quinta-feira, novembro 26, 2009

A IGREJA MAIS ANTIGA DO OESTE DE MINAS - Lázaro Barreto.


Desde 1993 que venho lutando para conseguir o tombamento da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, de Marilândia, distrito de Itapecerica, MG. Escrevi o texto abaixo, visando uma atenciosa sensibilidade do poder público (no caso o IEPHA) no sentido de que dos dados de minha pesquisa originasse um projeto técnico nos moldes do exigido oficialmente para tais providências. O texto foi enviado, com todos os anexos documentais (cópias extraídas de documentos históricos e de fotos da edificação e de suas antigas e valiosas obras e imagens iconográficas e devocionais). A então Presidente do IEPHA, num belo e inteligente gesto pessoal, esteve no local com assessores técnicos, conferiu os dados que mandei e, verbalmente, garantiu, a mim e ao então pároco local, da pronta, legitima e pacífica aprovação. Mas até hoje a convicção dela não se concretizou, apesar de meus esforços resultantes de inúmeras cartas endereçadas ao particular amigo Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, então Secretario de estado da Cultura de Minas e ao então deputado estadual, Marcelo Gonçalves. Tenho certeza que ambos demonstraram interesse e boa vontade (de acordo com as respostas constantes em meu arquivo pessoal) – e mesmo assim o tombamento não se efetivou. E toda vez que o referido monumento histórico precisa de reparos, a comunidade tem que arcar com as despejas e ônus de reformas inadequadas e apressadas. Ao que parece toda a resistência provém de áreas políticas hierarquicamente superiores. Que Nossa Senhora do Desterro tenha pena de pessoas assim incrédulas e insensíveis.

Antes de transcrever o meu “Informe”, de 1993, vou transcrever (para provar a veracidade) os inegáveis dados históricos constantes no livro “Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana”, de autoria do Cônego Raimundo Trindade, página 106, item 164:
“Desterro. Capela “na sua fazenda do sertão do Tamanduá”, a pedido de Manuel de Carvalho da Silva, da freguesia da Vila de São José. Provisão de 22 de abril de 1754. Fez-lhe patrimônio o dito senhor por escritura de 19 de novembro de 1756. Provisão de bênção passada a 25 de novembro de 1756. Benzeu-a o Padre Manuel da Siqueira. “morador no arraial de Nossa Senhora do Desterro da freguesia da Villa de São José. Esta capela teve concessão de pia batismal a 31 de março de 1778.

Freguesia com a denominação de Desterro de Itapecerica, por L. P. número 138 de 3 de abril de 1839. Em 1857 era seu Vigário o Padre Francisco Guarita Pitangui”.

INFORME HISTÓRICO.

A Igreja de Nossa Senhora do Desterro, do distrito de Marilândia, município de Itapecerica, centro-oeste de Minas Gerais, é uma das mais antigas do Estado, sendo anterior à mais antiga construída na própria sede municipal, conforme os dados constantes do livro “História Eclesiástica de Itapecerica”, de Pe. Gil Antonio Moreira e Constantino Barbosa (Imprensa Oficial, BH-MG, 1984), que transcreve registros do livro “História de Antigas Paróquias de Patrimônios Paroquiais”, pertencente ao Arquivo da Arquidiocese de Mariana. Nesse livro consta que a Igreja de Nossa Senhora do Desterro (de Marilândia) foi construída em 1754, enquanto que a primeira igreja de São Bento do Tamanduá (hoje Itapecerica) foi construída em 1767. Anexamos ao presente INFORME cópia da página 95 do referido livro, onde constam estes dados.

No livro “Memorial do Desterro”, de Lázaro Barreto, lê-se que “a Igreja (antes se chamava Capela) é a mais antiga de toda a região do oeste mineiro. Algumas, como as de Pitangui, Itauna, Itatiaiuçu, da mesma época ou anteriores, foram demolidas e reconstruídas. Temos em mãos cópia de uma sinopse de sua Provisão (manuscrita) onde se lê: “Em 25 de abril de 1754 se registrou uma provisão a favor de Manuel Carvalho da Silva para erigir uma capella com a invocação de Nossa Senhora do Desterro na sua fazenda do Sertão do Tamanduá, cujo teor é o seguinte: o Dom Frei Manuel da Cruz etc, Bispo etc, A todos os fiéis cristãos saúde e paz. Façam saber que atendendo ao que sua petição retro nos (ilegível) a dizer Manuel Carvalho da Silva morador na sua fazenda do Tamanduá no sertão da freguesia de Santo Antonio da Villa de São José, Comarca do Rio das Mortes e este Bispado houvemos por bem de lhe conceder a licença pela presente nossa Provisão para que possa erigir uma capella com a invocação de Senhora do Desterro na dita sua fazenda do Sertão do Tamanduá, visto ter feito termo de sujeição na nossa Câmara episcopal com o qual se sujeita a nossa jurisdição e aos nossos (ilegível) a qual será fabricada com materiais perduráveis em boa proporção e architetura. E depois de ereta e decentemente paramentada com os ornamentos das quatro cores que mandão no fabrico da Missa nesta Igreja e mais cousas necessárias é feito patrimônio suficiente, recorrerão a nós para mandarmos visitar e benzer na forma do Ritual Romano e nele se poder celebrar sem prejuízo dos Direitos Parochiais da Fábrica da Matriz. Outrossim (ilegível) um livro em que estarão encadernados todos os documentos pertencentes a dita Capella e seu registro no livro do Registro Geral. Dado nesta cidade de Mariana sob o nosso signal ali (ilegível) em selo de nossas Minas em 22 de abril de mil setecentos cincuenta e quatro. Eu Cônego Vicente Gonçalves Jorge de Almeida, secretário escrivão da Câmara eclesiática subscrevo. Dom Frei Manuel da Cruz, Bispo, etc”.

