quinta-feira, abril 09, 2009

OS RETALHOS DO TECIDO VI - Lázaro Barreto.


Reminiscências.

Revolução segundo Gilles Pentecorvo, autor do filme “A Batalha de Argel”: difícil é começá-la. Mais difícil é lhe dar seqüência. Mais difícil é conseguir vencer todos os obstáculos. E depois vem outra dificuldade ainda maior: conseguir a realização dos objetivos propostos. Na época do desenrolar dos acontecimentos (1962) a situação política da França não aceitava Sartre como solidário e menos ainda como oposicionista. O filme tem roteiro e diálogos concisos, implacáveis. A luta pela liberdade honrosa contra a dominação desonrosa. Liberdade, orgulho, independência – palavras uníssonas do povo nas ruas, no final da revolução sangrenta, quando então nasce a bela e querida nação argelina.

Sentimentos.

Quando o corpo emocionado até arrepia, ah, é o sinal que a alma está bem viva e feliz dentro dele. Mas se você foi submetido a um implante de dentes, que não lhe permite comer nem falar direito, ah, esqueça de Deus e do Diabo. Você é apenas um cara constrangido e infeliz. Só muito depois de se acostumar com as ferraduras na boca é que voltará a respirar e a sorrir, sabendo, outrossim, e por conseguinte que o final de um desejo é o começo de outro desejo.

Disfunção Pública.

No atual (que já parece eterno) governo petista, os funcionários (não confundir com os trabalhadores) públicos nadam de braçadas. Acreditam piamente que todos os dinheiros arrecadados dos impostos são exclusivamente para remunerar a preguiça e a improdutividade deles. Só o Judiciário (sobre o qual até então não pesava tanta acusação de improbidade) no Estado de Minas gastou 1,7 bilhão de reais em 2008, sendo que 94,4% foram gastos com os funcionários, (assim está em letras garrafais na primeira página do jornal HOJE EM DIA, de 0910402009).

Millôr Sempre Melhor.

“Está bem, Deus é brasileiro. Mas para defender o Brasil de tanta corrupção isso só colocando Deus no gol. ( ) Acho que se os animais falassem não seria conosco que iam bater papo. ( )...A televisão brasileira enfrentará terríveis dificuldades – como já esgotou o estoque de tolices, vai ter que apelar para a inteligência. ( ) Acho a árvore, sobretudo a mangueira, a coisa mais civilizada do mundo. Mas a árvore mais importante, devo reconhecer, é a genealógica. Que nada tendo de lógica, é a de raízes mais profundas. E que dá mais galhos.( ) Pode ser engano, mas, pela situação do mundo, parece que o leite da bondade humana azedou de vez. ( ) Brasília é o desnecessário tornado irreversível. Brasília prova: os países também se suicidam. ( ) Eu não nasci pra viver, mas pruma coisa muito melhor, que ainda vou descobrir o que é. ( ) Collor não tem aquilo roxo, como é pau pra toda obra, sempre com o Cooper feito (1991). ( ) Os comunistas remanescentes continuam não admitindo que idéias não usadas também enferrujam. ( ) Se agir com dignidade e probidade, você não melhorará em nada o mundo – mas haverá na terra um canalha a menos. ( ) Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil”.

Aurora, o Filme (de F. W. Murnau – 1927).

A canção em dueto do homem e da mulher pode ser ouvida em toda parte do mundo. E o sorriso da aurora docemente amargo, amargamente doce. Cores e sons, abraços e adeuses, as nuances e os clarões da escuridão nos momentos e nos lugares onde viceja a necessidade do amor entre os sexos. Nas margens, incógnitos, brilham e escurecem a graça e a desgraça, o beijo mortal da intemperança, o veneno dentro da maçã, o distúrbio inteiramente nublado de uma melindrosa aurora. A dúvida espouca no ar como uma bolha: o amor pode engendrar um crime? É capaz de cometer o pior dos males? A cena é dolorosa até para o cão amarrado no esteio da porteira. Depois, na execução do plano maléfico, as águas pesavam nos remos cúmplices. Os sinos de todas as igrejas do mundo tocam sobre a impensável tentativa do homicídio e sob o arrependimento na hora fatal. Sentimos então que a vida é mais importante que o amor e que o amor é mais importante que a morte. Aí a pureza vence o pecado e a lágrima, que era a flor da vítima torna-se na dor do algoz. A reconciliação dos cônjuges acontece aos pés do altar da fé no amor da verdade e da beleza, eternas. E assim os dois, atrapalhando o trânsito dos apressados, foram felizes para a vida em comum de todo o futuro deles. A própria escuridão fica verde e azul, com os respingos dourados. Depois da tempestade vem a bonança, depois do negrume estarrecedor vem a aurora ensolarada.