terça-feira, novembro 02, 2010

O Doce Mistério da Vida

O DOCE MISTÉRIO DA VIDA - Lázaro Barreto.


Mais fluente e influente do que o gritante noticiário veiculado na mídia: o que mais prevalece, intimamente, na vivência de todas as pessoas do mundo é o indefinível encanto do nascimento de um filho (que é também um neto, um sobrinho, um primo, um amigo, um doce mistério da Vida), que chora (e o choro é uma espécie de sorriso?) na estranheza da chegada num país que ele ainda não sabe se é verde ou amarelo, raso ou profundo, doce ou azedo. Nada se compara a um acontecimento que se repete todo dia em toda parte do mundo, sempre trazendo nova aura, nova linguagem, nova esperança de remodelação das engrenagens provisórias e definitivas do realismo social em andamento. A pública exposição no berçário da maternidade desperta e revela um cordel de emoções a quem se aproxima desta puríssima manifestação da beleza do mais doce dos mistérios da vida: os olhinhos fechados que momentaneamente se abrem para os amigos e parentes encantados na feliz continuidade da poesia ao mesmo tempo onírica e realista em forma de sonho e corpo fundidos numa fantasia que é também realidade. Veio de Novalis, poeta alemão, a certeza mais certa: “Onde há criança uma idade de ouro ali existe”. Aba aeterno (desde toda a eternidade).

PAULINHO.

Quem vem da Vida para o Mundo,
depois da longa comunhão placentária,
abençoa quem atentamente o esperava.
O sopro da inocência acende a luz:
assim é o gratificante milagre da Criação!

A primavera aperfeiçoa a própria aura?
A concepção (desejada e conseguida)
de uma vida dentro de outra vida
(todas as graças dentro da virtude).
Assim espelhados no ultrassom:
as covinhas no queixo,
os bracinhos erguidos nos balbucios:
um chorinho a procura de um sorriso?

Que venha a nós na infância dele
as graças inaudíveis e indizíveis,
cerzidas ponto a ponto
nos dias e noites de todos os meses
da expectante vigência intra-uterina
a criarem
com esmero e bom gosto
os liames biológicos e anímicos do nascituro.

Nutriz e auréola do sentimento?
Prelúdio e voz do pensamento?
O olhar sobre um mundo recomeçando?
As feições delineadas,
os traços verossímeis:
marcante fusão da herança familiar?

Agora
o Paulinho está sorrindo,
mesmo quando está chorando?
Bem haja, pois!