sexta-feira, julho 07, 2006

A Pior das Perdas

A PIOR DAS PERDAS - Lázaro Barreto.


Nos inferninhos dos sábados à noite
a zoeira metálica oprimia os tímpanos
as cenas escabrosas feriam os olhos
Assim a moçada etílica bagunçava o coreto
do quarteirão da rua onde moro
Sentia-me agredido dentro de casa:
um trapo no fundo de um poço?
Sentia-me assim crivado de pedradas
no fundo de um poço,
distante da superfície mais vívida,
a perder minha própria humanidade?
Abri a janela, ingenuamente,
para ver se impunha algum respeito
Os rapazes e as moças, airados e airadas
trocavam suas carícias e recíprocos
desaforos, às escâncaras desabridas
A zoeira metálica oprimia os tímpanos
as cenas escabrosas feriam os olhos
(o que fizeram do amor, meu Deus,
pensei, provocado, debochado)
Aí caí na besteira de pedir para abaixarem o som
foi aí
que de repente um deles, de gola rolê
postou-se defronte à janela onde eu estava
desabotoou a barguilha
tirou o pinto e mijou acintosamente
torrencialmente
em cima do passeio de minha casa,
pondo à prova meu sistema nervoso
minha dignidade, minha ombridade
minha própria humanidade
(ou a humanidade não é mais a mesma?).