um mestre. E quem sentou na terceira é um diluidor.
- No mundo dos espetáculos, sempre que uma estrela cai, um astro cai em cima.
- No Brasil não há outono. Mas as árvores caem.
-Paulatino? É o nosso.
- Beaumarchais, quando disse que o que é muito tolo para ser dito pode ser cantado, estava profetizando o surto interminável dessa barulheira que a juventude eufemística chama de som legal.
- Afinal de contas o celibatário é muito sabido. Não tendo uma, tem todas as mulheres ao seu alcance.
- Distraído o estafeta entregou o destinatário ao remetente.
- Os sonhos da bela adormecida no bosque com o monstro da lagoa negra faziam a branca de neve corar.
- Sentiu a vontade indômita de olhar para trás. Acabava de passar por uma dona de rosto lindo.
- Com a atual amplitude dos horizontes do conhecimento, as pessoas ficaram mais ignorantes? A impressão que se tem é que estão sempre exprimidas entre aspas, parêntesis e paredes.
- André Malraux cunhou uma frase que assenta como um chapéu na cabeça dos políticos e novos ricos brasileiros: “O contrário da humilhação é a dignidade”.

ELE E ELA – A CORDA E A CAÇAMBA (*) – Lázaro Barreto.

“A castidade da mulher é um terçol no olho do Diabo” (Provérbio Árabe).
- As mulheres se admiram como um homem que estaciona o carro em uma vaga apertada, só olhando pelo retrovisor, e não sabe onde fica o ponto G.
-Homens e mulheres não são idênticos biologicamente, mas moralmente têm os mesmos direitos.
-Os homens geralmente mais altos; as mulheres, mais miúdas. Mas a visão periférica da mulher é maior.
- A imagem pornográfica burla a percepção estética e abraça e beija diretamente a percepção libidinal.
- Seios, lábios, vulva, bunda, coxas, mãos, pés, umbigo, axilas, etc., são as representações significativas de palavras como sensualidade, tesão, lascívia, volúpia, erotismo, libido, prazer, sexualidade: e são, por assim dizer, as melhores partes da natureza humana.
- Os homens são responsáveis por 96% dos arrombamentos e 88% dos assassinatos.
- O testosterona, hormônio que o homem tem 10 a 20 vezes mais do que a mulher, é o principal responsável pela configuração do cérebro do feto.
- O padrão básico de formação do corpo e do cérebro do feto da espécie humana é feminino. Os mamilos no homem, sem funções; as glândulas mamárias que não funcionam. Quando há má distribuição de hormônio no feto, a criança pode nascer predisposta às inversões sexuais.
- O homossexualismo é inato – e para cada lésbica existem 8 a 10 homens gays.
- Se o feto é geneticamente feminino (xx), mas o cérebro recebe hormônio masculino, o resultado é um corpo de mulher com estrutura cerebral de homem.
- O hipotálamo é a parte do cérebro que agasalha o centro do sexo e que controla as emoções, as batidas do coração e a pressão sanguínea.
- O impulso sexual da mulher é menor porque tem menos testosterona. Seu intercurso sexual é mais prolongado para criar um filho e outro, enquanto que isso nunca existe para o homem, que pode conceber centenas de filhos no mesmo ano.
- O sexo aumenta o nível de testosterona, fortifica ossos, músculos e produz o colesterol benéfico. Mais sexo é igual a menos estresse e vida mais longa.
- A espécie humana não é monogâmica por natureza. O homem tinha que aumentar a população. A mulher tinha seu período de abstenção. Para ficar com uma só mulher, o homem tem que travar uma batalha constante consigo mesmo.
- A mariposa era atraída pela lua, tudo bem. Veio a lâmpada elétrica para atraí-la – e assim ela morre incinerada.
- O galo pode trepar até 60 vezes por dia. Mas com a mesma galinha, o máximo que consegue é 5 (cinco) vezes. Assim também os touros, os carneiros, os homens.
- A mulher quer o homem parrudo e doce, ou seja, que seja ao mesmo tempo machão e bicha.
- O homem quer primeiro o sexo e depois o sentimento. A mulher quer, primeiro, o sentimento e depois o sexo.

(*) compilação aleatória até a página 187 do livro “Por Que os Homens....”, de Bárbara Pease,

Sexta-feira, Março 02, 2012

VOTO DE ALCEU AMOROSO LIMA (Tristão de Ataíde).

Membro da Comissão Julgadora do Concurso de Contos e Novelas do “Prêmio Afonso Arinos”.

a) “José Afrânio Moreira Duarte é um intimista de cores e alusões sutis, que se revela nestes seus novos contos um mestre na psicologia dos entretons literários”.

b) “Por sua vez, Lázaro Barreto, com “A Cabeça de Ouro do Profeta”, dentro da linha fantástica do realismo mágico que vai de Edgar Poe a Júlio Cortázar e Clarice Lispector, se mostra um contista de grande originalidade, forte e sugestivo, que honra o jovem grupo de Divinópolis, como houve, nas origens do Modernismo, o grupo de Cataguases”

Rio de Janeiro, 1969. O livro foi publicado no ano seguinte, em Belo Horizonte, pela Imprensa Oficial.

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

GOTAS DE ÁGUA NAS FOLHAS DO INHAME - Lázaro Barreto.

1 – Enquanto a maioria da população das grandes cidades brasileiras for constituída de cidadãos (pessoas normais) e não de marginais (pessoas anormais), as vias públicas serão normalmente transitáveis por deus e todo o mundo, como se diz. Quando tal liberdade de ir e vir deixar de existir – o que já acontece em muitas cidades – as pessoas normais ficam impedidas de transitar livremente nas artérias públicas, sob pena de serem atacadas e feridas moral e fisicamente. E assim, paradoxalmente, os inocentes ficam confinados e os pecadores libertados.

2 – Conheço uma casa na cidade, de amplo quintal cultivado de árvores frutíferas, inclusive três enormes pés de mangas chamadas de Coquinha, Espada e Rosa. Outro dia um visitante entusiamado verificava (chupando as frutas) qual delas seria melhor do que as outras. Experimentou a Espada e deu a nota: “é a melhor do mundo, tem gosto de infância na roça”. Depois, debaixo do pé da Coquinhas, ao chupar uma delas, bem madurinha: “esta é ainda melhor, é única no gênero, incomparável na doçura do tecido que fica entre a casca e o caroço”. Depois, sob a sombra da enorme árvore da Manga Rosa, ele complicou ainda mais o sentido de seus julgamentos: “esta, mal-comparando tem o gosto dos beijos de minha primeira namorada que, por coincidência, ostentava o lindo nome de Rosa dos Anjos...: esta é a melhor de todas, pode escrever aí em seu caderno de poesia”.

3 – É inadmissível, segundo Roberto Civita, que um país continental como o Brasil “continue sendo administrado por caciques políticos sem preparo, competência ou conhecimento específico, muito mais empenhados em fortalecer suas máquinas partidárias para a próxima eleição do que preparar o País para a próxima geração”.

4 – “A felicidade humana não faz parte dos planos do Criador” – Freud falou e escreveu.

5 – Numa sociedade historicamente machista como a nossa a emancipação feminina nunca é tacitamente aceita nem será definitivamente resolvida. As mulheres que se acautelem, que façam e aconteçam nas áreas historicamente encampadas pelos homens:
política, justiça, administração, liderança, o trabalho leve e pesado em todas as áreas necessárias ao encaminhamento da paz e da felicidade sociais. A igualdade ainda depende da solução de muitos problemas, excetuando, é claro, os eventuais problemas das desigualdades da natureza humana. Mas, nesse caso, viva a desigualdade!

6 – Ainda há muita divindade em Israel. O fragmento que segue foi possibilitado depois de ver as imagens de um e-mail remetido pela amiga Rita de Cássia Pereira da Silva, a quem muito agradeço. Ainda se vê pelos campos e ruas as figuras emblemáticas de Raquel e Jacob, de Rute e Débora, de David e Betzabá, de Jesus e Maria Madalena, de Maria e José! Os muros, alicerces e oásis ainda estão intactos? O Jardim das Oliveiras ainda florido? O Calvário de Gólgota ainda na encruzilhada dos caminhos? E o Sinédrio das agruras e da paixão? E os indícios da ressurreição? E a prevalência do amor ao próximo, nos semblantes dos seres vivos? Ainda se vê o sinal da mão divina ao longo do que se vê: a velha terra arenosa prenhe de vigorosas raízes, o sol e a neve temperando as aclimatações, os templos e o Templo de Jerusalém! Ainda se ouve a súplica das pessoas de bem: que o Senhor aplaque a ira de Caim e Abel; que amenize as refregas e suprima os holocaustos; que a menção profética dos patriarcas e das matriarcas transpareçam nas ações das Doze Tribos abençoadas e também nas profecias e pregações de João Batista e dos Apóstolos, perpetuando os sentimentos e as mentalizações das pessoas; que a coligação dos Testamentos inspire e acione as súplicas pelas boas graças caindo em solo fértil no esforço universal da bela e veraz comunhão dos bens celestiais, ainda agora e sempre tornados terrenos e cotidianos.

