quarta-feira, setembro 27, 2006

O Choque das Gerações

OS CHOQUES DAS GERAÇÕES (*) - Lázaro Barreto.


O escritor Norman Mailer já dizia em 1968 que a juventude daquele tempo era imprevisível e que a melhor coisa que podia dizer sobre os jovens é que não os entendia: “Não sou vinte anos mais velho que eles, mas cem anos”.Isso ele confessava à Oriana Fallaci, numa entrevista. E agora, trinta e cinco anos depois? A imprevisibilidade continua, a diferença de comportamentos entre as gerações, também. Infelizmente o conceito de remoçamento hoje não é mais uma gratificação. O sadismo, antes apanágio dos malvados e malditos, é hoje uma conspiração vitoriosa na sociedade humana e afeta, impinge e modela o caráter da juventude, principalmente a masculina. Qualquer adulto sente o pé atrás, o preconceito e a má-vontade do jovem em relação a ele. O mundo é mais deles, eles pensam. São maioria, mas uma maioria desprotegida dos pretensos donos da vida, os adultos; uma maioria liberada e entregue ao deus-dará deles mesmos. E o que vemos e sentimos é que eles estão ganhando terreno no confronto. O que vemos e sentimos é que cada adulto dá passagem ao jovem, como pedestre na rua e como motorista, na estrada. Isso porque o adulto, principalmente o idoso, está morrendo de medo não do jovem em si, individualizado em sua suscetibilidade, mas dos jovens armados de insolentes instintos tribais dos grupos bairristas e das gangues etárias. E tudo isso assim sem mais nem menos, gratuitamente?

Gratuitamente não,é claro. O sonho, a esperança,o otimismo, tudo o que constituía sua bagagem, pulverizou-se no reiterado niilismo evaporador dos paradigmas ideológicos. O desbotado tecido da vida social esgarça-se na trepidação nebulosa dos sentimentos insatisfeitos, das vocações goradas. E sem a projeção do futuro, que virou uma saraivada de irrespondíveis perguntas, o jovem em si e mesmo em grupo recusa caranguejar, estatelado na voragem de um passado para ele mal-sucedido, que vira e mexe defronta-o na cortina de ferro de um capitalismo mais mafioso do que a própria Máfia. Assim, estatelado, ele sente a falta de uma força que possa escoimar, exorcizar e desintoxicar as excrescências de uma civilização que derrota as essências poéticas da vida neste atual mundo de atribulações e guerras.

Não podemos fechar os olhos à verdade dos fatos. Mesmo a imprensa mais oficialista e marrom do País ficou chocada com o que aconteceu em São Paulo, onde cinco jovens agarraram, prenderam, sujigaram, abusaram e assassinaram o casal de namorados, com os requintes de crueldade que nem os piores demônios do inferno seriam capazes de conceber e praticar. Uma atrocidade assim estava acima da previsibilidade mais sombria e pessimista?Sei não, mas parece que há uma máfia mefistofélica por trás de tanta brutalidade, tentando surrupiar a utilidade dos incautos. Tenho em casa um massudo compêndio de indicações de fitas de vídeo produzidas nos EUA, de arrepiar os cabelos: em cada lote de dez fitas, no mínimo sete ou oito são de filmes de ação, endereçados à juventude, nos quais os seres humanos têm em vez de mãos, garras, e nelas toda sorte de armas brancas e de fogo, furiosas e velozes.

Temos de reconhecer que a incompatibilidade etária de nosso tempo é talvez a mais aguda de todos os tempos. Os mais novos estão carregados de prevenções contra os mais velhos, e estes não atinam com a razoabilidade das arengas, uma vez que no tempo deles (os mais velhos) a respeitosa admiração (meritória ou não) pelos pais, tios, avós, era um procedimento comum, tácito, consagrado em toda conjuntura social. Se o mundo está assim é porque vocês o fizeram assim, - é o que diz o mais novo para o mais velho. E na verdade, nós, mais velhos, temos mesmo que pôr a mão na consciência. Somos portadores de uma culpa atávica, cada vez mais engrossada e intensificada com os novos erros, inclusive os das promessas eleitorais, a criação de dez milhões de empregos convertida na criação de mais de um milhão de desempregos. Mas vamos ficar por aqui senão a coluna vira uma diatribe de pregador de apocalipse. Vamos, pois, dar uma guinada, e citar o sempre jovial Apollinaire: “A palavra de Cristo é o belo lírio que cada um de nós carrega”. E também relembrar a frase de Giuseppe Verdy, em 1870, que Barthes recunhou em 1980: “voltemo-nos para o passado: será um progresso”.

(*) – publicado no jornal “Magazine”, semanário de Divinópolis, MG , em 27 de dezembro de 2003.