sexta-feira, julho 21, 2006

Aires, O Negro e o Garimpo

AIRES, O NEGRO E O GARIMPO (*) - Lázaro Barreto.


O livro “O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, de Aires da Mata Machado Filho, é uma das tentativas mais sérias e bem sucedidas de interpretar o papel do imigrante africano nas terras mineiras.

Mal refeito do susto de aportar ao Brasil, sob o jugo desumano da escravatura, e defrontar-se com outra paisagem cultural, na qual não divisava um horizonte (no meio de tantos horizontes) que lhe fosse menos hostil, ele é obrigado a adentrar-se mais pelo território até chegar às montanhas de Minas, onde deveria consumir-se no trabalho que enriquecia os ociosos.

Aires deve ter imaginado o ar de estranheza do homem oriundo de tão longe, diante do pio esquisito de uma ave inexistente em sua terra, da visão multifacetada dos montes e serras infindáveis, da dificuldade de andar no meio do sarandi dos cipós (verdes barbantes), que ocultavam cobras e outros bichos, da pousada vespertina debaixo de árvores desconhecidas, sob o barulho de águas correntes sobre as pedras, filtrando nas retinas estarrecidas a variedade dos pássaros, de frutas silvestres e de teias de aranhas.

Mas Aires localiza o negro em seu novo mundo, munido de labancas, cavadeiras, picaretas, frincheiros, enxadas, cacumbus, carumbés, bateias, ralos e peneiras, abrindo valos e regos para o desbarranque da área destinada à cata do diamante. Fica até fácil vê-los, através da descrição de Aires, nessa faina desmotivada e penosa, entoando os vissungos (cantos de trabalho), certamente amaldiçoando, em linguajar banto, seus algozes (os donos e os feitores).

Com o passar dos dias inclementes, surgem os desertores desse campo de trabalhos forçados. Eles somem pelas serras e matas, sem saber para onde seguir – só querem desvencilhar dos chamados homens civilizados. Sabem que jamais encontrarão o caminho de casa, mas preferem a companhia dos bichos e da natureza selvagens. Aí é que fundam os quilombos.

É raro num município mineiro localizado na área que foi explorada pela mineração colonial, que não tenha até hoje os povoados com esse nome – Quilombo - , onde em muitos deles ainda vivem os remanescentes dessa gente sofrida, que hoje brinca de reinado,canta lá seus vissungos e se comunica, muitas vezes, ainda em dialeto crioulo.

Aires descreve a herança cultural deles, tão grande que não pode ser isolada do contexto étnico do que chamamos de universo mineireiro. Seu misterioso sistema de crenças, que atravessou o mar com eles, acrescido aqui com seus espantos e temores (a ingenuidade e a submissão), diante de elementos naturais e sociais tão diferenciados.

Aires anda fala dos capangueiros (contrabandistas cúmplices dos garimpeiros e quilombolas, dos quais adquiriam a preço de banana seus produtos, mas prevenindo-os da aproximação de seus algozes), das faisqueiras, da miscelânia de superstições, feitiçarias e crendices, fala também dos arraiais diamantinenses (São João da Chapada, Quartel do Indaiá) com os sobreviventes bantos e de suas cantigas de trabalho na mineração dos diamantes, do dialeto crioulo que até hoje apresenta vestígios bem vivos no linguajar comum da gene do povo de toda parte do Estado. É um livro bem esclarecedor da história de nossa cultura popular.

(*) – resenha publicada no BOLETIM da Comissão Mineira de Folclore (da qual o autor era membro), de número 09, Ano VI, em setembro de 1985.