quinta-feira, dezembro 14, 2006

Leiturista Pinçador II

O LEITURISTA PINÇADOR II - Lázaro Barreto.


1 – “Linguagem e Silêncio”, de George Steiner, trad. de Gilda Stuart e Felipe Rajabally – Companhia das Letras, SP, 1988.
- “As ciências enriquecem a linguagem e a capacidade de percepção. Thomas Mann demonstrou em “Felix Hrull”, é da astrofísica e da microbiologia que talvez venhamos a colher nossos futuros mitos, os termos de nossas metáforas. As ciências reformularão nosso meio ambiente e o contexto de lazer ou subsistência no qual a cultura é viável” (pág. 24).
- Um crítico não tem acesso a certas generosidades da imaginação às quais um artista tem direito” (pág. 239).
- “Agora as sereias tem uma arma ainda mais fatal do que suas canções”, escreveu Kafka nas “Parábolas”, ou seja, o silêncio. E, embora por certo isso também tenha acontecido, ainda assim é possível que alguém tenha escapado do canto das sereias; mas de seu silêncio, certamente, jamais” (pág. 74).
- Em Péguy ressalta a lógica da persuasão visceral. Para ele “a prova emerge da veemência da reafirmação, cada insistência desenvolvendo uma espiral de volta a sua premissa. Seus ensaios e livros não são iguais a nenhum outro; feras lentas que trilham a mente” (pág.110).
- “Partindo de um mito-chave, bororo, Lévi-Strauss analisa elementos significativos de 187 lendas e contos populares do Amazonas; por meio de complexas matrizes geográficas ,lingüísticas e tópicas, mostra que esses mitos são, em última análise, inter-relacionados e congruentes” (pág. 252).
- “O teatro pode subverter as barreiras da alienação que dividem o escritor do público, da comunidade em geral. No teatro, o homem é ao mesmo tempo ele próprio e seu vizinho” (pág. 337).

2 –“ Música e Literatura”, de Federico Sopena, trad. de Cláudia A. Schilling, Edit. Nerman, SP , 1974.
- “Não fui o único a notar (nas telas de Delacroix) que os quadros mais apaixonados e mais íntimos ao mesmo tempo, nos quais a cor parecia um grito, tinham comunidade de sentido com Chopin” (pág. 27).
- “As coisas evoluem depressa depois que começam. Lord Byron costumava citar o provérbio grego: “o deus cego aproxima-se a pé, porém foge voando” (pág. 55).
- “Isto que é o lirismo pictórico de Klee, isto que é o belo silêncio de algumas velhas praças de Berna, isto que Rilke também viu: coisas e espaços resolvidos em música” (pág. 105).
- “Em Proust a música desempenha um singular papel de protagonista” (pág. 108).
- “Uma voz bela serve à música maravilhosamente porque a transforma em nada mais e nada menos do que num belo corpo” (pág. 112).
“Ao ouvir música percebemos outra coisa inexprimível,...,uma correspondência com Deus, uma canção de pecado,...a nona sinfonia (de Beethoven) tem o ar de dominar a história (...). A reforma de Lutero aboliu a Missa. Mas a Música é quase um Sacramento (...), das sombras para a luz: Mozart no céu”(pág.s.120, 121, 128 e 131).
- “Só com uma cultura viva, reservando tempo para a solidão, para o silêncio, para a leitura, entre tantas viagens, é possível escrever” como os grandes autores (pág. 152).

3 –“ Arte Poética”, de Aristóteles, trad. de Pietro Nessetti, Edit. Martin Claret, SP, 2004.
- Resumidamente entendemos que para Aristóteles a produção de arte é conseguida através da imitação e não propriamente da criação, que seria uma prerrogativa da Natureza, ou seja, da Divindade (pág. 23). A arte da representação, em suas diversas manifestações, tenta exprimir o que há de melhor e o que há de pior no ser humano (págs. 26 e 27). Outras constatações de nossa leitura: a intriga é mais importante que o pensamento (pág.13), a poesia exprime o universal (pág. 14). Diferentemente de Platão, que defendia a inutilidade da arte, Aristóteles vê na obra de arte a catarse, a purificação e a purgação, como valor maior (pág. 16). Para ele os encantos dos cantos corais são despidos de perigos e repletos de bem estar, despertando a salubridade anímica através do impulso às outras atividades (pág.17). Só a beleza contém a magnanimidade e a grandeza (pág. 39). Ao longo do livro ele vai expondo e definindo a beleza, o temor e a compaixão da tragédia (pág. 51), fala na coerência da incoerência, da perversidade gratuita (pág. 57), de Clitemnestra (55), dos coros e dos cantos (68), das metáforas (75) de Homero (82, 84), de quando a poesia reclama os ânimos (64), o verossímil e o irracional (87), de quando o incrível é digno de fé (93), de Édipo (107), dos peripatéticos, do Oriente versus Ocidente (129) e da existência do não-ser (143 e 144).