7 – Aos prezados leitores que solicitam sugestões para o bom exercício das artes poéticas, só tenho a dizer o que sempre digo a mim mesmo: evite poemas de circunstância e de encomenda. Escreva apenas o que acredita que ainda não foi escrito. A vida é um problema, sem o poema inédito. A sombra esconde a luz no emaranhado das palavras, suscita mais atenção do poeta para o que está interdito e inédito. Os dias e os lugares são as páginas em branco, onde os seres e as coisas desaparecidas anseiam reaparecer.

Quinta-feira, Fevereiro 23, 2012

FREUD, AINDA E SEMPRE - Compilação de Lázaro Barreto do livro “FREUD – Uma Vida Para o Nosso Tempo” - Edit. Cia das Letras, SP, 1989).

Página 53: “Preocupava-se com todos os beijos que não podia lhe dar, por estar tão distante. Numa carta, justificou seu vício pelos charutos, atribuindo-o à ausência da noiva: fumar é indispensável se não se tem nada para beijar”.
Páginas 68: “uma ponta de verdade se esconde por trás de toda sandice popular”.
Páginas 73 e 74: “pode-se assumir como sabido que a neurastemia é uma conseqüência freqüente de uma vida sexual anormal”. Ele sabia da existência de uma tendência hereditária, mas a neurastemia adquirida tem motivações sexuais.
Página 113: “Os sonhos traumáticos, que evocam acidentes recentes ou traumas infantis...: eles também cabem na teoria do sonho como realização de desejos, na medida em que encarnam o desejo de dominar o trauma, elaborando-o”. Na página 133, a citação de uma quadra do poeta Arthur Schuitzebr: “Sonhos são anseios desprovidos de coragem\ Desejos insolentes que a luz do dia\ Encurrala no canto de nossa alma\ E dali, apenas à noite ousam rastejar”.

Na página 131 consta: “Temeroso de paixões desenfreadas, o mundo considerou necessário, durante toda a história de que se tem registro, rotular os mais insistentes impulsos humanos de mal -educados, imorais, ímpios”. Na página 146 consta: “todos os seres humanos são inatamente perversos; os neuróticos, cujos sintomas constituem uma espécie de contraparte negativa das perversões, apenas expõem essa disposição primitiva universal de modo mais enfático do que as pessoas “normais”.... “A aptidão para tal perversidade é inata”, ele acrescenta na pág. 148. Para amenizar a opinião freudiana, Peter Gay acrescenta: “a generosa concepção da libido, sustentada por Freud, converteu-o num democrata psicológico: como todos os seres humanos participam da vida erótica, todos os homens e mulheres são irmãos e irmãs por baixo de seus uniformes culturais”. Na pág. 162: “Em seu artigo sobre a moral sexual civilizada, ele observou que a civilização moderna faz exigências extraordinárias à capacidade de contenção sexual; requer que a pessoa abstenha de relações até o casamento e,a seguir, restrinja sua atividade sexual a uma única parceira. A maioria dos seres humanos, pensava Freud, acha impossível obedecer a tais exigências, ou obedecem-nas a um custo emocional exorbitante.

Pagina 193: “Jung contestava Freud? Não. A única maneira legítima de contestar Freud é reproduzir seu trabalho. Caso contrário “não se deveria julgar Freud, pois não está-se agindo como aqueles famosos cientistas que se recusavam a olhar pelo telescópio de Galileu.... Para ele a religião era uma necessidade psicológica projetada na cultura: o sentimento de desamparo infantil remanescente no adulto, deveria ser antes analisado do que admirado”. Pág.243: “uma neurose nunca diz nada de tolo, como tampouco um sonho. Sempre repreendemos, quando não entendemos. A psicanálise é a arte e a ciência de escutar pacientemente”. Pag.272: “Durante a fase edipiana surge a experimentação e a instrução no domínio do amor, quando a ternura sem paixão é amizade e a paixão sem ternura é luxúria. É preciso harmonizar essas duas correntes”.

Pág. 275: “A vida sexual não se resume no coito, mas estende-se a domínio muito mais amplo e diferenciado de sentimentos conscientes e impulsos inconscientes”. Página 282: “O tratamento psicanalítico está fundado na honestidade”. Pg. 287: “Ao brincar, a criança leva as coisas muito a sério, mas sabe que o que está fazendo é uma invenção. O oposto da brincadeira não é a seriedade, mas a realidade”. Pág. 288: “de muito tempo para cá, o que tem sido decisivo não é a beleza física de uma moça, mas antes a impressão de sua personalidade.... O que os rapazes razoáveis procuram numa mulher: temperamento meigo, jovialidade e a capacidade de tornar a vida mais agradável e fácil para eles”. Pag.307: “A morte do pai e a conquista da mãe: assim, oprimidos pela culpa, os filhos instauraram os “tabus fundamentais do totemismo, que deviam corresponder exatamente aos dois desejos reprimidos do Complexo de Édipo. Ao se tornarem culpados e reconhecerem sua culpa, eles criaram a civilização. Toda sociedade humana está construída sobre a cumplicidade num grande crime”.

Recomendo a leitura de ”ÉDIPO REI”, a imortal tragédia de Sófocles.

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012


O CASARÃO QUE MUDOU DE LUGAR - Lázaro Barreto.

O casarão do meu bisavô paterno, imponente e faustoso, era, na minha infância do Desterro, uma das edificações remanescentes da época áurea do colonialismo brasileiro. Construído sobre um alicerce de três metros de altura, exibindo na frente e nos fundos uma escadaria cimentada de muitos lances, de tal maneira que propiciava um espaçoso porão que servia de senzala para abrigar dezenas de escravos de ambos os sexos. A escravidão, na época, era o braço movido pela vontade dos proprietários. Os escravos cuidavam do curral, do chiqueiro e da manga dos porcos, dos pastos e roças e da provisão de mantimentos e madeiras e lenhas de serventia de tapumes e fogões de cozinha. Sabe-se hoje, em estudos de pesquisa científica, que naquela época os escravos não eram tratados humanamente, mas como reles autores de mão de obra a serviço da classe dos proprietários rurais e dos grandes e pequenos comerciantes das vilas e arraiais. Eram vendidos e comprados em todas as oportunidades e necessidades a preço
muito alto. Mesmo assim a classe pobre dos brancos não renunciava ao direito de possuir um serviçal para toda obra, em qualquer circunstância, com as a obrigações, inclusive, de carregar, descarregar e lavar os urinóis dos familiares da casa e higienizar as latrinas e banheiros nas residências dos mais abastados. Assim sendo o escravo de um pessoa rica sofria menos do que o das pessoas pobres. Essas quotizavam-se para comprar um escravo, o qual passava a servir a dois, três, quatro proprietários na proporção de tantas horas por dia para cada um. Assim o pobre coitado trabalhava dia e noite em três, quatro, cinco casas, carregando lenha e água, lavando roupa, limpando tudo e fazendo tudo que cada um de seus donos mandasse.

O casarão e seus pavimentos e seus adereços: mobiliário importado, juntamente com os relógios de paredes, as imagens sacras, os castiçais, lampiões e lamparinas, as camas de dosséis, cadeiras de palhinhas, prataria e talheres de porcelana e cobre, os pisos em mosaicos nas paredes e alpendres, os fogões de ferro fundido, alimentados de lenha e carvão, com as chaminés enfumaçadas, e outros requintes da residência aristocrática. As mulheres em suas sedas, linhos e cetins, colares e anéis e sandálias de luxo; os homens com suas botinas, brins e casimiras, chapéus e relógios de algibeiras.

O terreno conexo ao casarão começava depois da escada que chegava ao terreiro e às áreas de secar café, feijão e arroz , ladeadas por bicas de água potável – e à certa distância os paióis, o galinheiro, o curral, o chiqueiro e a manga dos porcos. Tudo isso num dos lados do quintal; no outro lado frutificavam as árvores de mangas, laranjas, goiabas, bananas, ameixas, uvas, abacates, cajus, jabuticabas e outras espécies. Depois dessa demarcação começavam os terrenos das capoeiras (nascentes das águas) e das pastagens, a sumir de vista. O dono era, então, poderoso e rico.

Passou o tempo, levando a vida das pessoas, modificando os usos e costumes, trazendo as novidades e o aumento da população mais pobre. Lembro-me, ainda em criança, da época do casarão em processo de decadência, alugado a um casal sem filhos, egresso da civilização: ele um perito em vários ofícios: relojoeiro, sapateiro, ferreiro, barbeiro; e ela, fogosa e bonita, apenas cuidava da casa, com uma particularidade: não usava roupa de baixo – e assim fazia a festa sexual da meninada masculina que, com a desculpa de caçar biloscas e frutas no quintal, adentrava a área do porão e de lá, cada um mais embevecido que o outro, ficava debaixo das gretas do soalho, namorando as “partes” da mulher, andando no meio das inumeráveis frinchas da parte de cima do tabuado.

