segunda-feira, setembro 12, 2011

A Àrvore dos Sonhos

A ÁRVORE DOS SONHOS (*) - Lázaro Barreto.

Um dia a árvore dos sonhos inopinados
Desabou na cabeça de GTO,
Que rachou para vazar
O ouro das dívidas e das imaginações:

a dança dos ícones nas gravuras parietais,
a agoniada prateleira dos ex-votos,
o balaio das miniaturas e das ampliações,
a escalação dos totens, manipansos e penitentes,
a montanha devocional das tribos indígenas,
as efígies serôdias de Assubarnipal e de Araribóia,
os perfis enfiados dos heróis da história-pátria,
os ritos de passagem dos velhos arraiais,
a acrobática peleja grupal dos roceiros.

As entidades espirituais escorregam de suas mãos
em sombria, quase opaca luz dos transes
que animam os traços e relevos da matéria-prima.
Assim,
da fratura dos troncos avermelhados saltam
os guerreiros corporais nas rodas e labirintos,
as etnias as classes as mandalas os orobolos,
os símbolos imemoriais de nossa caminhada.
E assim ele tenta regressar à pureza
Que o quer, mais adiante.

Noutro dia os galhos da árvore
atávica
brotam em suas mãos primitivas e criadoras.
Assim
ele pode sacudir a sina – e para não endoidecer
nas horas traumáticas do dia-a-dia,
ele expulsa os demônios do corpo:
é assim que mergulha na pureza para saber
que não existe erro na face da terra,
diuturnamente iluminada na renovação da realidade.

(*) - Poema (agora revisto) publicado no Suplemento Literário do jornal “Minas Gerais” em 02\06\1973. dá título e faz abertura de um filme de Carlos Augusto Calil e
Lauro Escorel Filho, de 1978, sobre a obra do escultor GTO (Geraldo Teles de Oliveira).