sábado, abril 18, 2009

SHAKESPEARE E HITCHCOCK - Lázaro Barreto.

Ao Paulo Henrique Belém Barreto.


Ao longo do tempo o Cinema tem possibilitado a ascensão cultural de incontáveis criadores artísticos, colegas, por assim dizer, de outros trabalhadores da humana expressão, resultantes da mesma forja que revelaram (e revelam) as obras primas literárias, musicais e plásticas.. Não é, pois, exagero dizer que o Cinema tem os seus Da Vinci, Chopin, Cervantes e Guimarães Rosa. Nesta linha de raciocínio posso atrelar no mesmo gancho criador as figuras exponenciais de Shakespeare e Hitchcock (ambos ingleses), o primeiro trabalhando a palavra e com ela criando o conceito e a imagem da vida e do mundo, e o outro, trabalhando com outros instrumentos a mesma dualidade expressional para debulhar os conceitos e as imagens da vida e do mundo. Apesar das óbvias diferenças, creio que o peso da importância no imaginário e na vivência do leitor e do espectador é o mesmo. Em suma: Shakespeare é o meu autor predileto entre os escritores e Hitchcock, entre os cineastas. Ambos são completos no manejo da técnica a favor do discorrer da mente e no emprego da inteligência a favor da imaginação, sendo esta a página de verso da realidade. Isso no começo, no meio e no fim de cada trabalho, do impacto que imprime o ritmo à continuidade da tônica estilística até ao desfecho da arte final, que é metade sombra, metade luz – advindo, assim, o nosso conhecido gosto do “quero mais” da admiração e do enriquecimento intelectual do leitor e do espectador.

Bibliografia Sumária de William Shakespeare. De 1590 a 1613, ele escreveu e certamente encenou (como ator e diretor) as seguintes peças teatrais, pela ordem cronológica: Henrique VI, Ricardo III, A Comédia dos Erros (que lí), Tito Andrônico, A Megera Domada (li), Os Dois Cavalheiros de Verona, Romeu e Julieta (li), Ricardo II, Sonho de Uma Noite de Verão (li), O Rei João, O Mercador de Veneza (li), Henrique IV, Muito Barulho Por Nada (li), Henrique V, Júlio César (li), Noite de Reis (li), Hamlet (li), As Alegres Comadres de Windsor (li), Troilo e Crescida, Bem Está O Que Bem Acaba, Medida por Medida (li), Otelo (li), O Rei Lear, Macbeth (li), Antônio e Cleópatra (li), Coriolano, Timão de Atenas, Péricles, Cimbelino, Conto de Inverno (li) , A Tempestade (li), Henrique WIII (assisti, encenada num teatro em São Paulo). Escreveu ainda os imortais Sonetos, que tenho a felicidade de ler e reler e saborear constantemente nas primorosas traduções de Ivo Barroso e Fernando Pessoa..

Filmografia Sumária de Alfred Hitchcock. De 1926 a 1939 ele criou (e não apenas dirigiu) 14 filmes na Inglaterra, dos quais apenas vi “Os Trinta e Nove Degraus”, “O Marido era o Culpado”, A Dama Oculta”. Dos trinta que dirigiu nos Estados Unidos, depois de 1940, só ainda não vi, mas espero ver: “Um Casal do Barulho”. Os que vi (e adorei) são: Suspeita, Um Barco e Nove Destinos, Agonia de Amor, Rebeca, a Mulher Inesquecível, Correspondente Estrangeiro (que gostaria de rever mas não encontro o dvd nas locadoras), Sabotador, A Sombra de Uma Dúvida, Quando Fala o Coração, Interlúdio, Festim Diabólico, Sob o Signo de Capricórnio, Pavor nos Bastidores, Pacto Sinistro (já vi três vezes), A Tortura do Silêncio (que também gostaria de rever), Disque M Para Matar, Janela Indiscreta (já vi três vezes), Ladrão de Casaca, O Terceiro Tiro, O Homem Que Sabia Demais (gostaria de ver pela terceira vez), O Homem Errado, Um Corpo Que Cai (já vi três vezes), Intriga Internacional, Psicose (já vi três vezes), Os Pássaros (também três vezes), Marnie – Confissões de Uma Ladra, Cortina Rasgada, Topázio, Frenesi e Trama Macabra. Posso afirmar, em sã consciência, que ele não apenas dirigia, mas criava, mantendo-se fiel a um estilo pessoal de planejar e executar uma obra coesa e brilhante, inteligente e instigante, fiel a si mesmo, ao espectador e à cultura humana, no que ela tem de auspicioso, realístico, pujante e encantatório. O suspense uma de suas variáveis estilísticas, foi notadamente imitado por muitos cineastas, mas jamais igualado em termos de perícia e persuasão instantânea. Era o mestre de si mesmo e dos outros, do começo ao fim de sua profícua carreira.