Assim passava o tempo, até que um dia, chegou um bitelo de um caminhão procedente da cidade de ITU, estado de São Paulo, com um senhor identificado como o novo dono do casarão (isso muito depois do falecimento de meu bisavô). Ele e seus ajudantes tiraram fotografias de toda a casa, parte exterior e interior e telhado, nos mínimos detalhes, incluindo toda a parafernália de quadros, esculturas e objetos de serventia. Fotografaram toda a edificação e logo começaram, jeitosamente, a retirar todo o material (pedras, tijolos, madeiras, telhas e tudo que ainda restava no prédio) e acomodá-lo na enorme carroceria do caminhão. Concluído o enorme trabalho o caminhão partiu na direção da cidade paulista , onde, o comprador (segundo as palavras dele) ia remontar o casarão, tal como era na origem. Estive outro dia lá na grande e bela cidade paulista, para ver se encontrava a casa transplantada, mas não consegui. A cidade é enorme, some de vista. Mas conserva elegantemente muitas edificações em estilo colonial. Voltei encantado com a cidade, mas sem encontrar o que procurava com tanta saudade.

A VIDA HUMANA - Lázaro Barreto.

Se estou vivo,
Das duas alternativas, uma:
Saudável ou doentio.
Se estou saudável, tudo bem.
A rotina vital transcorre pelas vias previstas
(Os eventuais embaraços são logo ultrapassados).
Se estou perrengue, tudo mal
(a vida hesita quanto aos rumos a tomar,
Fica dependendo de meus órgãos físicos e mentais,
Repletos de pontos de interrogação).

Assim é,
Sem tirar uma vírgula.
Estarei sempre na mão e na contramão
Das vicissitudes.
Haja perspicácia e paciência.
Pois é assim mesmo.

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

UMA FAMÍLIA, COMO EXPLICAR? - Lázaro Barreto (*).

“Onde quer que a gente vá”, como diz o Millôr Fernandes (quê falta ele faz no jornalismo brasileiro atual!), “há sempre um passado pela frente”. A Genealogia – viagem da família no tempo através do sangue – desenha uma árvore que cresce e multiplica, apesar das folhas e galhos que secam e caem, cortadas pelo destino, violento ou não. É uma atividade lúdica que vai formando a chamada árvore genealógica da família, com suas imagens: as raízes, o tronco, os galhos, os ramos, as folhas, as flores, as frutas, em suas formações verticais e horizontais, através da proliferação de um pequeno núcleo (uma casa que logo se transforma em rua, bairro, cidade) do casal com os filhos, do qual brotam e encompridam-se os galhos paralelos (tios, sobrinhos, primos) e verticais (avós, bisavós, trisavós; netos, bisnetos, trinetos). Uma árvore frondosa ou esquálida que cresce ou estaciona ou míngua conforme as qualidades e condições das sementes, do terreno e do trabalho cultural.

A contemplação da imagem é sempre agradável à vista e ao coração: os elementos consangüíneos acasalados aos de afinidades resultam numa espécie de homogeneidade na heterogeneidade, na fusão por assim dizer multiplicadora, da qual os sinais gráficos se dispersam na mistura mas não se perdem. É assim que depois de cem, duzentos anos, um pentaneto pós-moderno pode ter os mesmos traços físicos e o mesmo nome do pentavô setecentista, apesar das sucessivas bipartições cromossônicas. O quadro, mesmo visto à distância, é aprazível e pertinente, indutor de variadas e contraditórias interpretações: pode dar a impressão de uma aquarela verde-rosa de rebentos bem formados na estruturação psicofísica ou suscitar dúvidas quanto à perícia do desenhista de revelar a verdade que transcende às aparências. Uma família é um barco nas águas marítimas, que balança ou plaina de acordo com o tempo. A família é a família e sua circunstância, como diria Santayana. Só é inteira se estiver contextualizada em si mesma, na afinidade de seus membros, e no meio social em que vive.

A contigüidade territorial une as pessoas num sentido semelhante ao do parentesco, sem as peias e a hierarquização, numa dimensão de maior independência e familiaridade, apesar de menos sólida. É o produto da chamada horda não-diferenciada da morfologia social de Jay Rumney, uma tendência demográfica dos novos tempos. Carlos Drummond de Andrade exprime em versos o condicionamento paisagem\família:
“Alguns anos vivi em Itabira,
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso ou triste, orgulhoso, de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas,
Noventa por cento de ferro nas almas.
E esse alheiamento do que na vida é porosidade e comunicação”.

Por outro lado, a herança genética é como um fio condutor, tênue, flexível e resistente, que transmite, no percurso da vida familiar, os sinais de identificação e através deles as características de propensão comportamental. Vale a pena citar Drummond novamente:
“Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
Objetos, modos de dobrar o linho, gosto
De usar este raio de sol e não aquele,
Certo copo e não outro,
A coleção de retratos, também alguns livros,
Cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
Antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
Bem sei, mas e esse piano?”

É isto mesmo. Entre a família e o meio social há sempre um piano ou uma orquídea no valo do quintal. O risco da disfunção é sempre iminente. Cada ser humano herda o somatório genético que vem de tempo imemorial, através das gerações, num processo de reciclagem em termos de acumulação e dispersão dos elementos essenciais na formação das novas personalidades. De forma que onde quer que a gente vá há sempre um ascendente na descendência e vice-versa.

(*) Texto extraído das páginas 205 e 206 do livro “Família Oliveira Barreto”, Edit. Express, Divinópolis, MG, 2005 (esgotado) de autoria deste colunista.

Domingo, Fevereiro 12, 2012

DOIS LIVROS PRECIOSOS.

1 – 60 Anos de Festival de Cannes (1946-2006)

Este livro de luxo, que me foi presenteado pelo filho Paulo e a nora Layla, é uma festa para os olhos e o coração de um inveterado cinéfilo. Legítima expressão documental da
fase áurea do cinema internacional, caprichoso repertório das obras primas do Cinema, fartamente e lindamente ilustrado com as fotos coloridas de cenas dos filmes e dos festivais, exibindo a galeria dos melhores astros e estrelas das seis décadas mencionadas. Senti-me em casa, como se diz, muito à vontade, folheando, lendo e vendo as magníficas e saudosas imagens de tantos filmes vistos ao longo do tempo.

2 – CÕTE D´AZUR.

Outro livro de luxo, para guardar carinhosamente ao longo do tempo (presente também do casal referido, na volta deles de uma segunda lua de mel, agora na faixa belamente turística da Europa). A maravilha da paisagem natural, deliberadamente preservada ao longo do tempo. Dir-se-ia que estamos folheando as páginas do paraíso mais realista deste mundo. Mesmo na área habitada transparece uma espécie de eterna juventude, sem o menor sinal de poluição. A lua parece um sol e vice-versa na Baie de Saint-Tropez, sem falar nas fachadas do casario. O festival das cores mais puras das buganvilhas em Port-Grimaud. A suntuosidades das imensidões, as pedras dormindo ao sol, os campos elísios em toda parte, o panorama suntuoso da baia de Cannes... E as praias de Cannes? E os jardins? Depois vem os cenários de Antibe, Biot, Grasse, Vence, Nice,a Baia dos Anjos.... A naturalidade da fantasia, a realidade dos sonhos. E assim prossegue o passeio pelas 160 páginas em papel e dimensões especiais. Um colírio para os olhos, uma inspiração para o casal Paulo e Layla, moradores na aprazível Vila Verde do Estado de São Paulo. Um presente de ouro e diamante para esse inveterado leitor e cinéfilo.


A RECONHECIDA GENIALIDADE DE GTO. – Lázaro Barreto.

GTO (Geraldo Teles de Oliveira), nascido em Itapecerica, criado e falecido em Divinópolis, é um escultor, na abalizada opinião da artista e escritora portuguesa Ana Hatherly, mais importante do que o Aleijadinho, uma vez que o mestre da arte barroca seguia uma noção estilística de antepassados, enquanto que GTO iniciava um novo estilo, que o crítico Roberto Pontual chamava de “primitivo e criador’.

O grande artista, que honra o renome de celeiro de talentos criativos de Divinópolis, mereceu agora uma homenagem digna de um verdadeiro detentor de indiscutível imortalidade. Refiro-me à Exposição (bela, grandiosa) que o SESC Minas Gerais, realizou em Belo Horizonte com a justa ênfase de um reconhecimento inquestionável.
Tenho o prazer de citar os mentores e realizadores do magnífico evento: Jorge Cabrera Gómez (Diretor de Cultura SESC Minas), Faber Clayton Barbosa (da Secretaria de Cultura de Divinópolis), Rodrigo Viva, Lázaro Luiz Gonzaga, Marcela Yoko, Luciana Félix, Lidia Mendes, os fotógrafos e cinegrafistas Erwin Oliveira, Déa Tomichi, Fábio Belotte e Outros abnegados e competentes produtores de arte legítima. O título da Exposição “Um Dia a Árvore dos Sonhos Inopinados” foi inspirado num poema de minha autoria, notavelmente reproduzido através de declamação, imagens e reprodução (originalíssima) no corredor de uma das paredes brancas. O poema é o que se lê abaixo.

A ÁRVORE DOS SONHOS.

