terça-feira, dezembro 26, 2006

O Leiturista Pinçador III

O LEITURISTA PINÇADOR III - Lázaro Barreto.


1 – “John Cassavetes”, de Thierney Jousse, trad. de Newton Goldman e Tati Moraes – Edt. Nova Fronteira, RJ, 1992.
- “Cassavetes procura misturar o irrisório e o sublime. É a primeira característica dostoievskiana de seu cinema. Elaborados a partir de pulsões extravagantes, desmedidas e irreprimíveis, os personagens dos romances de Dostoievski podem ir da mais alta inspiração a mais indigna das baixezas” (pág. 115)
-“Cassavetes não é um revolucionário que deseja a morte do sistema, nem um arrivista que tenta tomá-lo e passar a dirigi-lo. (...) Ele tenta sempre atirar o centro em direção às margens através de uma força centrífuga perseverante e assustadora” (págs. 136 e 137).
- Ele procura retratar as idas e vindas no tempo na teatralidade do cotidiano através de uma linguagem entre o gesto e o pensamento, mostrando na força, no gesto e no estilo o imprevisto numa espessura táctil, como uma brincadeira de gangorra, sempre recomeçada. Seus personagens em aparições alucinatórias em forma sensível e abstrata, portando o corpo que desafia o mundo, nem revolucionário nem arrivista, e portando, também o sentimento que antecipa a embriaguês, sendo às vezes duplo ou múltiplo, sempre esquisóide (inferência de LB).

2 – Memórias de Hollywood, Org. de Julieta de Godoy Ladeira, Edit. Nobel, SP , 1888.
- “Gary Cooper é o único (de sua geração) que não se desumanizou, aquele que manteve, em sua condição de semi-deus, as ligações com o humano” (Osman Lins, pág. 30).
- A fabricação dos mitos: “Os mocinhos não morriam nunca e voltavam da guerra como tinham ido: bem humorados e saudáveis de corpo e espírito e as mocinhas estavam sempre esperando por eles, romanticamente sentadas junto à janela cantando deliciosas canções que juravam amor eterno” (Ruth Rocha, pág.43). Outra observação deste leiturista pinçador: apesar de uma fragrante hipocrisia, dos laivos fantasiosos da vida cor de rosa, de outros maneirismos capciosos e da quase sempre deslavada propaganda do americanismo que supostamente oferecia oportunidades a todos e que na verdade o que mais oferecia era a escancarada mediocridade ao alcance de todos, apesar da constatação desses senões, salta aos olhos, também, que a qualidade dos filmes era muito melhor do que os que são hoje produzidos: se hoje de cada dez produzidos, apenas um pode ser considerado de qualidade superior, naquele tempo (décadas de 40 e de 50), a ordem era inversa: de cada dez, nove eram de primeira qualidade.
-“Acho que alguns filmes nos ajudaram a ter sonhos, a aspirar uma condição para a qual nós parecíamos não estar destinados, nos ajudaram a ser pretensiosos, a compreender que nós também tínhamos sido feitos para brilhar” (Silvio Fiorani, pág.48).
- “Já separada de Miller (...) Marilyn Monroe confessa a um repórter: “Símbolo sexual? Eu? Não sei. Nem tenho com quem sair sábado à noite”. Judy Garland teria? E William Holden? Todos morreram sós, em seus apartamentos” (Julieta de Godoy Ladeira, pág. 69).
- “O cinema, de repente, ficou demasiadamente tecnocrata para o meu gosto” – assim dizia Marlene Dietrich, que perpetrou, elegantemente, este poemeto:
“Amei-os
todos.
Os louros, os negros,
os morenos.
Hoje, amo somente
os puros, os belos,
os graciosos”
(Citações de Edilberto Coutinho, pág. 94).
- “Lana Turner (garante um repórter) só atingiu a maturidade sexual por volta dos 40 anos, ao cabo de uma aprendizagem com um total de cerca de 18 homens – o que, ele acrescenta, já parece um número modesto, para os padrões atuais (1988). A conclusão foi tirada, explica, a partir de indicações implícitas, porque o assunto não era abordado diretamente” (Sonia Coutinho, pág. 143).
-“ Viviem O’Hara: os negros olhos circunflexos espetavam como lanças, na profundidade de uma noite de dor, as maçãs salientes abrigavam covinhas, os lábios finos inesperadamente se alastravam num sorriso esfuziante e inacessível sob a massa de cabelos vermelhos”(Márcia Denser, pág. 169).
-Lá pelos idos de 40 ou 50 (é o romancista Autran Dourado que conta o ocorrido certamente em sua bela e querida Patos de Minas) o rapaz do interior entra sorrateiramente no cinema, à noite, e vê “ a Heddy Lamar do seu coração sair peladinha, meu Deus! da lagoa”. O rapaz que “já era súdito do solitário rei Onã....! (pag. 185).
- Também Caio Porfírio Carneiro sofre o mesmo impacto (ver pág. 228) vendo Dorothy Lamour de sarongue: “Um deslumbramento. Aquelas pernas, meu Deus! Elas não me saíram mais da cabeça. Um tormento. Os primeiros sinais da puberdade levaram-me a grandes conflitos interiores”.

