terça-feira, junho 09, 2009

O OPERÁRIO DESEMPREGADO (*) - Lázaro Barreto.


“Deus fez o homem à sua semelhança; Ele o criou à sua própria imagem” – Gênesis 1-27.

Vergado ao peso dos ásperos tempos, ele se vale da ferramenta que é o seu corpo e fita, desencantado, o vazio circundante. A velhice prematura desfigura-lhe o rosto, que sofre a invalidez das pernas e das mãos desocupadas. Quem terá sido o consciente malfeitor que sufocou sua indignação, qual foi a máquina que assim o amansou no curral de sua mísera favela? Quem é o responsável por descolorir os olhos de sua esposa e de seus filhos indigentes? Quem apagou o antigo clarão de sua mente, agora tão esbodegada?

É esse o ser que Deus criou para espelhar a beleza de Sua imagem, a verdade de Sua semelhança? Para proteger os elementos da natureza e no caminho das estrelas aventurar-se? É essa a criatura destinada a captar o tempo e esgotá-lo, sem esgotar-se? É esse o sonho de Deus, que virou o pesadelo de Deus?

Da sacada ao último vórtice do inferno não há visão mais terrível do que essa, mais prenhe de denúncias contra o erro, mais prenhe de maus presságios contra o abuso, mais prenhe de ameaças contra o mundo inteiro. Um abismo se abre entre ele e Platão. O que vale o frêmito das plêiades em face ao atual desamparo e desemprego e luta inócua dele, pobre coitado? O que vale o rasgo fosforescente da aurora, a gestação poética das rosas num jardim a ele hoje interdito?

Por esse vulto sem aura os tempos repressivos espionam. E, esquálido a lutar contra o imobilismo, ele é o exemplo cabal da morte em uma vida assim inerte. Por seus lábios murchos e descorados, toda a humanidade traída e deserdada clama surdamente aos juízes da terra, um clamor com o timbre da profecia ameaçadora.

Ó empresários e políticos de toda parte: o fruto de vossa gestão administrativa é esse homem encarquilhado, tão desfigurado ao desqualificar-se? Quando devolvereis a esse trapo vivo a humanidade, a esses olhos mortiços a luz, a esse espírito abatido a substância? Quando a música entrará de novo em seus poros e o sonho em seus desejos, desagravando as infâmias, as perfídias, as desgraças? Ó especialistas do enriquecimento ilícito, ó puxadores do cordão da corrupção institucionalizada: como o futuro se dará com o pauperismo desse tipo de servilhismo tão sub-humano, quando com ele, no crepuscular apocalipse, se defrontar? Que respostas terá para suas perguntas quando o desespero mover sua revolta? O que estará reservado aos privilegiados de hoje (os mesmos que o reduziram à última baixeza de seu atual estágio), quando esse homem, rompendo o mutismo secular replicar bem alto, com a força que ainda lhe restar?

(*) - O texto acima é uma versão em prosa, em termos de paráfrase, do poema “O Homem Com a Enxada”, que Edwin Markhan (1852-1940) escreveu, depois de ver o quadro famoso (de título idêntico) do pintor francês Millet. A tradução do poema em língua portuguesa é de Oswaldino Marques, publicada na edição bilíngüe de “Poemas Famosos da Língua Inglesa”, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, RJ, 1956.