Um dia a árvore dos sonhos inopinados
Desabou na cabeça do escultor GTO,
Que logo começou a vazar
O ouro das dívidas e das imaginações:

A dança dos ícones nas gravuras parietais
A agoniada prateleira dos ex-votos
O balaio das miniaturas e das ampliações
A escalação dos totens, manipansos e penitentes
A montanha devocional das tribos indígenas
As efígies serôdias de Assubarnipal e de Araribóia
Os perfis enfiados dos heróis da história- pátria
Os ritos de passagem dos velhos arraiais
A acrobática peleja grupal dos roceiros.

As entidades espirituais escorregam de suas mãos
Em sombria, quase opaca luz dos transes
Que anima os traços e relevos da matéria-prima.
Assim
Da fratura dos troncos avermelhados saltam
Os guerreiros corporais nas rodas e labirintos
As etnias as classes as mandalas e oroboros
Os símbolos imemoriais de nossa caminhada
É assim que ele tenta regressar à pureza
Que o quer, lá na frente.

E lá um dia os galhos e ramos da árvore
Atávica
Brotam em suas mãos primitivas e criadoras
Assim ele pode sacudir a sina (e para não endoidecer
Nas horas traumáticas do dia-a-dia), e assim ele
Expulsa os demônios do corpo!
Assim ele mergulha na pureza para saber
Que não existe erro na face da terra.


NOVOS POEMAS - Lázaro Barreto.


1 – As Palavras.

Preciso devolver ao jargão corriqueiro
As palavras obsoletas?
Transferi-las da inocuidade do monólogo
Para a loquacidade do diálogo?
Preciso surrupiá-las do dicionário
(limbo imobilizado ao alcance dos apressadinhos),
Escondê-las nos bolsos do corpo e do espírito?
Preciso reconduzi-las aos ermos temerários:
Pinçar um barbarismo aqui,
Um arcaísmo ali,
Acordá-las da sonolência embaraçosa,
Reavivá-las no fogo de meus diuturnos
Serões?

2 – Claridade Difusa.

Alguém me disse
(não me lembro quem nem quando nem onde):
Evite os poemas de circunstâncias
E de encomendas.
A vida é um poema, um problema.
A sombra esconde a luz no emaranhado
Das chamadas palavras difíceis
As páginas em branco são os dias e os lugares
Nos quais tantas coisas e seres
Aparecem e desaparecem.
Os apelos da morte definitiva nos dias transitórios
Chamam, reclamam, enganam.

3 – Sorrisos Femininos.

As axilas são as extremidades
Do sorriso horizontal
Nas mulheres que amamos.

As virilhas são as extremidades
Do sorriso vertical
Nas mulheres que amamos.



4 – Hermetismo.

A orquídea é andrógina, apesar de feminina.
A promessa do amor impossível é uma sombra na parede?
Você pode abraçar o luar, mas não a felicidade:
Assim Sansão, enganado, diz à Dalila, enganadora.

É preciso ter chaves especiais para abrir
As portas do céu que certa moça tem...
Quem teve a bondade de dizer-me assim,
Numa agora esquecida leitura?

O orgasmo é melhor quando as centelhas
Do fervor regressam à alma apaixonada
E brilham,
Brilham sem parar.

O sabiá canta na moita de araçás,
Subitamente eriçada,
No doce sitio do amor acordado
Nas derrapagens do sigilo atordoado.

E agora
Como processar as idéias embutidas nos neologismos
Do hermetismo,
Com tantos silogismos dispersos no ar da tarde
De minha tórrida divagação?

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

ASCENDÊNCIA GENEALÓGICA (*).

1 – De Paulo Barreto Lopasso:

Filho de Ana Paula Barreto Lopasso e Guilherme Barreto Lopasso, neto de Lázaro Valentin dos Reis Barreto e Inês Belém Barreto, bisneto de José Valentim Barreto e Isolina Gonçalves Guimarães, trineto de José de Oliveira Barreto e Maria Tereza de Jesus, tetraneto de Antônio José de Oliveira Barreto e Maria Archangela Tavares, pentaneto de Bernardo José de Oliveira Barreto e Josepha Maria de Jesus, sexta-geração de Antônio José de Oliveira Barreto (natural do Arcebispado de Braga, Portugal) e Anna Joaquina Cândida de Castro (natural de São Paulo).

2 – De Paulo Henrique Belém Barreto, casado com Layla Suchodko de Lima, filho de Lázaro Valentim dos Reis Barreto e Inês Belém Barreto, neto de José Valentim Barreto e Isolina Gonçalves Guimarães, bisneto de José de Oliveira Barreto e Maria Tereza de Jesus, trineto de Antônio José de Oliveira Barreto e Maria Archangela Tavares, tetraneto de Bernardo José de Oliveira Barreto e de Josepha Maria de Jesus, pentaneto de Antônio José de Oliveira Barreto e de Anna Joaquina Cândida de Castro (ele nascido no Arcebispado de Braga, Portugal, e ela em São Paulo).

(*) – dados colhidos no livro de genealogia “Família Oliveira Barreto”, editora Expresss, Divinópolis, MG., esgotado.

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

O ÂNGULO AUSPICIOSO - Lázaro Barreto.


“Arranjos de Pássaros e de Flores”, Poemas de Wilmar Silva, Editora Robertha Blasco, BH\MG, 2011.
Numa primeira leitura presumo que o título e todo o livro referem-se ao corpo da mulher amada com todas suas proximidades e confins, perfumes e cantorias, arranjos de pássaros e de flores. Na leitura momentânea, sem o crivo crítico, chego a ouvir os sons e aspirar as essências mais vivas da natureza ao mesmo tempo vegetal e mineral, sobremodo humana, quase sobre-humana. “Escorregadio vale em forma de trevo” leva-me “ao arranjo de veludinho e papoula”, dialoga “com a conterrânea matriz roseana”, como afirma Fabrício Carpinejar no prefácio “Delícias do Campo”. Esmiuçando a linguagem, lendo e relendo atenciosamente, não encontro outra alusão a não ser a encantação da sensualidade afetiva (a afeição sem problemas mentais, imbuída de incontáveis soluções físicas). Onde “apenas eu” (o autor diz na página 31) “enxergo o suor de virilha à língua” na “foz de orgasmo no festim floral” das dálias e dos melros. São 31 páginas de dez versos que evocam, sugerem centenas de páginas, milhares de leituras. Um livro, pois, muito importante.

Utilizando um vocabulário ao mesmo tempo sucinto e abrangente, suscita expectativas e derrama prerrogativas, insinuando, esclarecendo desejos e satisfações que rodeiam e enfeitam os espasmos da sexualidade. Inevitável, pois, a compilação de alguns versos a respeito do acasalamento dos pássaros com as flores, ou seja, do sequioso amante com a deliciosa amada: “vermelhos ramos, jasmim-dos-poetas\ quadratura de estacas, flora perfume” (página 43). “Invólucro de plêiades, do ventre estelar”\ “: constelação óptica de lóbulos e folíolos” (pág. 45). “É meu gosto em meu hálito de canário\ lasso eu crivo, cântaro de água e poço\ guardo no âmago cadente da memória\ teu sono de pássaro, errante-t miro-eu” (pág. 49). E assim por diante a sucessão de monólogos-diálogos, o encontro da fome com o que há de comer, a luz do desejo encontrando o prazer, o abraço cordial da flora com a fauna, o beijo crepitoso entre os amantes na solidão mais povoada deste mundo, apesar dos muitos percursos intransitáveis. O outro poeta, Alécio Cunha, afirma no prefácio: “É a agrolírica de Wilmar Silva, após suas intensas reflexões sobre o desordenamento da linguagem, lugar por excelência de embate, luta corporal entre forças centrífugas e centrípetas que ecoavam na própria estrutura, nada linear, dos poemas”.

O autor nasceu na cidade de Rio Piracicaba, Minas Gerais. Vivi algum tempo de minha juventude nas margens desse fabuloso Rio, trabalhando nas obras de construção da barragem e da usina hidrelétrica. O rio piscoso-volumoso-sinuoso inspirou-me um poema, na época, inédito até hoje, que agora publico aqui em homenagem ao autor de “Arranjos de Pássaros e Flores”:

RIO PARANAIBA (dedicado à Lacyr Schetino)

Uma noite (ou um estranho dia)
Cobria de ervas e detritos
As betoneiras e os guindastes
Que ameaçavam cobras e lagartos.

Seria maio? Agosto?
Trinta mil olhos de formigas testemunhavam meu pavor
Ao ver o rio levar a lua,
Que se agitava, que gritava, que chamava minha atenção
Atônita, ineficaz.

Entrementes
Ouço dizer que há répteis úteis e nocivos,
Que o diabo fez a ponte pênsil,
Que os cães não atacam pessoas nuas,
Que todos os brasileiros tem o olhos os olhos castanhos
E que a solidão....

Quinta-feira, Dezembro 01, 2011

GOTAS DE CHUVA E DE SOL - Lázaro Barreto.


