segunda-feira, janeiro 08, 2007

Obrigado, Drummond.

OBRIGADO, DRUMMOND - Lázaro Barreto.


Nos quarentas mil anos de arte moderna
procurávamos no mineral país de Itabira
aquela imagem retroativa e persistente
da folha verde dentro da pedra madura.
Procurávamos com as pernas as mãos as cabeças
os combustíveis para novas procuras de novas
excitações.

Sabendo que é na prática do dia-a-dia
que reunimos os elementos dos sonhos,
sondávamos as grutas do Levante Espanhol e de Lagoa Santa,
na busca do papiro das ansiedades, da tábua das leis
(o livro-messe, palimpsético, que transborda da estante,
esparrama na casa e inunda a rua).
Insones e obstinados, procurávamos, procurávamos.

Ainda hoje a sede da vida está nos cabelos,
nos louros cabelos da fenícia Dido?
Não varre das almas para fora, ela me dizia,
ela é que dizia, a drummondiana poesia.
Os arraiais circundam as distâncias,
as sombras são os silêncios do sol lá fora.
É assim os mundo se arredondam,
nos arraiais que se universalizam:
não varre as almas para fora, ela dizia.
O amor é música: a resposta antes da provocação:
dois dedos de doçura
e
oito dedos de amargura.

Por mais que os sacerdotes escondem,
os erros de Deus aparecem nas entrelinhas,
- e quem nos penaliza sequer imagina
se podemos suportar tanto sofrimento!
A rua passa vários filmes ao mesmo tempo.
Quem chega primeiro à base do instinto,
esse ganha o doce metafísico,
a farta e mansa chuva de versos
que semeia adeuses e caminhos.
Obrigado, muito obrigado, Drummond!