domingo, outubro 12, 2008

A SORTE GRANDE, O FILME


O artesanato um tanto primitivo, um tanto criador,
um ar de mistério que amenize o realismo e que aguce
o enlaçamento da fantasia subliminar;
o feixe de pontas ilusoriamente amarrado;
o cenário de pontos ocasionais, que veio de um estúdio
improvisado, fonte de outras incógnitas....
Assim os cenários, os diálogos, o enredo,
são tirados da vida cotidiana de qualquer mortal.
As tomadas, os planos e a decupagem são empregadas
adequadamente,
e assim do farelo dos fragmentos advém a uniformidade
(vale dizer o ritmo, a unidade, o cômputo)
do que uns querem mostrar e outros querem ver.
Fazer uma casa é fácil,
fazer um filme é difícil,
fazer um passarinho é impossível.

Em seu último filme, Alípio Tavares consegue do ator Abelardo Flecha Azul uma interpretação antológica, representando o sujeito pobretão e sonhador que teve o azar de tirar a sorte grande da loteria federal. A partir da confirmação do prêmio numa agência lotérica, conferindo o cartão no painel dos resultados das apostas, ele, de caso certamente pensado, tenta negar e esconder o terrível e maravilhoso acontecimento.Diz a si mesmo a toda hora que a vida deve continuar na mesma pastagem e que só começará a gastar a dinheirama quando todo mundo desistir de conhecer a identidade do sortudo. Não pode ser alvo da atenção generalizada dos pedidores, dos sugadores e dos roubadores. Estou perdido se cair nas garras dessas pessoas, ele se diz, repetidamente. Tenho que fazer de conta que nada aconteceu na minha pobre vida. Quem sabe daqui a um ou dois anos, eu possa sair desovando aos poucos?

A partir desse momento, o ator encarna toda a gama de vulnerabilidades e aos poucos vai entrando no parafuso da paranóia, passando a ver em cada pessoa um meliante, um malfeitor que só almeja subtrair um quinhão de sua fortuna. Não tem mais sossego. As pulsões corporais são constantes (mesmo quando tenta recair no sossego da rotina anterior), e também o arregalar dos olhos na presença dos estranhos, os sustos que sofre diante de qualquer ruído ou barulho. Tudo isso passa a incorporar-se à tônica de seu comportamento – e a própria mulher sente a estranheza e também os filhos, os outros parentes e os colegas de serviço na construção civil, onde continua a trabalhar. Sem ser ator para despistar, o personagem arrepia os cabelos diante das luzes repentinas e das sombras mais demoradas, nas ruas e dentro de casa. Mortificado no vai-e-vem das desencontradas emoções, arrepende-se de ter jogado e ganhado, sem jamais atinar que o melhor a fazer seria mesmo festejar a premiação e assumir a felicidade.

A cena dele falando de um orelhão duplo na Rua Halfed (Juiz de Fora, MG), movimentada e barulhenta, exemplifica o ritmo compulsivo da narrativa e aguça o clima de apreensão e periculosidade do fio romanesco que estamos acompanhando. A fala entrecortada de senões, articulada mais em olhares do que em palavras; a fileira de tipos mal-encarados (esquisóides? Desempregados? Bandidos? Malandros?) que se aproximam e esgueiram, farejando algo como animais carentes; a moça que chega e utiliza a outra orelha telefônica: ela parece falar com ele, quase face a face, enquanto fala com o namorado ausente e distante. Ele descarta o jogo da moça, contrai as feições, está noutro contexto: as inflexões, os gestos, a trepidação circundante, tudo a causar bruscas interrupções e retomadas do diálogo que procura manter com o gerente da Caixa Econômica do outro lado da linha: as elevações e atenuações do tom da voz evidenciam a insegurança do personagem e a segurança do cineasta no afã de transmitir ao espectador o caos existencial do ser humano amesquinhado nos dias que passam.

