sexta-feira, junho 05, 2009



O CARNAVAL em seus múltiplos planos (*) – Lázaro Barreto.


A leitura do livro organizado por Maria Laura Cavalcanti e Renata Gonçalves reafirma, a meu ver, uma das constantes comportamentais do brasileiro: descontraído, às vezes inibido e até insípido, irreverente e malicioso, descompromissado, expansivo e ao mesmo tempo recalcado, desnutrido de outras complacências na maior parte do tempo – e mesmo assim sabe, naturalmente, aproveitar a licença poética da carnavalização periódica que tanto o influencia, mesmo na dureza do cotidiano de toda sua vida. Exemplo da perfeita descontração narrada na letra do samba de Assis Valente:
“Vestiu a camisa listrada e saiu por aí.
Em vez de tomar chá com torrada, ele tomou Parati.
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão,
e dizia pro povo que sorria: “Sossega Leão, sossega Leão!”
Tirou seu anel de doutor para não dar o que falar.
Saiu dizendo: “Mamãe eu quero mamar, mamãe eu quero mamar,
mamãe, EU QUERO MAMAR!!!”.

Na Apresentação das Organizadoras, lê-se na página 10: ( nas mãos do carnavalesco) “o rito trabalha – agrega, desagrega, transforma e reagrega pessoas e grupos; inverte, relativiza ou acentua papéis sociais; suspende, transcende ou espelha, ainda que de modo distorcido, valores críticos. (...) O problema dos rituais, já nos dizia Marcel Mauss, conduzindo-nos ao cerne da vida simbólica, é o da multiplicidade dos sentidos simultâneos”. Depois de um necessário retrospecto até o século XIX dos festejos de Nice, de Nova Orleans e de Montevidéu, calcados em bases lúdicas e musicais como também turísticas, os autores assumem o trabalho de esclarecimento dos cruciais e gloriosos caminhos do carnaval carioca, sem duvida alguma o mais movimentado e cultuado do mundo. Toda a relevante e extensiva temática da estética multifacetada, dos influxos recíprocos entre as culturas tradicionais e hegemômicas, as glosas épicas e os esquetes cômicos, tudo que paira no ar da festividade passa no crivo dos autores: as decorações de ruas e de salões, os préstitos prenunciando a expansão das Escolas de Samba, as generalidades e os pormenores, os adereços e a uniformidade. Foi a partir de 1982 que as decorações das ruas assumiram o grandioso, o por assim dizer fabuloso espetáculo do Sambódromo. Surge então o tempo risonho e festivo, de tolerância e renovação no qual, segundo Roberto DaMatta, “o mundo parece abrir mais portas do que aquelas pelas quais efetivamente podemos entrar”.

“A cidade do Rio de Janeiro tem, em suas Escolas de Samba, um importante ponto de convergência e sociabilidade de diversificada amplitude” – afirma Nilton Silva dos Santos, na página 153. O equilíbrio entre a leveza e o pesado, o samba em pé e o visual das alegorias e fantasias, deixa o espectador atônito, embevecido, cheio de risos no coração e aplausos nas mãos. “Os passistas são, ao mesmo tempo, mágicos ou invisíveis, estrelas ou coadjuvantes” (pág. 195). “As mulheres devem sambar na ponta dos pés e rebolar muito, elas não devem pular nem colocar a mão no chão para enfatizar sensualidade. Os homens sambam com o pé inteiro no chão, até mesmo com os calcanhares, podem executar malabarismos no solo, mas não devem rebolar, sublinhando agilidade e destreza” (pág. 207). “O samba é o tempo de cantar e de dançar as mágoas da desilusão amorosa ou de dificuldades conjugais de modo festivo” (pág. 214). “Ao se fazer contente, quem samba pode tornar o outro feliz também” ((pág. 216). “A principal característica do samba do passista é a vivência da tensão entre a contrariedade e a alegria, criando ambigüidades de intenções e sentidos, ao mesmo tempo em que cria potencialidades de relacionamento” (pág. 217).