O sesmeiro português Manuel Carvalho da Silva (homenageado em 1975 pela Câmara Municipal de Itapecerica, através de indicação da então Vereadora Maria José Barreto, com a nomeação da Praça que abriga a Igreja, ponto central do Distrito de Marilândia)
doou as terras (cento e quarenta alqueires antigos) que constituiram o Patrimônio da Capela, onde ela se ergueu, permitindo a expansão da área física do Arraial, fixando ali a sua povoação. Supões-se que além da doação, ele mesmo orientou a construção, se não a executou com recursos próprios. Tal suposição baseia-se no fato de a Igreja ter sido construída com a frente para o lado, onde, distante, morava o colonizador, numa sede senhorial da Fazenda que ainda existe” (na data da escritura deste informe e não mais agora, derrubada que foi por um vândalo residente em Belo Horizonte), “restaurada e preservada pelos descendentes de uma das famílias mais antigas e tradicionais da região”.

Também o historiador Waldemar de Almeida Barbosa, em seu livro “História Antiga de Minas Gerais” menciona repetidamente a antiguidade da povoação e da Igreja, o mesmo acontecendo com o Cônego Raymundo Trindade em seu livro “Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana” (cópia anexa).

Reformas e alterações em 1775 – acréscimos da torre e da fachada lateral esquerda, que inclui a Sacristia; em 1894 – desativação do cemitério de seu adro; 1970 – troca do forro e do piso e da pintura; 1990 – nova troca de forro, restauração de alguns detalhes dos altares e das imagens, reforma geral da pintura (tudo infelizmente de forma canhestra, sem a participação de restauradores qualificados). Outras referências: o relatório da Visita Pastoral de Dom Frei da Santíssima Trindade, em 1823 menciona que o Desterro tinha 2.000 almas entre maiores e menores e que se crismou 1.306 pessoas, acrescentando ainda, que “a Capella é toda de pedra campada, três altares de talha lisa, pintada à antiga. A Sacristia tem paramentos” (ver cópia de fragmento do relatório, anexa).

DESCRIÇÃO SUMÁRIA DA EDIFICAÇÃO.

A construção obedece à planta simples, constituída de nave, dois altares laterais e um central, coro com balaustrada, torre com dois sinos de bronze e dobres, sacristias em dois compartimentos e uma capela lateral consagrada à Nossa Senhora da Abadia. Tanto a torre como a capela lateral e a sacristia foram acrescentados ao corpo da edificação em 1775. A área horizontal construída de 400 m2, compõe-se, com antigos sepulcros sob o piso de madeira, de largas paredes em pedra, encimadas na altura do travamento por camadas de tijolos (provavelmente colocadas em uma de suas primeiras reformas). A cobertura da nave em duas águas e tem armação autônoma de madeira e telhas coloniais. O antigo forro abaulado e pintado com as vinhetas do Dilúvio foi substituído, sem preservar as características originais. As cinco portas de entradas, bem como as janelas do coro e da sacristia, são largas e altas, pesadas de madeira maciça, em almofadas. A nave é dividida em semi-círculo de paredes na altura dos altares laterais. Seu piso de madeira corrida, que assinalava (em nomeação e datação) as sepulturas dos devotos, foi substituído por outro, de cerâmica que, como o forro, contrasta com a feição original do monumento. O púlpito interno da nave, bem como o cemitério externo, do adro, circular, foram suprimidos nas aleatórias reformas que a Igreja sofreu ao longo do tempo. A pia batismal, em pedra sabão, é a original e ostenta em algarismos romanos a data (da primeira reforma) de 1775. Os altares são despojados e belíssimos, modestamente ornados de esculturas barrocas. As imagens também são originais e de grande expressividade visual, de tocante contemplação. Além das imagens expostas nos altares (Sagrada Família, Senhora Santana, Nossa Senhora das Dores, São Sebastião, São Francisco, São Geraldo, São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, São Manoel etc), existem outras (Senhor Morto, Senhor Crucificado, Senhor dos Passos, todas de madeira) guardadas em enormes gavetas do armário da sacristia. É pena que a madeira esteja sofrendo o processo de deterioração através do cupim e do caruncho – e a comunidade não disponha de meios neutralizadores e restauradores. O acervo de objetos sacros e de componentes ritualísticos é também importante em sua antiguidade (apesar do sumiço, de vez em quando, de alguns deles). Paramentos, turíbulos, crucifixos, castiçais, andores, confessionário, púlpito, charola, custódia, oratórios etc, tudo compõe o conjunto que em linhas gerais reafirma a autenticidade original, de inestimável valor religioso, histórico e artístico. E para confirmar a invocação de Nossa Senhora do Desterro, lá está, encimando o altar-mor, a epígrafe ( gravada em madeira) que São Mateus (2-15) cita de Oséias (11-1): “Da terra do Egipto chamei a Meu filho”. O exílio não era apenas dos que vinham de outras terras, mas o da própria Sagrada Família – e de todo o gênero humano, expulso do paraíso.

