sábado, março 28, 2009




ENCONTROS COM FRANCISCO IGLÉSIAS. - Lázaro Barreto.


Ícone emblemático da cultura mineira, autor de “Historiadores do Brasil”, “Trajetória Política do Brasil”, outros livros e tantos textos ainda não reunidos numa publicação mais coesa, ele deixou-nos a inesquecível lembrança de uma pessoa transcendente, ou seja, que estava sempre adiante do que escrevia e do que vivia entre amigos, leitores e familiares do dia-a-dia. Um historiador que era, sobretudo, um escritor? Um escritor que era, sobretudo, um ser humano, sobremodo humano, surpreendente nos atos, nos escritos e na conversação? Estive pessoalmente com ele três vezes. A primeira foi num jantar na Casa dos Contos, de Belo Horizonte, numa homenagem que os intelectuais mineiros fizeram ao poeta Roberto Fernandez Retamar, então Ministro da educação na Cuba de Fidel Castro (um impostor que nunca me enganou). Lembro-me que ficamos frente a frente na ponta de uma mesa comprida, de tal maneira que pudemos conversar longamente sobre as minhas dúvidas referentes à História de Minas e às certezas dele sobre o mesmo assunto. É assim que o bom aluno, diante do bom mestre, aprende, não?

A penúltima vez foi na residência dele, onde fui levado pela poeta Lélia Coelho Frota (então Diretora da FUNARTE) e pela antropóloga Maria Laura Viveiros de Castro (então Diretora do Instituto Nacional do Folclore). As duas, mestras especializadas em cultura popular, contrataram-me para realizar uma pesquisa sobre a Cultura Popular de Minas Gerais, e queriam convidar o Professor Iglesias parasupervisionar o nosso trabalho. Ele foi muito gentil e atencioso, abdicou da incumbência alegando estar, então, comprometido com outro trabalho. Mas a conversação que mantivemos com ele serviu de orientação – e até mesmo prescindimos, depois, de qualquer supervisão para realizar o trabalho, que foi integralmente aprovado para publicação na editora da UFMG (que não chegou a ser concretizada porque a verba da FUNARTE perdeu-se com a sumária extinção dela pelo então presidente Collor).

A primeira vez que tive o prazer de encontrá-lo foi em Pirapora, junho de 1969, no Segundo Festival de Poesia, promovido pelo Clube Literário Inácio Quinaud e a Prefeitura Municipal,órgãos do Município. Festival que desdobrou-se em três dias e noites, com lançamentos de livros de Affonso Ávila e conferências de Francisco Iglesias, Ângelo Osvaldo de Araújo, Laís Corrêa de Araújo e Rui Mourão.

Tenho em mãos a resenha que na época escrevi e publiquei no Jornal Literário AGORA, de Divinópolis, sob a rubrica de “Desfile Alegórico”, que aqui reproduzo, em parte: “O ponto alto do Festival, uma verdadeira aula de literatura brasileira, reunindo os alunos dos colégios e dos grupos escolares da cidade, devidamente caracterizados com os figurinos e adereços, representando os AUTORES E PERSONAGENS DA LITERATURA BRASILEIRA, DA FASE COLONIAL Á DO POEMA PROCESSO. Assim, juntamente com todo o povo da domingueira manhã daquela pitoresca cidade, vimos: o Padre Anchieta com os Jesuítas e os Índios, os Árcades da Inconfidência Mineira e suas musas,os expoentes do romantismo (Castro Alves, Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo etc), os indianistas (Gonçalves Dias, José de Alencar), os realistas (Machado de Assis, Lima Barreto, Raul Pompéia), os simbolistas (Cruz e Sousa, Alphonsus Guimarães), os parnasianos (Olavo Bilac, Alberto de Oliveira), os modernistas (Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Murilo Rubião).

Acompanhando cada bloco e devidamente caracterizados, as moças e rapazes, meninas e meninos, representavam Iracema, Isaura, Capitu, Moreninha, Braz Cubas, Clara dos Anjos, Moça Fantasma, as Três Moças do Sabonete Araxá, Macunaíma, o Ex-Mágico, o Padre e a Moça, os escravos e os coronéis, os retirantes, os símbolos das lendas e dos mitos do imaginário popular transcritos na literatura. E outros blocos igualmente merecendo os entusiásticos aplausos da multidão: Ismália quando enlouqueceu, Marilia de Dirceu, Bárbara Heliodora, Riobaldo Tatarana e Diadorim (a cavalos, seguidos por Miguelim), tudo satisfatoriamente representado na airosa manhã daquele domingo piraporense projetado pelo esforço e bom gosto de Domingos Diniz e os poetas Ivan e Argelce Motta”.

Todo o belo espetáculo inspirado na criatividade literária do trabalho histórico de nosso saudoso e para sempre benquisto Francisco Iglesias. Que a mais aprazível eternidade o tenha, carinhosamente.

(resenha inserida no blog: http://lazarobarreto.blogspot.com).

1 Comments:

Blogger Lazaro Barreto said...

Há um erro de data no começo do texto: onde consta a palavra "a primeira", seguida da palavra "vez" precisa ser trocada pela palavra "ultima", seguida da msma palavra "vez". Corrigidenda do autor Lázaro Barreto.

5:00 PM  

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