O ganhador da Loto, depois de obter do gerente a garantia de que sua premiação permanecerá incógnita, depõe o fone no gancho e respira aliviado. Na verdade ele só conseguiu a garantia depois de prometer aplicar o montante do prêmio nos fundos de investimentos da agência administrada pelo interlocutor. “Se ninguém souber que ganhei, ninguém vai me importunar” – ele diz a si mesmo, enquanto entra num bar, toma um chope, fuma um cigarro e troca outras palavras em seu monólogo. Se a corja de bandidos que estão livres ou mesmo reclusos ou foragidos das prisões...Se eles souberem da dinheirama que disponho...ah, não, eles não podem nem desconfiar de nada.... Meus filhos são susceptíveis, a mulher é indefesa, meus pais também são raptáveis, eu mesmo não passo de um trouxa: de forma que sequestrar qualquer um de nós é café pequeno para esses bandidos profissionais.

Alípio Tavares chega ao nível dos mestres. Descola a panorâmica das ruas centrais de Juiz de Fora: a multidão a bater pernas, a cansar os semblantes, a exemplificar a veemência sem sentido. Por que toda essa gente não trabalha nas fábricas e nos campos, em vez de ficar assim vagabundeando? A câmera parece perguntar.
Todos para baixo e para cima, nas ruas,
a inquietar os olhos uns dos outros,
a bater as pernas das fomes desatendidas,
a inquietar as estruturas ameaçadas....
As pessoas tem palavras na boca, tem catarro no nariz – e o riso fixo, agora sem abrir no rosto de boca fechada: todas sabem que o quê anoiteceu futurista, amanheceu decadente? As mãos abanando dos mandriões, as nádegas e barrigas obesas dos vadios, os bigodes e barbas pornográficas dos metidos a galãs, as pernas bambas dos contrafeitos, os pés de patos espantosamente no chão, dos malignos.
Como se livrar deste tormento?
Só uma guerra civil pode dizimar tal formigueiro?
Um golpe militar?
Uma guerra atômica mundial?
Os primeiros anos de feições góticas,
o clima barroco dos anos seguintes...:
Puxa vida! – o figurante exclama, ao escapar da derrapagem de um automóvel na esquina.

A seqüência seguinte, que descreve o personagem saindo de casa todo arrumado e lampeiro (onde será que vai: visitar um parente? Tomar um chope num bar melhorzinho? Consultar a cartomante? Ver uma boa fita num cinema melhorzinho?), prima pela valorização fotográfica dos detalhes: a palavra que sai da boca de um trocador de ônibus e vai aos ouvidos do outro trocador do outro ônibus, a pedra que estilhaça a vidraça de um palacete com o som simultâneo ao de um tiro que rebenta os miolos de um batedor de carteira na rodoviária. O ganhador da sorte grande se apavora quando alcança a praça atrás da rodoviária e presencia mais duas ou três cenas violentas: a batida engarrafada de vários veículos na esquina, a troca de pescoções dos freqüentadores de um boteco, a correria de pessoas falando para um lado e para outro da rua. É assim que os passos dele, nas ruas do final da tarde, retomam o sentido da vulnerabilidade: todas as pessoas com que defronta, à exceção de algumas crianças e de uma ou duas moças, têm as feições facinorosas, as atitudes beligerantes, umas de ataque, outras de defesa, todas fisionomicamente capazes das piores atrocidades.

Mais uma vez o diretor prova sua competência expressionista, sua capacidade de captar e de transmitir a atmosfera das vicissitudes e borrascas do drama e da tragédia urbanas. As alegorias implícitas no traçado direto da narrativa dependuram a fusão do “absurdo” e do “normal” no mesmo gancho da credibilidade. Estamos mesmo envoltos pelas nuvens do cotidiano, às margens de muitos abismos?