O mesmo Manuel que edificou a Capela constituiu seu Patrimônio em 19/11/1756, dando mais de 140 alqueires de suas terras ente os rios da Boa Vista e das Itapecericas. A bênção da Capela realizou-se em 23/11/1756, pelo Padre Manuel da Siqueira, morador no Arraial de Nossa Senhora do Desterro da Freguesia de São José, o que prova que o Arraial já existia e que certamente é mais antigo do que o próprio Tamanduá. A concessão da Pia Batismal em 31/03/1778, a instituição da Freguesia em 03/04/1839, a criação do Distrito do Desterro em 1847 (antes era Curato) e a criação
da Paróquia em 16/09/1870. Foi tombada pela Prefeitura Municipal de Itapecerica, através do decreto número 08/89, apresentado pela referida vereadora Maria José Barreto. Tombamento que valeu para evitar a venda, tempos atrás, de uma série de móveis, utensilhos e objetos sacro-litúrgicos, intentada por um ex-pároco apoiado por um Conselho (?) Paroquial.

A construção serviu de modelo para se construir, em 1760, a Capella de Nossa Senhora do Desterro de Desemboque (Triângulo Mineiro), pela mesma equipe de artífices, como se lê no livro de Jorge Alberto Nabut, sobre a edificação (felizmente tombada pelo IEPHA -o que parece muito contraditório e/ou irônico): “Pois nesse ano (1760), saíram do Tamanduá ou Novo Termo e Pitangui, com destino ao local daquela povoação, destruída pelos índios caiapós, o sargento-mor Manuel Alves Gondim, Tomaz de Aquino Colasso, Manuel José Torres, Antônio da Silva Cordeiro e muitos outros, além de escravos e camaradas. Aí chegados edificaram muitas e boas casas, uma sólida igreja toda de pedras, com paredes de meia braça de largura, abriram dois grandes regos para abastecimento de água à população e, no fim de três anos, regressaram a Pitangui e Novo Termo (Tamanduá), deixando as casas construídas, para a Intendência. Os socorros espirituais eram administrados, com licença do Bispo de Mariana, pelo Padre Gaspar Alves Gondim, Vigário Encomendado de São Bento do Tamanduá ou Novo Termo.

Anexos:
-Recorte do Jornal “Diocese em Notícias”, Divinópolis, fevereiro de 1988, com artigo de Constantino Barbosa.
- Recorte do jornal “AQUI PRA NÓS”, de Divinópolis, novembro de 1987, com texto de Lázaro Barreto.
- Cópias de fotos (13), com as respectivas legendas, do então Padre Gil Antônio Moreira, hoje Bispo de Jundiaí, São Paulo.

Bibliografia:
- História Eclesiástica de Itapecerica, de Padre Gil Antonio Moreira e Constantino Barbosa, ed. da Imprensa Oficial, BH, 1984.
- História de Antigas Paróquias de Patrimônios Paroquiais” – Arquivo da Diocese de Mariana, MG.
- Memorial do Desterro, pesquisa de Lázaro Barreto, livro então inédito e hoje com a edição esgotada, depois de publicado.
- Historia Antiga de Minas Gerais, de Waldemar de Almeida Barbosa.
- Instituições de Igrejas no Bispado de Mariana, de Cônego Raymundo Trindade.

(texto assinado e enviado ao IEPHA, por Lázaro Barreto em 1993).



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