terça-feira, setembro 23, 2008

O HOLOCAUSTO CONTINUA... - Lázaro Barreto.


I - Na Roça.

Na infância
conheci os inquisidores de pássaros
(assassinos inconscientes e gratuitos),
os destripadores de micos tatus e jacarés,
os lavradores aparentemente banais,
os trapaceiros copiosamente malévolos:
todos entregando-se ao sanguinário exercício
de matar para viver.

E ái ái dos coelhos das pacas e das capivaras,
sem falar das reses e dos capados,
dos cabritos carneiros peixes e pássaros
na diária carnificina do meio rural.

Cheguei a participar de algumas armações de laços arapucas e visgos
para enforcar matar e prender passarinhos de panelas e de gaiolas
(então com o coração na mão, agora com o braço a torcer)
e também
testemunhei, impotente impassível, as hecatombes dos parís e pescarias,
das bateções do timbó venenoso nas plácidas lagoas,
logo coalhadas de peixes mortalmente envenenados.


II - Na Cidade.

Na barbaridade de uma rua comercial da cidade dos fornos crematórios
e dos sanguinários pernilongos,
o velhote alquebrado fica horas e horas a repetir a esquisitice
de ser o contumaz estripador de reses e esfaqueador de capados,
a oferecer em troca de reles moedas,
os frangos e galos, as frangas e galinhas, no seu caixotão em forma
de galinheiro,
bem ali no meio da rua, defronte a uma das portas ensebadas de sua venda
de secos e molhados.

Assumidamente sádico,
ele fica oferecendo as pobres aves aos verazes comilões passantes.
Encarquilhado de corpo e alma,
sentado no próprio rabo, no tamborete ao lado do seco aquário das aves
sedentas e comprimidas ao sol e à chuva dos dias aziagos,
que ele oferece em troca de algumas reles moedas,
enquanto relembram com os velhos amigos do meio rural
os dias saudosos da roça, quando, munidos de foices e facões,
de espingardas chumbeiras, de canivetes e facas e capangas,
eles caçavam, depenavam, estripavam
os inhambus as perdizes as juritis,
as pacas os tatus as capivaras e as traíras e lambaris.

Quando ali passo, aperto o passo e faço o sinal da cruz
diante do mórbido espetáculo
oferecido às pessoas condenadas pelo mau uso da vida,
que ali ficam, mirando-se naquele espelho de aves condenadas
por mais esse tipo de holocausto.