1 – Do livro “Senhor PROUST”, de Celeste Albaret (enfermeira e amiga de Marcel Proust), trad. de Cordélia Magalhães, Edit. Novo Século, SP, 2008: “A doença não lhe causava medo. A única queixa que ele tinha era a de morrer sem terminar sua obra”, pag. 93. (...) “Acreditar que seus livros são a narrativa real de sua vida é fazer pouco caso de sua imaginação”, pag. 114.” Ele sempre foi a abelha que pousa, sem se enganar, sobre as flores boas”, pag. 179. “Quanto aos paraísos perdidos, Céleste, não existe quem os reencontre”, pag. 181. “Quando revejo todo o deserto em torno dele, penso: quê solidão! E que força de alma para tê-la desejado, e tendo desejado, para tê-la suportado!”,pág. 207. “A inteligência nela” (ele dizia da Princesa Bibesco) “é outra faceirice... Ela tem a poesia dos gestos e das palavras”,, pag. 268. “Eu” (a autora diz) “não tinha nenhum problema para sorrir, como a Gioconda: mas era feliz como uma flor azul dos prados”, pág. 321. Uma das cláusulas do Prêmio Goncourt, que ele recebeu, consta: “Ele é um escritor adiante de sua época, em mais de cem anos”, pag. 355. “Quando sabemos dizer, podemos dizer tudo” – ele diz na pag.367. “As lembranças jamais foram coisas mortas para ele. Ao contrário, elas sempre foram sua exaltação, para não dizer sua alegria”, pag. 377. “Senhor, muitas vezes minha mãe dizia, sobre o tempo: “quem o fez não o vendeu”. Ele me fez repetir. E disse: “Como é bonito, Céleste! Eu colocarei no meu livro”, E, com efeito, a frase está lá”, pag. 390. “Odilon” (marido de Céleste) e eu tivemos uma filha, Odile, que é o único ser do mundo por quem eu iria buscar a lua, como teria feito para o Sr. Proust, se ele tivesse me pedido”, pag. 424.

2 – Do livro “Como deixei de ser DEUS”,de Pedro Maciel, Edit. Topbooks, RJ, 2009: “Loucos nunca puderam circular livremente pelo centro ou arredores da minha cidade. Muitos morreram fingindo lucidez”, pag. 75. “O sol tem uma sombra tão iluminada que se vê à luz da noite”, pag. 135. “Há escritos tão sonoros que podem ser lidos de olhos fechados. O verdadeiro leitor tem de ser o autor amplificado”, pag. 117. “Quem colhe uma flor perturba uma estrela (...); a delicadeza do espírito de porco”, pag. 95. “Deus, para reinar não precisa existir”, página 23.

3 – De minha livre insinuação: se procuro ver e sentir materialmente a poesia como pensamento e sentimento da realidade, o que encontro é a ocorrência dela na vida e no mundo representando a Piedade e não a Violência nas ações humanas no tempo e no espaço.

4 – “Adoro carros, mas o carro é anti-urbano. Niemeiyer, discípulo de Le Corbusier, percebeu que o melhor a fazer era destruir a cidade tradicional e construir uma cidade inteiramente a serviço do automóvel. Isso não funciona”. São palavras de Paul Goldberg, professor crítico de arquitetura, em entrevista na VEJA de 23\11\2011.

5 – Contra o surrealismo do trânsito nas grandes cidades (e Divinópolis é uma delas), causando a violenta balbúrdia e a desastrada violência com milhares de mortos e feridos, acertada seria a contrapartida, ou seja, a adoção de outro tipo de surrealismo: a proibição da fabricação dos chamados carros-de-passeio em todo o mundo a partir de qualquer dia da próxima semana, do próximo mês ou do próximo ano, facultando apenas a fabricação de táxis específicos (automóveis de estrutura visual identificável, inconfundível). Assim, em vez de gastar dinheiro com o engarrafamento das artérias as gastariam menos com o aluguel do taxi para tempo e percurso determinados. Aí sim, a vida real seria possível – e o surrealismo ficaria apenas na estrutura visual dos carros de aluguel – e não no esbanjamento monetário dos ricaços e seus pobre êmulos.

6 – As Palavras Cruciais.
É preciso devolver ao jargão corriqueiro as palavras obsoletas,
Descolá-las do holocausto ou do sepulcro,
Transferi-las da inocuidade do monólogo para a loquacidade do diálogo.
É preciso surrupiá-las do dicionário
(um limbo imobilizado - só ao alcance dos apressadinhos),
Conduzi-las nos bolsos do corpo e do espírito:
Pinçar um barbarismo aqui, um arcaismo ali e depois
Escrevê-las nos troncos das magnólias e dos esporões,
Nas areias dos caminhos e nos pórticos das instituições:
Tudo isso (quem sabe?) para despertá-las, avivá-las,
Necessariamente.

Sexta-feira, Novembro 25, 2011

GRATIFICAÇÕES - Lázaro Barreto.


SESC PALLADIUM BH.
A luta pela vida saudável (individual e social) é bem penosa no ininterrupto tempo brasileiro. As perguntas dolorosas pululam, sem respostas. Mas de vez em quando vem uma pausa no azáfama – e assim nos reconciliamos com o otimismo da sonhada e real beatitude. Um período excepcional de gratificações deve ser, pois, mencionado. É o que faço citando a homenagem que o SESC PALLADIUM, de Belo Horizonte, prestou à memória de nosso saudoso e criativo GTO – um escultor que a poeta e artista plástica portuguesa, Anna Hatherly, julga ser mais importante do que Aleijadinho, herdeiro de uma tradição estilística, enquanto que GTO era sim o original criador de uma característica formal na melhor expressão de seu pertinente conteúdo. O evento festejou duas noites de sublime evocação num local maravilhoso dos belos jogos visuais das belas artes eternas e universais. Fiquei muito emocionado diante da projeção que deram à minha participação. Meus sinceros agradecimentos à toda equipe do SESC\ BH, coordenada por Luciana Felix.

OSVALDO ANDRÉ DE MELLO.
Minha atividade literária começada na juventude, nunca sofreu quedas de continuidade. Comecei escrevendo através de lápis, caneta, passei para a datilografia e ultimamente luto com as facilidades e dificuldades do computador. Recebi outro dia, em meu blog (http://lazarobarreto.blogspot.com), que já contém mais de oitocentas inserções de texto em prosa e verso, o comentário: “Publicação legal – este é realmente um blog bacana que você faz. Continue com este bom trabalho, eu voltarei. Saudações, assinado Bily Cletus”. Sirvo-me dele e da coluna semanal do diário de nossa cidade, “Gazeta do Oeste” ,para externar o que me ocorre e assedia. Tempos atrás havia mais receptividade na imprensa das grandes cidades aos autores do interior. Publicava textos em quase todos os veículos especializados do Brasil e em alguns do estrangeiro. Publiquei livro nas editoras VOZES DE PETROPOLIS e GUANABARA, do Rio de Janeiro. O Suplemento Literário do Minas, no tempo do Murilo Rubião, nunca recusou um trabalho que eu mandasse. Hoje a história é outra: as editoras preferem os autores bafejados pela mídia, mais vendáveis. Nesse longo período venho acumulando os originais de contos, poemas ensaios e romances – mais de dez volumes já digitados, robustos e inéditos. Cito estes fatos para ressaltar o belo gesto do poeta e amigo Osvaldo André de Mello, que se dispôs a publicar meu romance CANTAGALO – a Bacia das Almas, com prefácio de Irene Amaral, uma intelectual que entende de tudo e um tanto mais. Muita generosidade de ambos (Osvaldo e Irene).

OUTROS PRESENTES.
Voltei do SESC PALLADIUM com os belos e expressivos presentes: além dos belíssimos impressos de textos e informações sobre a obra de GTO: o “Um Dia a Árvore dos Sonhos Inopinados” , outro intitulado “Projeto DIGAS! Especial GTO” e o livro “GTO”, belíssimo na encadernação, na ilustração e na inserção de textos sobre a obra e a vida do escultor. Além de todas essas preciosidades, fui presenteado pelo poeta Wilmar Silva, com o livro lúdico, lírico, lindo “Arranjos de Pássaros e Flores” – e o romance de Pedro Maciel “como deixei de ser DEUS”, com ótimas referências críticas de Luiz Fernando Veríssimo, Antônio Cícero e Moacyr Scliar. Chegando em casa deparei com outros presentes em forma de livros: de Luiz Augusto Cassas: “A Mulher Que Matou” (poema-romance) e “A Ceia Sagrada de Míriam” (oferenda lírica) – e recebi, também, a agradável visita de Dieter Dross, escritor alemão, com a esposa e o filho de 2 anos, que vivem na Alemanha, com os livros: “A Pequena Cidade”, de Heinrich Mann, e “Herr Und Hund”, de Thomas Mann, ambos filhos de uma brasileira casada com um embaixador alemão, ainda no tempo do império.. O Dieter ainda teve a bondade de acrescentar o último livro de poemas-imagens dele: “Sugestões Para Pintar Sobre Paredes de Cavernas”. Belos e extensos momentos boa leitura me aguardam, pois.