3 – “O Cinema da Crueldade”, de André Bazin, trad. de Antônio de Pádua Danesi, edit. Martins Fontes, SP, 1989.
- “Devemos a Eric Von Stroheim os únicos filmes de “imaginação” em que o cinema ousou o realismo integral, em que nenhuma censura insidiosa, mesmo subjetiva, veio limitar a invenção e a expressão: filmes verdadeiros como pedras e livres como sonhos” (pág. 12).
- “Carl Th. Dreyer é talvez, com Eisenstein, o único cineasta cuja obra iguala a dignidade, a nobreza, a poderosa elegância das obras-primas da pintura “ (pág. 18)
- “Hitchcock consegue até a última imagem fazer-nos caminhar sobre uma corda estendida sobre um abismo, empurrando-nos ligeiramente ora para a esquerda, ora para a direita, para nos segurar todas as vezes no momento exato que acreditávamos cair” (pág.102). “O interesse dele é que a forma se torne a própria substância da narração, que não seja apenas uma forma de contar a história, mas uma maneira de visão a priori do universo, uma predestinação do mundo a certas relações dramáticas” (pág. 157). “Um grande criador” (Bazin fala ainda de Hitch: “é como um bom geômetra, em quem a intuição precede e guia o raciocínio. Ele faz a sua construção, deixando aos escoliastas o cuidado de estabelecer o fio ingrato da demonstração” (pág. 168). “Num movimento de extrema ternura e sensualidade, a câmera gira em torno dos dois apaixonados e a tela cintila com essa beleza indescritível cujo segredo Hitchcock foi buscar em Murnau” (pág. 169). “A forma, aqui, não embeleza o conteúdo – ela o cria” (pág, 170).
- A profissão de fé de Akira Kurosawa: “Um filme de ação pode ser apenas um filme de ação. Mas que coisa maravilhosa se ele conseguir, ao mesmo tempo, pintar a humanidade!” (pág. 187).

4 – “Saudades do Século 20”, de Ruy Castro – Edit. Companhia das Cetras, SP, 1994.
-Segundo o autor, o nome pintado no trenó do menino Kane (ver o filme “Cidadão Kane, de Orson Welles), “Rosebud” (botão de rosa) – “era como William Randolph Hearst” (magnata da imprensa americana, que serviu de base para a criação do personagem Charles Foster Kane) “chamava na intimidade o clitóris de Marion Davis, sua querida amante” (pág. 115).
- Outra diva cinematográfica, Greta garbo, costumava visitar a casa de Orson Welles, “para nadar nua em sua piscina”. Um dia Orson jogou um reagente na água para descobrir se Garbo fazia xixi enquanto nadava. Fazia.” (pág. 126).
- O diretor de filmes Ernst Lubitsch é comparado por Billy Wilder (outro grande diretor) aos atuais diretores ginecologistas: “ele podia ser mais sensual com uma porta fechada do que esses rapazes com uma braguilha aberta”. E Ruy Castro arremata o elogio, lembrando a morte de Lubitsch”Ele teve uma Coisa durante uma chuveirada, logo depois de transar com uma mulher. Nunca se soube de que ele morreu – se da transa ou da chuveirada”( pág. 144).
- Frank Sinata, quando casado com Ava Gardner, ao chegar em, casa encontra-a às gargalhadas com Lana Turner (um ex-caso dele). Sinatra suspeitou que as duas o estavam comparando com Artie Shaw, ex-marido de ambas, “de quem se dizia que tinha um membro do tamanho de seu clarinete. Frank ficou revoltado, disse desaforos, quebrou móveis e sumiu antes da chegada da polícia”.