sábado, junho 10, 2006

Meu Bem Chega Hoje

MEU BEM CHEGA HOJE - Lázaro Barreto.


As palavras bloqueiam a passagem
quando tento abrir um poema
para dizer que ela é a paisagem
com ela própria dentro
Sobre a qual eu deveria debruçar-me
para conhecer os rios e as montanhas
que me chamam
para ocupar o lugar de meu desatino.

Aurora ainda enluarada
manava dos seios dela.
Um líquido encarnado esguichava
da pressão arterial
Mel e veneno minavam aqui e ali.
Vi nuvens inventando cores e vi
os-de-cócoras no adro da igreja.
Subi às torres e perguntei
Desci aos vales e perguntei
com quem poderia discutir minha loucura.
Resposta nenhuma veio
de nenhum dos lados de minha pessoa.

Dias depois
acordo atravessado na cama de solteiro
sufocado no clima sufocante das idéias fixas
do crescente desejo de comer as ex- mulheres
peregrinamente lindas de Pedro Nava:
doces pulposas bivalvas aveludadas
as que esverdeiam as primaveras
das peremptórias fascinações.
Dias depois
recomponho-me finalmente aceitando
que elas são a mesma de sempre
tenha um nome ou outro, um corpo
mais agudo ou outro mais grave
elas e elas e elas seriam assim vendo-as
de longe
meu próprio amor-próprio, desdobrado
nas variedades formais do belo prazer?