quinta-feira, julho 20, 2006

Conversa na Venda do Arraial

CONVERSA NA VENDA DO ARRAIAL - Lázaro Barreto.


Roceiro (chegando): Ó vocês que nunca me deram nada nem intenção têm de me dar.
Vendeiro: Enquanto você vem com o milho eu já vou com o fubá.
Roceiro: É isso aí. Quem tem boca não manda assoprar. (ao Lenhador): E você, João Pica-Pau: cara feia não enche a barriga.
Lenhador: Por causa de uma cara feia se perde uma bonita bunda. É o tal negócio: quanto maior o pau, mais bonito é o tombo. Se quer experimentar o peso de meu braço, vamos pro largo!
Roceiro: Você sabe que dou um boi para não entrar na briga, mas que depois que entro dou a boiada pra não sair....
Vendeiro: O quê é isso? Vocês dois nunca combinaram. Por que estão brigando agora?
Lenhador: Por bem me levam ao inferno, mas por mal, nem ao céu.
Vendeiro: Vocês não amarram as éguas no mesmo pau. Mas são farinha do mesmo saco, cara de um focinho do outro. E no entanto ficam aí brigando igual cachorro com gato.
Capinador (ao Roceiro): Você veio pela sombra.
Roceiro: Eu não sou daqui, sou lá do brejo. Estou aqui é enxugando.
Capinador: Você está com o burro na sombra.
Vendeiro (despejando pinga nos copos): Vamos matar o bicho, pessoal?
Carreiro (aproximando-se do balcão): Eu também sou filho de Deus. Também estou aí nessa marmita.
Vendeiro (parcimonioso nas dosagens): Mas cuidado: não é só Deus que mata não.
Lenhador (bebendo e lambendo os beiços): Para onde o vento der, o pau lá vai. Sei muito bem em que mato estou lenhando.
Carreiro: Você não sabe é com quantos paus se faz uma canoa.
Lenhador: E você? Você tem o olho maior que o bucho. O que está aprendendo, eu estou esquecendo.
Vendeiro (ao Lenhador): Ainda que mal pergunte, de onde é mesmo que você veio?
Lenhador (desabuzado): De pra lá do toco e pra cá da raiz, onde o cachorro cagou e sua vó atolou o nariz.
Capinador (espantando um cão que entrou na venda): Sai do meio dos outros, Cachorro!
Carreiro (ao Lenhador): A bobagem ainda vai te carregar, um dia.
Lenhador: Bobo é ovo na boca do seu povo.
Roceiro: Vocês ficam aí chovendo no molhado. De minha parte, não me importa que a mula manque, o que mais quero é rosetar!
Lenhador:É, né? E comer no cu da gata, você não quer?
Roceiro: Você não está com nada no balaio. E fique sabendo que um dia a casa cái.
Lenhador (aos outros): coração bom está aqui no peito, o que falta é trato.
Roceiro: Se pensa em quem estou pensando, pode tirar o cavalinho da chuva.
Lenhador: Uns gostam dos olhos, outros da remela.
Vendeiro (ao Carreiro, sobre os dois): Conversa pra boi dormir, a deles.
Carreiro (a respeito do Lenhador): Ele avança na lua pensando que é queijo.
Lenhador (prontamente ao ouvir): A casca é que engrossa o pau. Sabia?
Vendeiro: Você pode fazer das tripas coração...
Capinador (ao Vendeiro, referindo-se ao Roceiro: Ele vive com a foice nas costas, procurando quem inventou o trabalho. Quer que o mundo acabe em melado, pra morrer doce.
Vendeiro: ele faz de bobo pra bem viver. Você sabe que o bobo é que pega cavalo brabo no pasto?
Roceiro: E você fica aí o dia inteiro trocando cebolas com os outros....Não tem vergonha?
Vendeiro: Vergonha é roubar e não dar conta de carregar.
Carreiro (sacudindo a cabeça): Pobre, mesmo calado, está errado.
Capinador: Na hora da onça beber água, é só pena que voa. Quero ver quem vai pagar o pato.
