quarta-feira, novembro 01, 2006

A Poesia Bíblica

A POESIA BÍBLICA - Seleção e adaptação de Lázaro Barreto.


1 - Cântico das Subidas – Dos Salmos de David (*).

Na minha tribulação, clamei ao Senhor.
Levantei os olhos para os montes:
de onde me virá o socorro?
Levanto os olhos para Ti, ó Deus:
a minha alma, como o pássaro, escapou
do laço dos caçadores.
Quando o Senhor reconduziu nossos cativos,
parecíamos sonhar....
encheu-se de sorrisos as nossas bocas,
e nossos lábios de canções.

Os que nas torrentes do deserto
semeiam entre lágrimas,
ceifarão com alegria.
Vão andando e chorando nos ásperos caminhos.
Cantando de alegria voltarão,
carregando os seus frutos.

Se o Senhor não guarda a cidade,
de que adianta o desvelo da sentinela?
Quem no Senhor faz jus ao pão de cada dia,
o terá até de noite durante o sono!
Do mais profundo de mim, clamo a Ti, Senhor:
na Tua palavra espera a minha alma,
mais do que a sentinela espera o sol nascer.
Senhor, não ando atrás de glórias terrenas,
acalmei a minha alma....
Como um menino no seio de sua mãe,
como um menino de colo,
assim está a minha alma em mim.


Paráfrase dos Provérbios de Salomão (**).

Seis são as coisas que o Senhor agradece,
antes são sete as que comovem Sua alma:
o tatu que tanto gosta do buraco antigo,
os lotes de chuvas alternando os oásis,
os sentidos cheios de dúvidas no lirismo do dia,
o desenho da lesma na areia dos caminhos,
as cores nos bolsos, que logo viram luzes,
as bolhas dos mistérios que chovem nas pedras,
a alma que é corpo nas pessoas e nos pássaros.

Seis são as coisas que o Senhor aborrece,
antes são sete as que Sua alma abomina:
a pobreza de espírito, arcaica agora e depois,
a classe dirigente que só dirige para si mesma,
o governo nacional que nunca teve juízo,
os pés velozes que correm na direção do mal,
a violência das ruas que entra nas casas,
os deveres sem direitos dos excluídos sociais,
o caminho que volta, como o chicote do ímpio.


A Felicidade da Virtude (***).

O desejo do amor é a árvore da vida,
que deleita a alma.
O terno coração é a vida do corpo,
que deleita a alma.
A língua do justo é prata finíssima,
a do ímpio é lata velha amassada.
Uma boa palavra alegra
quem sofre de amargura.
Há quem ao falar fere como a espada
e quem ao ouvir cura as feridas.
Um anel de ouro no focinho do porco:
tal é a vaidade com o nome da beleza.
O que é bom germina como a folhagem verde,
o que perturba a casa não terá senão ventos.
A boca do amor será constante no amor:
sabe que mais vale comer legumes
com prazer e gratidão e amor
do que novilho gordo com ódio.
O que é doce no falar é mais doce no ouvir:
já o amigo dos litígios,
esse é como um telhado a gotejar sem parar.
Quem dá aos pobres empresta a Deus,
mas o pão roubado enche a boca de areia.
O pensamento é no coração uma água
profunda:
sábio é quem consegue trazê-la à superfície.
Assim como na água o rosto responde ao rosto,
assim o coração de uma pessoa responde ao coração
de outra pessoa.
Melhor é estar jogado num canto do terraço
do que nos braços do amor sem tempero.
Quem guarda a língua na boca
preserva a alma das angústias.
Pobre de quem passa o dia a desejar,
tendo nas mãos o bicho da preguiça.
Assim o preguiçoso está a dizer:
“tem um animal feroz lá fora,
se sair de casa serei morto na rua”.
A boca que produz os melhores frutos,
esta comerá os frutos mais deliciosos,
assim retribuídos pelas mãos habilitadas,
pois que uma vez para sempre foi dito:
assim como a água responde ao rosto,
é assim que um coração responde
a outro coração.


A Sagrada Cantoria dos Salmos.

Quando contemplo os Teus céus, obra dos Teus dedos,
exclamo: o que é o homem, para Te lembrares dele?
Tu o fizeste pouco inferior aos anjos,
deste-lhe o mando sobre as obras de Tuas mãos....

Por que te deprimes, minha alma,
por que te conturbas dentro de mim?

Inclinarei meus ouvidos ao provérbio,
resolverei meu enigma ao som da lira.

Quando Israel saiu do Egito,
o mar viu e fugiu,
o Jordão voltou suas águas,
os montes saltaram de alegria como carneiros
e as colinas, como cordeiros....

Treme, ó terra, diante da face do Senhor!
Haverão de te levar nas mãos Dele,
a fim de que teu pé não se fira nalguma pedra:
passarás sobre feras e serpentes,
pisarás sobre espinhos e estrepes,
incólume.
Não sofrerás o medo do terror noturno,
nem da afiada seta que voa durante o dia,
nem da peste que vagueia nas trevas,
nem da calamidade que devasta os tempos aziagos.
Como um menino no seio de sua mãe,
assim está a minha alma em mim.

NOTAS:
(*) – Montagem com pinçagens e adaptações no conjunto dos Salmos, do de número 129 ao de número 130. Do Antigo Testamento, traduzido pelo Pe. Matos Soares e publicado no Porto, Portugal, em 1955.

(**) – Com base no capítulo 6, versículos 16 a 19, do Livro dos Provérbios de Salomão, obra citada.

(***) – Arranjo sinóptico de duas coleções dos Provérbios de Salomão, da cap. 10.1 ao cap. 27.19. Obra citada.

(****) – Uma aglutinação aleatória (licença poética?) dos Salmos de David.