PAULO BARRETO LOPASSO.
Na Festa do primeiro aniversario do primeiro netinho, ocorrida no mês passado na capital de São Paulo, quem ganhou o melhor presente foi o avô, eu: uma lembrança que jamais esquecerei. Indo daqui, com a família, ao chegar ao salão da festa, ele ao me ver, abriu os bracinhos, rindo, todo feliz. E recusou todas as outras ofertas de abraços e colos.... Ficou comigo a maior parte do tempo. Jamais vou esquecer a expressão de felicidade (que é uma constante em todo seu primeiro ano de vida, cercado que é de tantos carinhos) e otimismo. O leitor que me perdoe – não sei nem posso camuflar a felicidade.

Terça-feira, Novembro 22, 2011

Projeto Digas - especial GTO no SESC Palladium - BH

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

SUSSURROS DO INCONSCIENTE - Lázaro Barreto.


Os paraísos perdidos: consegui deter ao menos um deles algum dia?
Penso que sim:
- no quintal de Marilândia, durante muito tempo...
- nas terras da Fontinha, durante pouco tempo....

Nos bastidores da mente muitos atores de língua presa tentam expressar suas crises existenciais. Muitos insetos aéreos fazem coro ao turbilhão da atmosfera, em redemoinho. Uma pétala de repente vira uma pedra ou vice-versa? Um verso resmunga, inaudível, do estribilho das engrenagens intransigentes. De repente o silêncio grita mais alto – e ninguém responde. A multiplicação dos ecos enche os abismos da noite de vorazes carrapatinhos. Você está ficando doido? Alguém pergunta e alguém responde, perguntando: doido ou doído? E assim um parágrafo de comédia engole outro, anunciando a introdução da tragédia no palco desolado. Cadê a platéia? O ator pergunta ao silêncio.

De repente o índio solitário seguia aos trancos e barrancos pelos campos e matas de sua terra natal, agora tão desnaturalizada. O capim revolvido, as árvores chorando copiosamente. O gato do mato assobiava uma canção desventurada, a cobra coral subia nas grimpas do coqueiro e de lá sumia de vista. De repente as pessoas desconhecidas surgiam e desapareciam nas moitas de japecangas dos aclives e desníveis mineireiros. As moitas de capim-gordura e de gravatás querem interpelar-me neste ponto do itinerário? Perguntam-me por que ando tão impávido e solerte nessas paragens? Onde foi que amarrei minha égua, por que errei tanto nesses caminhos enviesados? O certo é que caí nesta perdição ao mesmo tempo ínfima e infinita. Está ficando doido, a maitaca perguntava do galho de uma goiabeira frutificada. A noite tem mil caminhos. Tenho que encontrar o meu, esteja onde estiver. Quem sabe ele começa naquele bambual gigante?

O dia seguinte trazia um político (um dos anões do orçamento) dizendo: “De quem é o mundo? Se não é meu nem seu, então foda-se o Raimundo!” O pardal de galho em galho a perguntar se o comunista bom nasceu morto... A roubalheira deslavada avança nos quadrantes da nação. A fonte de renda dos corruptos entram e saem dos vasos de infames privadas. Ninguém tem vergonha na cara nesse desmiolado congresso governista? “Se você estivesse lá faria o mesmo” – o debochado diz ao pasmado. “Eu? Você me conhece. Sou incapaz de embolsar um tostão sequer do alheio...”. Ah, mas é aí que te pego, responde o acusador, acrescentando: “assim como é nunca chegará lá, ora pois!”

Os cavalos da insônia galopam no deserto empoeirado. Seus cascos retinem no chão pedregoso, seus focinhos famigerados suplicam clemência ao céu impiedoso. São animais sobre-humanos no afã de captar alguma transparência miraculosa. O falso poeta que se vale da falsa poesia para faturar sexualmente as mulheres ociosas ignora que do alto os urubus estão defecando em suas cabeças desmioladas. Entrementes os jornais não-governistas afirmam que só no período de 2003 a 2010 a corrupção política roubou dos cofres públicos 67 bilhões de reais... Todo o mal do país vem de cima para baixo – e o pessoal de cima só sabe conjugar a frase: “Mateus, primeiro os teus!” Até parece brincadeira, não?
A fina película de vida que cobre a terra
Está se afinando cada vez mais?
Os lugares da infância não cansam de chamar:
Sentem saudades da antiga salubridade?
O sucesso, ah que ilusão! Se um dia vier (sei que não virá), não será bem recebido. Nas dobras do pensamento incansável surgem as cálidas palavras: “Quem tem amor não dorme\ nem de noite nem de dia.\ fica virando na cama\ igual peixe na água fria”.

Quarta-feira, Novembro 16, 2011

AS SURPRESAS DA MEMÓRIA - Lázaro Barreto.


Vou muito a São Paulo onde vivem meus queridos membros da Família. Cansado de enfrentar e de sofrer o congestionamento da Fernão Dias: esperar horas e horas diante dos constantes e trágicos engarrafamentos, ah, não há cristão que agüenta. Ultimamente temos ido (eu e esposa) através da ponte aérea Confins – São Paulo, apesar de mesmo assim sofrermos o também constante engarrafamento na ida e na volta na área da chamada Grande-BH. O percurso só fica tranqüilo depois da Pampulha. E sempre que passo na região fico pensando nos percalços das tropas dos participantes da famosa Revolução Liberal das Guardas Nacionais em 1842. Meu trisavô paterno Bernardo José de Oliveira Barreto era, na época, o Comandante General da Companhia do Desterro, distrito do Tamanduá, constituída de um contingente de mais de cem militares com toda a escala hierárquica tradicional. O Desterro da época era imenso e muito povoado: mais de dez tabernas (nome das pensões) e a Igreja (inaugurada em 1754) não estava de costas, mas de frente para a população que descia o Morro do Areião e se esparramava até a região que hoje é chamada de Lavapés.

“A Revolução Liberal de 1842”, está na página 29 do livro do Cônego Marinho: “começou em Sorocaba, (SP) e propagou em Minas, e visava, não derrubar o Império, mas sim o Ministério que dissolveu as Assembléias, amordaçou a oposição, centralizou o poder executivo, limitando o poder político dos municípios”. Objetivo dos Liberais da Guarda era a marcha contra os governos provinciais atrelados ao poder central do Império. A Guarda do Desterro, reunida à de Oliveira e de Cláudio marcharam na direção de Ouro Preto (então capital da Província de Minas), passando pela mesma direção que hoje faço para chegar ao aeroporto de Confins – mas foram interceptados na região de Santa Luzia pelas forças do exército nacional comandadas por Duque de Caxias. Alguma parte dos rebelados foi presa, alguns foram mortos e outros feridos e muitos foragidos, inclusive meu trisavô.

O Cônego Marinho, no mesmo livro, informa que “a maior parte dos rebelados refugiaram-se nas matas onde eram buscados como se caçam as feras”. O nosso Bernardo escapou, mas aos trancos e barrancos pelo mato afora e adentro, seguindo as trilhas dos tropeiros (ele mesmo comercializava um grupo de tropeiros que baldeava do sertão de Minas para o litoral (Paraty, hoje no Estado do Rio de Janeiro) aguardente de cana, rapadura, carne e toucinho salgados e na volta traziam os produtos do estrangeiro (macarrão, perfumes, remédios, tecidos). De forma que a muito custo e depois de bom tempo chegou à região de Cláudio, terra de sua esposa Josepha Maria de Jesus, onde conseguiu um esconderijo seguro (conheço o local: o buracão de um esbarrancado repleto de vegetação e de regos de água límpida). Mas a represália aconteceu na devassa que fizeram em sua fazenda do Bonsucesso (a sede ainda existe e é sede de um órgão chamado “Criança Esperança” para a educação de menores desvalidos, mantido por uma corporação assistencialista alemã). Seqüestram os bens de seu armazém e loja no arraial e os bens móveis da fazenda, inclusive 140 bois.

Passado algum tempo a ordem de sua prisão foi anulada. E logo depois, numa eleição para preencher o cargo de Comandante da Guarda do Desterro, ele obteve 110 votos dos 126 votantes, mesmo não sendo candidato. Não é uma prova inequívoca do prestigio que desfrutava junto à tropa e de que não incorrera em erro ao apoiar a insurreição? Logo depois foi absolvido no processo que tramitava na Justiça e, ato contínuo, o Presidente da Província de Minas nomeou-o Comandante do Primeiro Batalhão da Guarda Nacional do Tamanduá, órgão mais importante - por ser de maior abrangência e de maior contingente. A data da nomeação: 26\10\1845.

O estudo da História é cheio de surpresas. A minha pesquisa para a escritura do “Memorial do Desterro” foi uma incursão belíssima e recompensadora, levando-me a dar mais um passo na direção de novos e desdobrados horizontes. Comecei a percorrer os caminhos da Genealogia – e logo no começo, no Arquivo da Diocese de São Del Rei descobri a certidão de nascimento do laureado Bernardo José de Oliveira Barreto, datada de 21\10\1797, constando ter nascido em 27 de agosto do mesmo ano, filho de Antônio José de Oliveira Barreto e de Anna Joaquina Cândida de Castro, neto paterno de Gregório Francisco de Oliveira e Maria Rosária de Freitas, da Vila de Guimarães, arcebispado de Braga, e neto materno de Faustino José de Castro, natural da Freguesia da Sé da cidade do Porto, e de Rosa Angélica da Luz, natural de Prados, Minas Gerais, sendo padrinho o ilustríssimo e excelentíssimo Sr. Bernardo José de Lorena, Governador e Capitão General da Capitania de Minas Gerais”, sendo a madrinha Hipólita Jacinta Teixeira de Mello, esposa do Inconfidente (ela também era uma inconfidente) Francisco Antônio de Oliveira Lopes.

