sábado, dezembro 16, 2006

Os Cantares de Outubro

OS CANTARES DE OUTUBRO - Lázaro Barreto.

I
Toda vez que a criança é espancada pelo adulto
a terra treme até ao céu, se há céu
e Deus grita de dor, se há Deus.
Se uma criança chora de fome ao léu
e se outra é espancada debaixo do céu
é porque não há mais o Deus justo
para castigar os maus e premiar os bons.

O que há é o tombo seco
o murro na ponta da faca
a zoeira na cabeça indormida
a cidade que aboliu a infância
a casa que virou um inferno
o corrupto no legislativo, o cara de pau
em toda parte, em toda parte partida
entre o barro e o chumbo do poder despudorado.

A menina dos olhos do menino
é a mãe tornada madrasta
é o pai que virou demônio
é a casa que virou inferno
é a televisão exibindo a feiúra
como se fosse a beleza.

II
O samburá na cerca de arame
contém um bebê chorando
enquanto a mãe capina o terreno
dos esporões no chão, das pedras no ar.
As rugas atacam a pele dos olhos
dos adultos adúlteros adulterados.

Não havia um caminho começando ali?
O que ali jaz é o roceiro pregado na cruz
é o cruzeiro da laje que abre os braços
enquanto o roceiro cai pela terceira vez.
Morrer aos poucos é a nossa vida
o pau de espinho é a nossa bandeira.

A caneta do chefe dá outros tiros fatais
a meningite esguelha outra criança
o galo canta no terreiro da cozinha
seu pensamento de extrema mudez
sua pena das galinhas esgoelhadas.

III
Toda família tem sua tristeza?
O pai chega em casa bêbado
a mãe bate no filho, em si mesma.

Toda mulher feia é infeliz
Todo homem pobre é feio
Toda criança é abandonada.

Dorme que o lobo fareja o barraco
dorme enquanto o traficante não vem
dorme que o político infame
vem te pegar.

IV
Quem se levanta do nosso lado?
“Olhai pro céu, olhai pro chão pro chão”
para os aleijados se levantarem.
Um cão late dentro da noite horrível
é o porta-voz do supremo mandatário da nação?
O rio canta, mas ninguém ouve
o soluçar da insônia infantil.
Apenas a fome
apenas a morte lambe as rugas do velho.

Somos milhões de cristos na noite
de mais uma sexta-feira das paixões.
O latido incômodo vibra no ar
atravessa a rua, vem trazendo as fezes
de Brasília encantoada no mundéu.
A criança que contesta Deus
grampeia três folhas de papel almaço
leva outra surra do pai danado
leva outra surra da mãe danada.

Quem vai recuperar a vergonha na cara
de agora em diante?
O que esses sacanas pensam que são?
Se olhassem na água pútrida da latrina
o que esses crápulas veriam lá dentro?
: fidelíssimos espelhos acusadores?