Ilações Shakespeareanas:
A emoção que faz voar do peito o coração. A noite acorrentada aos abismos. A arte desperta dos túmulos os que neles repousavam e que, abrindo-os, deixavam-nos sair para uma nova vida. Assim Próspero (personagem de “A Tempestade”) cria os seres sobrenaturais enquanto escreve um livro através do qual o que imagina torna-se realidade.
Somos feitos dos mesmos fios de que se tecem os sonhos.

Em “Sonho de Uma Noite de Verão”, um ator representa o luar e outro um muro. Só quem está feliz pode ouvir uma dissonância mais musical do que a do harmonioso trovão. O amor faz a noite dourar-se mais que os olhos de luz do firmamento. As negras liberdades da virtude. O céu está em minha boca que só sabe mastigar o nome da amada. Seus olhos são luzes que enganam a aurora. Dois versos de um soneto traduzido por Ivo Barroso: “saibas ler o que o mudo amor escreve,/ que o fino amor ouvir com os olhos deve”. O mundo é um palco: os homens e as mulheres são meros artistas que nele entram e saem.

Apreciações Htchcockianas:
O trabalho dele (além de eliminar explicações desnecessárias), utiliza todo o instrumental fílmico para projetar a ação vivencial dos personagens inseridos ao enredo, sem o menor sinal de preguiça, sem desperdiçar um minuto sequer da atenção do espectador no decorrer das cenas umbelicalmente interligadas ao fluxo narrativo da história que está sendo contada, não de forma meramente didática ou espalhafatosa, mas sim com todos os detalhes interligados na fluência conjuntural. De tal maneira que para ele, Hitchcock, não pode haver nada desprezível no contexto da obra: nenhum ator ou atriz é ruim, todos se integram no clima proposto, nenhum resvala para a inutilidade em nenhum momento. Nas pausas entre um impacto e outro, ele preenche o possível vazio com gestos e falas: ninguém escorrega aqui ou ali. A câmera subjetiva dele (segundo o crítico Edward Buscombe) busca um foco de interesse, que pode ser o ator procurando algo nas gavetas da mesa ou do armário, ou a atriz dando o ar da graça num trejeito físico de efeito moral. O espectador se adentra no enfoque, não sente o tempo passar – e quando o filme termina, ele sente que queria mais, que gostaria de rever o cenário, as pessoas, os acontecimentos. O dinamismo contextualizado é isso – algo bem diferente e muito mais precioso do que exorbita e entope e sobrecarrega a batelada de filmes de ação produzidos nos últimos decênios como se fossem artefatos de consumo momentâneo.

Criador de atmosferas dramáticas e de trágicos suspenses com ocasionais e patéticas evocações sobrenaturais, sua obra foi “alvo de inúmeras imitações, homenagens e releituras”, segundo Kim Newman, por muitos diretores criadores de nossos dias, como Brian de Palma, Steven Spielberg e Terry Gillian. É um cinema que tem consistência e encantamento. A dinâmica do acontecido na fixidez do acontecendo.