Sexta-feira, Novembro 11, 2011

UMA FIGURA INESQUECÍVEL (*) - Lázaro Barreto.

Sebastião Gomes Guimarães nasceu em Nova Serrana, em 1917. Diplomou-se em Belo Horizonte em Clínica Geral e Cirurgia em 1941 – e veio trabalhar em Divinópolis em 1942. Eleito Prefeito do Município para o período de 1951-1955, quando ampliou os serviços de água, esgoto e calçamento na cidade, construiu a estação rodoviária, concluiu a construção do Colégio Estadual, abriu ruas e criou bairros e estradas vicinais. Já desfrutava de grande notoriedade exercendo as funções de Médico com muita competência, beneficiando muitas gerações, principalmente da classe pobre, inclusive dos municípios vizinhos. Exerceu o segundo mandato no período de 1959-1962 e depois pela terceira vez no período de1971-1973. Fazia das duas atividades a mesma profissão de fé numa espécie de liturgia sagrada de amor aos semelhantes.

A fidelidade ao critério de amor ao próximo mais do que a si mesmo é uma linha paralela ao seu amor do exercício da medicina. Creio até mesmo que não se casou temendo inibir a possível esposa na comunhão conjugal. Ela não aceitaria um marido absorvido em outro amor pessoal tão profundo – e assim ele teria que bancar o tirano no lar, desgostando a consorte, o que ao mesmo tempo contrariava seu amor próprio e ao próximo. Permaneceu celibatário por causa da arraigada constância afetiva de seus semelhantes, no que era plenamente correspondido pela inumerável clientela beneficiada.

Estou propenso a dizer que ele foi a pessoa mais perfeita que conheci até hoje. Despido de defeitos, repleto de virtudes. Médico humanitário, que entrou na Política considerando que a boa política é um local de comunhão das pessoas, sejam elas pobres, ricas, novas, velhas, feias, bonitas. O livro “Bão É O Bastião”, de Anamaria Mourão mostra muito bem que nele a Luta é sinônimo de Vida.

Sua mesa de trabalho no gabinete do prefeito e no consultório do médico era a mesma, sempre repleta de papéis anotados para o duplo exercício de sua faina cotidiana. Na opinião popular “ele tirava a doença com a mão”. Pessoa enigmática (de estranhos poderes?), carismática, confiante, persuasiva. Mediunidade ou competência acima do normal? As pessoas admiravam e agradeciam, mesmo estranhando tanta bondade afetuosa. Não cobrava as consultas. Se perdia o doente para a morte, assegura Anamaria Mourão, ele chorava. Não apalpava o doente, pedia que o próprio apalpasse. Sua finalidade, arguta e veraz, era extirpar a doença, curar o doente. Com toda e muita simplicidade, irreverência, obstinação.

Sua vida é um romance de humor e seriedade, um realismo beirando o surrealismo, o pitoresco amenizando o dramático. Fatos até de níveis folclóricos pipocam no seu dia-a-dia dinâmico. Teve um Fusca roubado durante a noite porque não usava a garagem, sabendo que a qualquer momento deveria sair para atender um doente. Deixava a porta do carro sem trancar e a chave da direção e os documentos no interior. Conta-se também o caso de que, indo com o parente de um doente na zona rural, ouvir dele, calado, os xingamentos contra o mau estado da estrada. Sem saber que o médico que o atendia caridosamente era o prefeito municipal, ele vituperava: “filho da mãe desse Prefeito que não cuida das nossas estradas. Ah, se um dia eu o encontrar, vou dar uns bons tapas na cara dele, ah, isso vou!” E ele bem ali, bem calado, reprimindo os solavancos do veículo. Outro caso verídico (este Anamaria conta no livro citado): “no consultório repleto de gente, a fila das consultas alongando-se no passeio”, ele ouve a pobre mulher com a criança doente no colo queixar-se do fato de a enchente ter levado o barracão em que morava. Nesse momento chega um fazendeiro rico, agradecendo o médico, por ter curado a esposa, dizendo ao doutor: “Hoje o senhor vai receber, querendo ou não” – e coloca na mesa o maço de cédulas. A cena, presenciada por todos teve o seguinte desfecho: o doutor Sebastião, coça a cabeça, mas logo vira-se para a mulher do barraco e entrega-lhe o pacote de notas e diz: “É para a senhora consertar a moradia. E não esqueça de passar essa pomada na coceira do menino”.

(*) Agradecimentos à Anamaria Mourão, pela amplitude da pesquisa contida no livro “Bão É O Bastião” – Editora O Lutador, BH, 1996.

Terça-feira, Novembro 01, 2011

OS FELIZES OITENT’ANOS - Lázaro Barreto.


Há quarenta mil anos que procurava,
Que procurava um livro, uma sombra,
Que procurava em toda parte a cósmica alegria
E a eterna lágrima
Da dor que eu sentia como filho de Deus
E enteado do Demônio.

E foi num dia de chuva, numa praça de pedra,
Que encontrei Carlos Drummond de Andrade,
No município de Guanhães, fração do universo
Mineiro que ele canta. Encontrei
O canto, o livro, a sombra.

Há quarenta mil anos que sondava a gruta
Do Levante Espanhol e da Lagoa Santa,
Procurava o papiro, a tábua da lei, a canção
Que encontrei nas portas abertas das montanhas
De Minas e de Drummond.

Li os poemas do homem falando com o homem,
Senti o choque e o repouso, o fluxo
Que me retém na faixa do silêncio revolucionário,
Onde cada palavra é um corpo que povoa o novo mundo.
Encontrei retraídas fichas de identificação,
Delicados meios e nuances de me comunicar
Através de muros e de mares:
Essa boa, farta e mansa, chuva de versos
Que semeia adeuses e caminhos.

Há quarenta mil anos que procurava
A sombra e o fogo dessa árvore
Que agora me embala e me sacode.

(Divinópolis, MG, 1973).

Anexo:
Cópia de carta manuscrita de Drummond, datada de “Rio de Janeiro, 14 de março de 1983: “Meu caro Lázaro Barreto:
“Seu poema, que o SL do “Minas Gerais” publicou, penetrou fundo no coração deste octogenário. É das coisas mais belas e magnânimas que já recebi, sem tê-las merecido.

A você, num abraço caloroso, o profundo agradecimento de
Carlos Drummond de Andrade.

O QUE HÁ DE MELHOR? - Lázaro Barreto.


O desejo fala por mim em todos os sentidos
do corpo e da alma.
Ó lúbrica flor da montanha, a ínvia Dublin
de James Joyce.
A espiritual carnalidade do fervor:
a verve musicando a vulva e a cútis,
os sorridentes lábios verticais e horizontais
dela.
O inexplicável perfume da libido,
as tronqueiras do caminho, as ramificações
os planaltos e as planícies, as esfericidades,
os pontos de exclamação das peripécias
nos contornos e arredores da sede e da fome
na hora de entrar no espaço hachurado
das fontes, dos remansos e correntezas,
dos pórticos, refúgios e sótãos....
Tudo de bom mesmo antes de entrar
nas grutas encantadas do prazer remoçado
e nadar e e fluir e mergulhar e aflorar
nos mundos e fundos da posse
instantânea e permanente
do imorredouro deleite
diante dos pequenos e grandes lábios de mel,
do imorredouro deleite
jorrando luzes na minha obscuridade,
antes de ver e ter
o paraíso
instantâneo e permanente.




JUSTIÇA INJUSTA - Lázaro Barreto.


Dois assuntos desconcertantes que hoje transitam na mídia brasileira: alguns executores e funcionários do Direito Civil, exorbitando de seus deveres, negativamente – e as indenizações milionárias de alguns apaniguados do sistema, incluindo aí os humoristas (sic!) Ziraldo e Jaguar, extraidas do (nosso) dinheiro público, simplesmente por terem sido presos no espaço de apenas seis dias, pela chamada repressão governamental do regime militar. Um absurdo tão grande que até o colega deles, Millôr Fernandes, fez uma piada, dizendo não saber que os dois tinham feito um investimento tão rendoso.

Pois é. Quando penso nas vicissitudes que minha família passou ao longo de tantos anos, com minha mãe viúva, com quatro filhos na primeira infância para criar, sinto que a maledicência brasileira não é de hoje – mas que já podia ter sido exorcizada.

Meu pai celebrou seu primeiro casamento com Maria Archangela de São José em 14/06/1901 e ficou viúva dela (sem filhos, mas os dois adotaram e criaram sete crianças, de pais paupérrimos, da infância até o casamento de todos) em 23\01\1931. Consegui estes dados em pesquisas de cartórios e no Arquivo Público de Itapecerica. No inventário pós-morte consta, além dos bens no arraial do Desterro (hoje Marilândia), a Fazenda Nova do Lavapés,uma enorme e bela área de campos, cerrados, córregos e cultura.

