quinta-feira, junho 15, 2006

A Cabeça de Ouro do Profeta

A CABEÇA DE OURO DO PROFETA – Lázaro Barreto

(edição há muito esgotada, agora revista e ampliada . Abaixo o fragmento de um dos contos).

Joãozinho e Maria (fragmento):


Quarto exíguo de uma grande e velha casa, avara de moradores. Uma janela de madeira aos pés da cama e outra na parede paralela, a primeira abrindo-se para o quintal nascente e a outra fechando para o jardim poente. A mesinha de cabeceira com o toco de vela no castiçal, o cinzeiro de barro com vários tocos de cigarros, dois livros em processo de leitura (as páginas marcadas com flores de magnólia). As paredes manchadas de tempo, da ação de hospedeiros diminutos, de objetos feitos pela natureza e pelas mãos da mulher, que agora está deitada de costas, a cabeça levantada no travesseiro, os pés rentes à cabeça do homem, deitado em sentido contrário.

Ele (recitando poetas árabes antigos):
Suaves são tuas pernas como caules de cana
arrancados numa fonte.
Tua cintura é delgada
- uma corda no poço não é tão tênue.
E o tato!, como é macio!
os dedos aflautam como vermes aquáticos
lisos como cobras.
Iluminas a noite como a lanterna
dependurada numa ermida.

Ela: sou assim tão cheia de predicados?
Ele (citando Catulo): Dá-me mil beijos, depois mais cem
e outros cem, e ainda mais cem, e depois mais mil e um cento
- e quando atingirmos as centenas de milhares,
baralhemos as contas, comecemos de novo:
o que é bom não pode chegar ao fim. (ele faz cócegas nos pés dela; ela faz cócegas nos pés dele).
Ele: As mulheres!, de algumas gostamos das partes baixas do corpo, as formas e os volumes; de outras amamos o sorriso e o olhar, as músicas e as almas.
Ela: se gostasse de minhas partes altas não teria deitado de cabeça para baixo...
Ele: O pasto e a roça do cotidiano: a concretude,
ali está a frase fixa, insubstituível.
O pasto e a roça da fantasia: a abstração,
ali está a frase móvel e múltipla.
Ela: que não dá camisa a ninguém.
Ele: olha quem está falando! Você às vezes se contradiz, caindo no prosaísmo que não condiz com o restante de sua pessoa.

Ela: eu só ou toda mulher?
Ele: o mimetismo não é apenas epidérmico, mas também anímico. Você transige de uma a muitas, muitas vezes. Isso é ótimo porque nem preciso ir longe para encontrar as outras na mesma. Agora, por exemplo, você está óssea, enxuta, deitada em seus louvores e ao mesmo tempo levantada em seus labores. Ontem, ao contrário, você estava magra e morena, os seios sumidos, os lábios molhados, os beijos vinham de dentro, mantinham o desejo nas cercanias. Amanhã, quem sabe, outra moça virá em você, quem sabe uma sua irmã desconhecida, de longe, mais fornida nos cantos e recantos, os lábios menos beijadores e mais beijados, a luz um pouco fora das palavras, esculpindo outros dedos nas flores de tua pele.

Ela: é assim que pensa? enquanto esforço para me desdobrar, você, fingido na fidelidade, não se vai de mim? Ainda bem que sou ágil, né? É assim mesmo que pensa de mim? E o que penso de você? Você é sempre o mesmo nos calcanhares e nas orelhas, às vezes cansativo, sem motivos e razões. Muito errado, mesmo nos acertos, sem dizer uma palavra. Qualquer dia pego o trem e vou cantar noutra freguesia.
Ele:Você fala por falar. Você pensa que a minha música é só o mi em cima do si sem dó? Não sei onde estou com esta cabeça que só pensa em você...
Ela: prefiro dar o fora de mim para ver se encontro outro você na sua pessoa. Isso de ser apenas meia-pedra e meio-tijolo... Por que não se desdobra como um lençol ou como um cobertor e vem logo me esquentar um pouco?
Ele: sou assim pobre nas linhas e entrelinhas?
Ela: por que me escolheu entre tantas outras?
Ele: eu escolhi? fui escolhido!
Ela: escolhido por quem? por mim?
Ele: por mim, por mim mesmo, alguém em mim escolheu você.
Ela: e por que?
Ele: não sei. Um sinal de luz ao longo de sua pessoa? Como o cineasta que procura a estrela que exprima a sensualidade mais permanente... e
encontra num rosto as janelas do olhar
no olhar a moradia do rosto
que pode acolher o que cada homem procura
na pessoa da mulher.
Ela (senta na cama para rir...) etc etc....

Nota ao pé da página em 06/06/2006: Recebi hoje do amigo e poeta Osvaldo André de Melo uma anotação com os dizeres:
“Prêmio Afonso Arinos. Contos e Novelas.
Voto de Alceu Amoroso Lima.
“José Afrânio Moreira Duarte é um intimista de cores e alusões sutis, que se revela nestes seus novos contos um mestre na psicologia dos entretons literários”.
“Por sua vez, Lázaro Barreto, com “A Cabeça de Ouro do Profeata”, dentro da linha fantásatica do realismo mágico, que vai de AEdgar Poe a JulioCortázar e Clarice Lispector, se mostra um contista de grande originalidade, forte e sugestivo, que honra o jovem grupo de Divinópolis como houve, nas origens do Modernismo, o Grupo de Cataguases”.
A anotação não cita a data do Voto do grande crítico Alceu, mas posso dizer que ocorreu antes da publicação do livro pela Imprensa Oficial de Minas Gerais.