sexta-feira, setembro 26, 2008




MORTE E LITERATURA - Lázaro Barreto.


Literatura Comparada: Crítica e Interpretação. Leitura às vezes difícil e às vezes fácil do livro “DE ORFEU E DE PERSÉFONE” – Organização de Lélia Parreira Duarte – Editora PUCMINAS, BH, 2008, com textos dos participantes da antologia universitária: Cid Ottoni Bylaardt, Clara Rowland, Dalva Galvão, Denis Leandro Francisco, Eugênio Drumond, Flávia Nascimento, Glaura Siqueira Cardoso Vale, Helena Carvalhão Buescu, Ilda Ferreira Alves, Lélia Parreira Duarte, Luci Ruas, Maria Teresa Abelha Alves, Matilde Demétrio dos Santos, Mônica Figueiredo, Renata Soares Junqueira, Rogério Barbosa da Silva, Silvana Maria Pessoa de Oliveira, Tatiana Salem Levy, Teresa Cristina Cerdeira. Literatura e Ciência ao longo do tempo não se dão as mãos cordialmente quando fazem parceria para chegarem ao leitor. A literatura é, por natureza, legível; a ciência é, sobretudo, estudável. Uma incompatibilidade formal assim
chega a distanciar o leitor literário do texto acadêmico-científico geralmente pregado e exercido pelo ensino dos cursos superiores das chamadas belas letras. Os professores e alunos afinam seus instrumentos da escrita legível no rigor dos parâmetros pré-estabelecidos pela pedagogia vigente. Lembro-me que quando fazia Ciências Sociais numa Escola Superior nunca consegui publicar um texto sequer na revista da instituição. Eram bons ou ruins demais para o paladar academicista dela? Depois, bem depois, não consegui publicar em livro o resultado de uma pesquisa financiada e aprovada pela FUNARTE, sobre a cultura popular de Minas Gerais porque a editora da universidade exigiu que eu revisasse todo o texto, de acordo com os cânones de linguagem e de formatação vigentes na sua sistemática pedagógica . “Ah, fazer algo pior do que está aí nas mãos de vocês, eu não consigo”, eu disse, aceitando o veto da editora para a publicação do livro até hoje inédito.

Tendo agora em mãos o volume supracitado, organizado pela Lélia, autora que sabe manejar e legibilizar a linguagem acadêmica, a gente lê as mais de quatrocentas páginas, saltando alguns períodos e parágrafos, e chegando às inúmeras partes tentadoramente legíveis, a começar pelo texto de Denis Leandro Francisco sobre o romance “Halo da Morte”, de Milton Hatoum, onde pescamos pérolas como: “quando conseguia organizar os episódios em desordem ou encadear vozes, então surgia uma lacuna onde habitavam o esquecimento e a hesitação: um espaço morto que minava a seqüência das idéias”. Estas são palavras do romancista, que antecedem as seguintes, do ensaísta Denis: “O romance encena uma certa manifestação da dor e da melancolia, da perda como estímulo à escrita e à narração, cuja presença nas literaturas moderna e contemporânea é inegável”. O texto de Lélia Parreira Duarte sobre o livro de contos “Seta Despedida não Volta ao Arco”, de Maria Judite de Carvalho, parece ter sido escrito especialmente para o leitor mais genérico e literário: na verdade ela escreve sobre um conto como se escrevesse outro conto – e assim confirma o preceito que para criticar um poema é necessário escrever outro poema. E que a boa literatura é o que é e também o que sugere ser: a que sempre exorbita para as amplitudes dos arredores mais vivos, explícitos e implícitos, dispondo dentro das frases as palavras afloradoras do dilema existencial nas situações contextuais do cotidiano das pessoas.

O texto de Matildes Demétrio dos Santos. “Paisagens de João Cabral - a Luz pelas Trevas e a Morbidez”, é, também, expositivo e esclarecedor, citando logo no primeiro parágrafo a opinião sobre o trabalho ensaístico de Maurice Blanchot, para quem a experiência literária é um desafio incessante e interminável, isso porque entre o pensar e o escrever “existe uma fenda”, um vazio aberto a multiplicar possibilidades, que o escritor tentará preencher. E logo na página seguinte a autora recorre ao poeta João Cabral de Mello Neto, para quem o ofício de escrever é uma agonia, da qual ele sempre sai suando, como se sob o jugo de uma baita picareta. Textualmente, ela conclui da experiência cabralina: “o poeta se apresenta como um personagem em movimento, buscando extrair da memória os sentidos de uma vida imaginária.” Outra tirada analítica (o que a autora faz da obra de João Cabral e da literatura em geral): “realidade e história ganham sempre contornos não habituais, extrapolando o referente... Os temas não se esgotam no livro. O escritor dá a impressão de que pode continuar, pois os mesmos assuntos passam de um fragmento para outro, emigram de livro para livro, com roupagens e sentidos diferentes, numa tensão jamais apaziguada, porque o poeta se recusa a sair de sua obra”. Não é um fechamento de artigo e sim uma abertura com chave de ouro. Falando da obra do poeta pernambucano, ela fala de toda obra literária de grande e belo valor. No texto de Fátima Salem Levy sobre a Morte, a partir de uma leitura do “diário de Kafka” sobressai uma citação do autor tcheco na página 428: “Não acredito que existam pessoas cuja situação interior seja análoga à minha; até posso imaginar que tais seres existam, mas que o corvo familiar gire sem cessar em torno de suas cabeças como ele faz em torno da minha, isso eu não posso conceber”. Na verdade as pessoas são todas iguais na desigualdade, não?

Livro muito bom, no geral. Demonstra e esclarece, literalmente e nas entrelinhas, que se morremos um pouco todo dia, isso acontece para alimentar a vida que nos resta. É como a lucidez que concebe e arremata o sonho: acende e apaga a luz para comprovar o lusco-fusco dos acenos da morte, sem os quais a vida não estará voltando para dar o ar da graça na ordem do dia de cada dia. Lélia sabe da distância e do alcance da ida e da volta nas viagens para dentro das noites e dos dias no prolongado cotidiano de todas as pessoas do mundo.