domingo, junho 07, 2009

VOCAÇÃO POÉTICA - Lázaro Barreto.


Às vezes
num dos momentos mais endurecidos do ineditismo,
o escritor preterido pela mídia contemporânea,
cansa de tanta masturbação mental,
pergunta a si mesmo se não seria preferível
ir para a roça plantar batatas em vez de acumular
versos em pilhas de estrofes, arquivar
(soterrar) originais impublicáveis....

A pergunta fere os brios,
cala fundo no desgosto do amor próprio.
O que então fazer com as caudalosas palavras,
o estro afinado,
a inspiração sempre à flor da pele?
Jogar os brindes em forma de poemas na lixeira?
Embasbacar, enrustir, coçar o saco e a cabeça?

Engolindo a contragosto as irônicas interrogações,
o ingênuo peregrino do amor não-correspondido,
trepa nas tamancas da indignação e decide:
nada de desistir no meio do caminho,
nada de apagar a chama dos olhos
diante de uma paisagem instigante.

Nada de desistir depois de tanto caminho andado.
Se você plantar os grãos em terra estéril,
o tempo passa.
Se não plantar, o tempo igualmente passa.
Então por que não semear seus abrolhos,
mesmo se a terra está momentaneamente sáfara?

1 Comments:

Anonymous Marilda said...

Se o poeta desiste, que rosa irá brilhar no cinza urbano?

9:42 PM  

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