Chegando em casa, cansado e suado, o personagem aporta, momentaneamente, num pequeno oásis de luz beatífica. As tomadas nas dependências internas e na pequena área arborizada do quintal parecem filtradas em outra lente. A compleição roliça da mulher de belos olhos, que ficam olhando mesmo depois de baixarem ou desviarem, o rosto singularmente embelezado na ausência de cosméticos – e também a brejeirice das crianças, para as quais não há, em tempo algum, tempo ruim. Os marrecos na grama, os pássaros na amoreira, a algazarra latente que exclui a componência implícita do repentinamente inusitado e do permanentemente irremediável.

A presença invisível do agouro e do pessimismo fica também demonstrada nas projeções em lâminas embaçadas das cavernas do pensamento do personagem, prenhe de susceptíveis periculosidades (a nublada imaginação do seqüestro acompanhada de sevícias, estupros, extorsões, chantagens, resgates) – imagens difusas que arrepiam-lhe ainda mais os cabelos, repuxam-lhe os olhos, acionam os tiques de seu nervosismo. Poucas vezes temos visto na tela um casamento tão bem sucedido entre a imaginação e a vivência do medo.

Elba Ramos, no papel de Marga, a esposa que descobre sem querer a premiação do marido e guarda o segredo com ela mesma, está perfeita no jogo duplo do amálgama interpretativo: a personagem que se vê obrigada a ser atriz, pois sabe um segredo e finge que não sabe. Seus grandes e belos olhos negros ajudam na expressão do espanto e do júbilo (o espanto de viver o irreal e o júbilo de prever a desfrutação da riqueza cheia de belos horizontes). É uma atriz de firmada experiência, sabe andar, gesticular e falar diante de outras pessoas e da câmera, sabendo que milhares de olhos espreitarão depois os detalhes de sua aparência (a aparência, essa porta superficial das profundidades existenciais).

Os dias seguintes à exploração jornalística do mistério do anônimo ganhador do maior prêmio em dinheiro do país são importantes na estruturação dramática do enredo porque, além de recalcar a repercussão do evento, prepara o caminho para o desdobramento romanesco: o personagem continua levando a mesma vida, trabalhando pesadamente no emprego, comprando moderadamente as mesmas coisas, tudo aparentemente igual em sua casa e na vida rotineira. Mas a câmera de Tavares alarga e aprofunda seus focos, revela a hediondez das situações aparentemente banais. A ironia, o sarcasmo, a mesquinhez, tudo o que fere e dói passa a ferir e doer ainda mais. E quando o personagem começa a executar o esquema friamente armado da nova vida, ou seja, a comprar uma nova casa em outra cidade e uma fazenda em outro município, aí o desfecho se precipita.

Não há interregnos nem sublimações, além das brincadeiras do pai sexagenário num jantar festivo de aniversário. Ele vem lá com uma parábola, que enuncia e desenvolve, mas não conclui, brindando cada um dos convivas (a própria esposa, o filho, a nora e os três netos), com as palavras apontadas em cada dedo da mão esquerda:
“A TOLICE estufa o peito sem nada dentro.
A VAIDADE, como a coruja, sempre a gabar o próprio toco.
O SERVILHISMO acanhado na cadeira mostra o rabo sem querer.
A HIPOCRISIA, que dá o tapa e esconde a mão.
O MEDO, que borra pelas pernas quando a coisa fica feia”.
Uns olham para os outros, ninguém entende, mas os pratos e os copos estão bem ali ao alcance das mãos: o lombo apetece mais que o frango; o guaraná não chega aos pés da cerveja geladinha.

Seis meses depois, antes de levar a família nas partes turísticas do mundo, ele decide levá-la às partes turísticas do pátrio-torrão. Mas, por mal dos pecados, logo na primeira viagem há a colisão (que Alípio Tavares revela em cru realismo) do ônibus com o caminhão de carga pesada numa rodovia federal, acidente que resulta na morte de 33 pessoas, entre as quais o incógnito ganhador da Loto, sua esposa e os três filhos menores.