domingo, dezembro 17, 2006

Natividade

NATIVIDADE (*) - Lázaro Barreto.


Vi hoje um movimento do corpo
Que era da alma.
Vi Deus no cocho das cabras e bezerros,
Com os olhos de quem ama.

Com os olhos de quem ama vejo
Os homens próximos dos homens.
Milhões de estrelas do céu e do mar
São milhões de sinos, vibrando.

Quem vela o sono das palavras
Que sonham, para publicá-las,
nascidas de novo: sem essa pessoa
O vermelho não existiria tão puro.

Quem ama os detalhes do inverno,
Como a infiltração por entre os vegetais
De um nítido raio de sol sustenido,
Quem recolhe os bemóis da cachoeira,

As decantações de perolas e peixes:
Esse (o ser humano que deveríamos ser),
tem lúcida voz própria, que anuncia:
“Silêncio que aí vem Deus!”

(*) Transcrito do livro”Mel e Veneno”, edição do autor, em 1984, Divinópolis, MG.