domingo, junho 07, 2009

O DIA DESTRUIDO - Lázaro Barreto.


O dia ignóbil chega aos becos do arraial.
Traz em seus ponteiros o enfeitiçado que vomita bílis,
torresmos, rãs e cavalos de maminhas.
E também as aldongas e domingas com seus ungüentos
e poções e ervas daninhas orvalhadas, que curam
quebrantos e maus-olhados,
em troca de rapaduras, mocotós e algumas zombarias....
Logo depois um dos gaviões da umbela leva nas garras
a casinha de bambus da Viúva Odete.
Uma flor regada no sereno
espeta as pétalas
nos mastros de cocanha dos rituais do Reisado.

O possesso, que vomitava capim azul e farelo de madeira
sobre o pragmático segmento social
do reles arrivismo,
estaria a vituperar o imperialismo das republiquetas
latino-americanas.
Ou a escoimar acintosamente
os sortilégios dos adivinhos, com açoites e baraços?
No açougue da rua principal do arraial a rês e o suíno
esquartejados
(pendentes em ganchos como asas sinistras),
exibem debaixo das vísceras e em torno das gorduras
e do sangue derramado
os fariseus contando suas trinta moedas....

No pináculo da glória nefasta, resultou, cabisbaixo,
o dia ignóbil no ruado agreste do arraial,
no estreito formato de uma estrela vermelha
a chover os fogos das lágrimas e dos suores
dos falidos amores de uma antiga paixão.