Pois é. Depois de enviuvar-se, ele casou com Isolina Gonçalves Guimarães em 12\07\1932, com quem teve quatro filhos: Devanir, Lázaro, Vitória e Maria José, falecendo em 01\11\1940. No Inventário (fajuto) dos bens deixados consta apenas a pequena fazenda da Fontinha, quatro casas e um quintalão enorme todo cercado de valos ((os ascendentes de meu pai – José Valentim Barreto – eram ricos e poderosos, praticamente os fundadores do arraial). O fato de a enorme Fazenda Nova do Lavapés não constar no Inventário indica claramente que houve fraude das chamadas “autoridades”. Alguém apropriou-se dela, indevidamente, no espaço de tempo que vai do falecimento em 1940 até a data do inventário, anos depois. E depois dizem que a terra é um bem que não pode ser roubado. Minha mãe não a vendeu, mas ficou sem ela. Infelizmente ela era analfabeta, órfã de pai e possuidora de parentes intelectualmente desvalidos.

Pois é. Ela foi ludibriada. Não posso entender como e porque a “justiça” da época aceitou o fato de ela ser analfabeta e passar Procuração a um advogado (rábula?) com os dizeres de estar escrevendo o texto “do próprio punho de livre e espontânea vontade”- tudo assim com uma caligrafia feminina de professora (meu espanto foi tão grande que até consegui uma cópia de tal inventário). Ela, exercendo suas exímias aptidões de costureira e bordadeira conseguiu criar os filhos nos bons conceitos da civilização cristã. Mas o que mais me aborrece e indigna é o calote (de que somos vítimas) do depósito de oito contos de réis (muito dinheiro em 1945) depositados na antiga Caixa Econômica Estadual (que repassou depois para a Caixa Econômica Federal e depois para o Banco do Brasil), em nome de Devanir, Lázaro e Maria José. O depósito a juros fixos só poderia ser sacado depois que os clientes atingissem a maioridade (naquele tempo não existia esta assombração chamada inflação).... Esse dinheiro é originário da venda (legal) por minha mãe já viúva da Fazendinha da Fontinha, uma beleza de propriedade cercada de valos e arame farpado, com três nascentes de água potável, uma enorme capoeira, um pasto repleto de goiabeiras, araticuns e araçás, que começava na porteira em plena rua do Arraial e descia na divisa da rua do Areião e seguia pelo caminho de terra até a da Estação da Estrada de Ferro da Rede Mineira de Viação. Foi vendida, na época, por dezesseis contos de réis – e hoje cada uma das três partes em que foi dividida deve valer uma fortuna.

Pois é. A Vitória foi a única que conseguiu sacar sua parte porque contraiu núpcias antes de atingir a maioridade. Mas o dinheiro dos outros foi desvalorizando através dos anos por artes e ofícios do sistema financeiro, de tal maneira que hoje nem sei se ainda existe alguma migalha. E é aí que não posso entender porque uns pilantras apaniguados recebem milhões de uma vez e continuam recebendo polpudas mensalidades....

E foi assim que a nossa Fazenda Nova ficou velha nas mãos indignas de outras pessoas. Não foi vendida. Não foi doada. Foi perdida, lamentavelmente, como se fosse um bem imaterial. Era, na verdade, uma prenda,uma herança familiar. Um bem valioso , roubado sub-repticiamente por ladrões safados e vulgares. Porca miséria, heim?



DESCRENÇA - Lázaro Barreto.


No alto do céu está o fundo do mar.
Parreiras de uvas transbordam nos barrancos,
oferecem seus cachos maduros
aos comedores de bagaços.

A cidade que uma vez abriu-me os braços,
agora encolhe suas ruas
repletas de fatais automóveis.

Sobre a cabeça do proscrito paira a névoa
da descrença nas instituições.
Ele almeja apenas sumir de vista.

Na encruzilhada dos sofredores
ele carrega um porco espinho na alma,
acirrando as insoluções pensamentais.

Só se avista coisas medonhas nos lugares das pessoas:
um lobo na cara do vendeiro,
um galho de espinhos no lugar de uma velha casa.

Um campo desmatado no lugar da rua.
Assim mesmo ou então
uma rua desdeixada no lugar do campo desmatado.

CITAÇÕES CINEMATOGRÁFICAS (6) - Lázaro Barreto.


FRANÇOIS FORESTIER:
Seu livro de 214 páginas bem que poderia chamar-se “O desnudamento das estrelas e dos políticos dos EUA”. O pente fino do autor não deixa ninguém de moral em pé. Os homens são patifes, canalhas, criminosos; as mulheres, bem as mulheres são as vítimas mais próximas da cambada de tarados. A ação localiza-se nos anos 60 da famigerada família Kennedy no poder. Limito-me aqui a citar algumas frases das páginas 138 e 139, que mostram o que na verdade é o ludibrio da fantasia publicitária que doura a pílula venenosa da sociedade política. Na página 139: “Por mais triste e deprimida que esteja, Marilyn Monroe sabe provocar desejo; é seu trabalho, sua paixão, sua razão de ser, sua missão na via...”. Na página anterior, 138: “Presa entre os conselhos de Lee Strasberg (professor dela no Actor Studio), que ela consulta por telefone, e as indicações de Ralph Greenson, psicanalista que ouve suas queixas e nos intervalos faz sexo com ela - entre as quais a de que nunca ter tido um orgasmo na vida, ela oscila”. Em “Marilyn e JFK”, trad. de Jorge Bastos, Edit. Objetiva – Rio de Janeiro, 2009.

MARLI FANTINI SCARPELLI e MARIA ESTHER MACIEL:
“... Todos sabemos que a literatura é superior ao cinema como forma de narração. Ela potencializa a imaginação como nenhuma outra” (Peter Greenaway, pag. 9). “As adaptações fílmicas, consideradas como traduções de outros textos – como romances, peças ou contos – também nas criações intertextuais para cuja interpretação o leitor deve estabelecer relações entre os sistemas de signos literário e cinematográfico” (Thais Flores Nogueira Diniz, pag. 34. “Os jovens inventaram o desemprego?... Não, pelo menos, eles não procuraram... É preciso procurar... Van Gogh procurou um pouco de amarelo, quando o sol desapareceu. É preciso procurar... É preciso procurar” (Jean Paul Godard, paag. 65, citação de Anita Leandro). Em “ALETRIA” – Revista de Estudos de Literatura”, Edit. UFMG, Belo Horizonte, MG, 2001.

AMIR LABAKI:
Arnaldo Jabor ocupa as páginas 175 e 176, com o texto “Carmen Miranda – Bananas Is My Busines”, do qual pinço alguns trechos: “Helena Solberg e David Meyer... Redesenharam não só a ascensão e queda de Carmen Miranda, mas também um retrato de nossa fragilidade... Como era e é frágil o Brasil, tão desamparado diante dos desejos estrangeiros, tão mal filmado, tão mal preservado.. Nos filmes antigos passa a sensação de que todos morreram sem conhecer os seus melhores dias. Mesmo os filmes de ficção são documentários de nossas carências...”. Em “O Cinema Brasileiro”, edição Publifolha, texto em português e em inglês, de 222 páginas. São Paulo, SP, 1998.

PAULINE KAEL:
O livro é de 568 páginas, sendo 60 delas de três colunas cada, referentes ao Índice Remissivo dos títulos originais dos filmes resenhados pela Pauline – e um Índice Onomástico, citando 1.200 filmes vistos em 1.001 noites. “Mestra da sinopse, Pauline Kael consegue contar-nos, nos limites de um livro, o que são oito décadas de filmes, quem está neles e por trás deles, e refletir, rápida mas inteligentemente, sobre o que cada um deles significa. Ninguém mais fez isso, ninguém mais seria capaz”. Palavras de William Shaws, na página 12. É um livro que busca não apenas informar e sugerir, mas também motivar: transformar leitores curiosos em expectadores apaixonados e deixar claro que a pressão é imensa, o tempo é curto e o número de filmes que devem ser assistidos se tornou realmente grande”, - palavras de Steven Jay Schneider. De minha parte (LB), cinéfilo inveterado desde à infância, contei e conferi que dos 1001 filmes assisti nada menos que 878, ou seja, da relação só não vi 123 filmes. Além dos que vi na televisão, em vídeo-cassete, em DVD e cine-clubes, nunca perdi um bom filme nos lugares em que vivi depois da adolescência: Belo Horizonte, Salto Grande onde até mesmo projetava filmes nas noites ao ar livre para gáudio dos operários das obras de construção da maior usina hidrelétrica de Minas, na época (1953 a 1958). Continuei a ver filmes em Uberaba, Cachoeira Dourada e em Divinópolis,onde vivo desde 1966.
Em: “1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER”, Trad. de Carlos Irineu da Costa, Fabiano Morais e Lívia Almeida, Edit. Sextante, Rio de Janeiro, 2008.