Renata de Sá Gonçalves afirma com a mais lídima propriedade, na pág. 223: “Técnicas corporais distintas compõem um repertório coreográfico que engloba todos os passistas, os casais e mestre-sala e porta-bandeira, a comissão de frente, as ritmistas, as baianas, os componentes das alas coreografadas, além dos demais integrantes, como os diretores da harmonia, que gritam, organizam e brincam o carnaval”. Em cima dos suntuosos carros alegóricos, voltados para a visualidade e a exuberância posicionam-se os “destaques, com fantasias e esplendores grandiosos”. Ronald Caly dos Santos Ericeira, na pág. 254, fala sobre a preeminência dos sambas-enredo: “percorrendo a bibliografia disponível observo que os sambas-exaltação ainda não foram examinados atentamente pelos pesquisadores acadêmicos ou folcloristas”(...) “Tinhorão (1997) cita a marcha-rancho, a batucada, o batuque, o samba-canção e a bossa nova como variações que aconteceram no ritmo original do samba a partir dos primeiros anos da década de 1930. Em suas assertivas, cada segmento social teria adotado predileções por um estilo de samba: os negros e suburbanos pelo samba do morro, que abrange o samba-enredo; a classe média baixa pelo samba de gafieira; e as camadas altas e eruditas pelo ritmo romântico do samba-canção. O autor não menciona o samba-exaltação como um subgênero do samba”.

A fonte de financiamento da preparação das 12 Escolas do Grupo Especial para os desfiles no Sambódromo é exemplificada nas páginas 106 e 107: vendas de ingressos, 57%; transferência do governo, 21%; contratos a crédito (contabilizados), 11%; contratos a créditos (não contabilizados), 11%. Nas páginas 191 a 123, a antropóloga Maria Laura expõe detalhadamente o assunto no capítulo “Festa e Contravenção: os Bicheiros no Carnaval do Rio de Janeiro”. Possuída do descortino e da acuidade que tem demonstrado em seus trabalhos sobre a cultura popular brasileira, ela aborda “o sentimento de desconforto geral diante da inédita denúncia” (de que) “uma das grandes escolas de samba teria subornado jurados do desfile de 2007”. (...) “Mais do que isso”, ela acrescenta, “essa suspeita dera origem a uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara de Vereadores do Município, a CPI do Carnaval, e acoplava diversos problemas de ordem criminal extra-festiva”. O texto da página 92 e seguintes fala do “sujo na festa da beleza, do sério na festa da brincadeira, entrando numa zona em que o perigo, que é sempre também simbólico, torna-se mais ameaçadoramente real”. O texto fala também da “profunda ambivalência provocada pela ostensiva presença, a um só tempo produtiva e poluidora, da rede clandestina do jogo do bicho no carnaval carioca”. A autora, em destemido posicionamento intelectual, vai fundo no esclarecimento dos meandros escusos dessa organização criminosa, expondo à luz da verdade comprovada pela CPI o que na treva medrava, obscurecendo o belo renome de uma já histórica manifestação popular (de tão fina arte, de tão arraigada cultura legítima, de tanta contaminação efusiva de reconhecido valor estético que visa alcançar a beleza e a verdade do ser humano subjugado ao longo do tempo às intempéries de um realismo às vezes difícil de assimilar). Trabalho assim fiel à verdade dos fatos e à beleza dos sonhos merece os mais calorosos aplausos da imensa parte da população que ama a arte popular e que é amada por seus honestos e verdadeiros produtores.

(*) – Autores do livro publicado pela Aeroplano Editora (FAPERG) Rio de Janeiro, RJ, 2009, organizado por Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti e Renata de Sá Gonçalves. Ambas participam da coletânea com os textos supra mencionados. Os demais participantes são: Felipe Ferreira, autor de diversas obras sobre o carnaval; Fred Góes, idem, idem; Liliane Guterres, idem, idem; Helenise Monteiro Guimarães, doutora em artes visuais; Ricardo José de Oliveira Barbiere, mestrando em antropologia; Nilton Silva dos Santos, doutor em antropologia; Aline Valadão Vieira Gualda Pereira, mestre em artes; Simone Toji, mestre em antropologia; Ronald Clay dos Santos Ericeira, doutorando em antropologia; Gabriela Cordeiro Buscácio, mestre em história; Nilton Rodrigues Júnior, doutorando e mestre em antropologia.