Roceiro (acabrunhado): Quem fala de mim tem paixão.
Carreiro: quem é ruim de carro, é pior de arado.
Roceiro (ao Carreiro, gozando): ouvi dizer que você bateu no soldado, lá na cidade, e ainda esfolou a cabeça do cabo, é verdade?
Carreiro (acenando com o dedo): Pra cá você vem bem. Mas não agüenta uma gata pelo rabo.
Roceiro: eu sou você? Comigo o buraco é mais embaixo. Levo você praquele lugar onde o filho chora e a mãe não escuta.
Carreiro: Você, que põe o carro adiante dos bois? Você não passa de uma bananeira que já deu cachos.
Roceiro (ao Vendeiro); O que vem de baixo não me atinge.
Vendeiro (aos dois): O porco falando mal do toucinho.
Carreiro (ao Vendeiro): Quando um burro fala o outro murcha a orelha.
(Vendeiro): Eu falava com o dono dos porcos e não com a porcada. E quem achar ruim que coma menos.
Seleiro (chegando): O quê há de novo?
Capinador: Muita galinha e pouco ovo.
Seleiro: comer suã faz suar?
Capinador: Peido de porco não é torresmo.
Seleiro: Quem está na chuva é pra molhar.
Capinador: quem fala demais dá bom dia a cavalo.
Vendeiro (ao Roceiro, olhando os dois): Parece briga de foice no escuro?
Roceiro: Eles choram de barriga cheia. Estão com os cavalos na sombra.
Vendeiro: Mas se balangarem os beiços, os cachimbos caem.
Roceiro (ao Lenhador): Não me olhe de banda que não sou quitanda.
Lenhador: Você começa novamente a mostrar os dentes. Não demora e verá o que é bom pra tosse.
Carreiro (aos dois): Não cotuquem o boi com a vara curta.
Vendeiro (rindo): Está morta a égua. Morro de rir, mas não acho graça.
Seleiro (ao Vendeiro, referindo-se ao Carreiro): Esse aí não come nada amanhecido. O outro ali não fecha os olhos nem pra dormir.
Roceiro (ao Lenhador): Vamos fazer as pazes, como amigos e como irmãos?
Lenhador (rindo, abraçando o Roceiro): Vai tomar banho na caixa de fósforo, sô.
Carreiro (saindo): Eu asso no dedo se ele não meter a ripa em mim, quando eu sair.
Lenhador: você já viu formiga ter catarro?
Lenhador (também saindo): Cobra que não anda, não engole sapo, né?
Vendeiro: eu só fico aqui. Meu pai trabalhou demais. Já nasci cansado.
Juiz de Paz (chegando): Vocês estão aí, cozinhando o galo.
Roceiro: Feliz é água do chafariz.
Juiz de Paz (sentando-se no balcão): Essa mamata vai acabar.
Vendeiro: quem trabalha não tem tempo pra ganhar dinheiro.
Juiz de Paz: mas de hora em hora a coisa melhora.
Roceiro (referindo-se ao Capinador): O nosso amigo aí viu a vó por uma greta.
Capinador: estou atolado até ao pescoço, mas não devo nada a ninguém, nem obrigação.
Roceiro: Se você não tem dó de si mesmo, que dirá de mim.
Vendeiro (ao Juiz de Paz): Esses dois são a tampa e o balaio.
Roceiro (ao Vendeiro): Você quer trocar uma calça velha por outra furada na bunda?
Vendeiro: Você é o último que fala e o primeiro que apanha.
Roceiro: Isso só vai acontecer quando nascer dente na galinha.
Vendeiro: ah, sô, vai assombrar o Isidoro, vai plantar batatas.
Roceiro: quem já viu banguela chupar cana?

Lá fora faz um sol de rebentar mamonas. Um homem de cara amarrada montava no burro amarrado pelo rabo na estaca. Os meninos riam de orelha a orelha. Lá no chafariz uma mulher põe a rodilha na cabeça, mas não dá conta de suspender o pote. O homem feio como um embrulho de mandiocas passa por uma mulher na janela e suspira, pensando: “Ê lá em casa!....”.