4 – “A Angústia da Influência”, de Harold Bloom, trad. de Arthur Nestrovski, Imago Editora, Rj, 1973.
- “Da religião nascem todas as artes da humanidade”, conf. Vico (pág. 96).
- Na visão de Hegel, todo poema não passa de um prelúdio de percepção religiosa, e num poema lírico maduro o espírito já se encontra separado do sensorial, uma vez que a arte está mesmo a ponto de dissolver-se na religião” (pág. 98).
- “Todo autor cria seus precursores”, diz Borges, “sua obra modifica nossa concepção do passado, como haverá de modificar o futuro” (pág.12). Chomsky observa que ao se falar uma língua já se sabe, com efeito, de um grande número de coisas das quais jamais tinha tomado conhecimento” (pág. 56).
- “Quando duas pessoas se apaixonam”, diz Kierkegaard, “e começam a sentir que foram feitas uma para a outra, então é hora de romper, pois ao prosseguirem não têm nada a ganhar, e tudo a perder” (pág. 64).
- Assim diz J.H.van der Berg: “os poetas são hierofantes da inspiração inapreendida; espelhos das sombras gigantescas projetadas pelo futuro sobre o passado” (pág. 73).
- Nietzsche se reconheceu herdeiro de Goethe que, como Milton, absorveu outros precursores com um prazer que excluía a angústia da influência que, para Nietzsche, significa revitalização (pág. 84). A maior parte dos homens só ama no outro a sua versão do outro, ou seja, é a si mesmo que ama (...). Tudo o que é grande nos modela, tão logo nos chega à consciência. Assim falava Goethe (págs. 84 e 85).
- O livro é imenso, imensamente bom. É melhor lê-lo na íntegra.

5 – “Borges – Nova Antologia Pessoal”, trad. de Maria Julieta Grana e Marly de Oliveira Moreira, Ed. Sabiá, RJ, sem data.
- Enquanto dormimos, estamos acordados em outro lado, e assim cada homem é dois homens (pág. 91).
- “Então Bioy Casares se lembrou que um dos heresiarcas de Ugbar declarara que os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número de homens”(pág. 82).
- “As coisas duplicam-se em Floon; tendem, também, a apagar-se e a perder as particularidades quando são esquecidas.É clássico o exemplo de um umbral que perdurou enquanto foi visitado por um mendigo, e se perdeu de vista quando ele morreu. Às vezes alguns pássaros, um cavalo, salvaram as ruínas de um anfiteatro” (pág. 95).
- “Não tenho vocação para iconoclasta. Julgava que a beleza era privilégio de alguns poucos autores. Agora sei que é comum e que nos está espreitando nas páginas casuais do medíocre ou num diálogo de rua” (pág. 238).
- “A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem dizer-nos alguma coisa, ou alguma coisa disseram que não deveriam ter perdido, ou estão prestes a dizer-nos alguma coisa. Esta iminência de uma revelação, que não se produz, é, talvez, o fato estético” (pág. 205).
- Assim afirma De Quincy: “Até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que de algum modo tenham suas chaves correspondentes, sua severa gramática e sua sintaxe e assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores “ (pág. 215).
- “A literatura começa pela poesia, e a poesia pela épica; é como se, antes de falar, o homem cantasse. Já que a origem da literatura, é oral, esta prioridade bem pode ser atribuída à virtude mnemônica do verso. No Indostão, segundo Wintermit, os códigos estavam redigidos em versos, para que os fixassem na memória” (pág. 230).
- “Chesterton define a noite como um monstro feito de olhos. Um epigrama da antologia grega declara: “Quisera ser a noite para olhar-te com milhares de olhos”” (pág. 235.
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