domingo, julho 25, 2004

A VIDA MAIS HUMANA

Kurt Schilling, ao traçar o quadro evolutivo da técnica humana, observa que a humanidade marcou três etapas econômicas, do Neandterdal à época da máquina: a primeira, da caça e da coleta dos grupos errantes e predatórios, durou cerca de 30.000 anos; a segunda, a da agricultura e da pecuária de subsistência, dos grupos sedentários e conservacionistas, durou 7.000 anos; a terceira, a da agro-indústria de nossa atualidade, está com apenas 30 anos e já mudou a face do planeta. E vemos por outro lado, que a mensagem do Gêneses é bem explícita: Deus quer que o homem domine a terra, que a trabalhe e a coloque a seu favor, mas isso é para todo o sempre e não apocalipticamente para a ganância momentânea, como se o planeta fosse acabar no fim do ano do século. Vemos nitidamente que mesmo no meio urbano ainda não foi lançada a ponte entre as tecnologias da roda e a dos circuitos elétricos. E a conseqüência é desastrosa, pois a abrupta substituição das tecnologias é sempre traumática: em vez do mutirão dos enxadeiros na roça, vem o rolo compressor do maquinário, em vez da comunhão social das conversas e dos cantos, vem a solidão do tratorista na peleja destroçadora da máquina barulhenta. o que se perde em humanismo pode ser, de alguma forma, remediado? As atividades humanas da vida roceira eram (no Brasil anterior à monocultura e à mecanização) semelhantes às da própria natureza e perfaziam, no contexto, a fusão geo-social, o inter-ajuste ecológico, no qual a natureza e a cultura (como afirma Antônio Cândido, citado por Lélia coelho Frota) são dois pólos da mesma realidade. Mondrian  afirmou que a arte é um sucedâneo numa época que a própria vida carece de beleza. Mas em Minas, onde moramos, ainda existem regiões bonitas que concorrem no embelezamento da própria existência humana. Dia e noite o espetáculo estético das paisagens naturais (as gradações de cores, sons e luzes) enternecem a sensibilidade e a mentalidade. Uma terra enfeitada de árvores e águas e animais e pássaros e colinas e vales e montanhas e céus de nuvens e astros e estrelas é como uma casa enfeitada de predispostos sorrisos. A escritora Ana Hatherly escreveu que “o mito aproxima da a natureza, dos aspectos misteriosos da natureza”, e que só as sociedades afastadas da natureza desmitificam-se e por isso têm necessidade de criar sempre novos mitos. Mas infelizmente a tecnologia patológica já desencadeou a terceira guerra mundial, agora contra os seres indefesos da natureza. Para dessacralizá-la e bombardeá-la, o técnico começa desmontando criticamente o panteísmo, empreitada fácil, pois toda idéia de Deus é vulnerável, já que ele próprio não se defende quando é atacado. e a exacerbação gananciosa desse domínio da natureza fere a ética humanística e devia ficar à mercê de uma criteriosa e rigorosa disciplina jurídica. E fere também o que há de mais sagrado na face da terra: a forma sutil e delicada da vida de todas as criaturas do numinoso caleidoscópio da biodiversidade.   

Bibliografia: SCHILLING, Kurt. A História das Idéias Sociais. Zahar Editores, RJ, 1974 HATHERLY, Ana. Nove Incursões, Sociedade em Expansão Cultural. Lisboa, 1962. FROTA, Lélia Coelho. Mitopoética de Nove Artistas Brasileiros. Edições Funarte, RJ, 1978.