sábado, maio 17, 2008

A IMPECÁVEL IMPERATRIZ LEOPOLDINA

Faço aqui um resumo dos dados e constatações, inferências se transcrições resultantes da copiosa leitura do livro “D. LEOPOLDINA – CARTAS DE UMA IMPERATRIZ”, de vários autores (Bettina Kann, Patrícia Souza Lima, Andréa Slemian, André Roberto de A. Machado, István Jancsó, Maria Rita Kehl, Guilherme João de Freitas Teixeira, Tereza Maria de Souza Castro e Angel Bojadsen) – Editora Estação Liberdade, 2006 – RJ. Inteiramente lido e anotado em fins de dezembro de 2006 e início de janeiro de 2007, leitura seguida de uma poética e proveitosa viagem à Áustria, onde passei, com a esposa e amigos, momentos inesquecíveis de contemplação da harmoniosa beleza das paisagens naturais e construídas, nos campos e nas cidades. Certas colinas chegam a dar a impressão de colagens ilustrativas de páginas bíblicas de preservadas sacralidades. As cidades antigas continuam sendo as mais novas do conhecimento humano, uma vez que não se contaminaram do impulso progressista que tanto deforma a feição estética para beneficiar o rendimento meramente financeiro. Ficamos horas e horas no Palácio Schonbrum, onde a nossa Leopoldina, filha do Imperador Francisco I, viveu antes de vir para o nosso país. Um cenário de deslumbramento por assim dizer intrínseco, uma vez que a naturalidade de tão antiga e sólida torna-se imperecível e, portanto, contemporânea. Uma antiguidade sempre moderna, por assim dizer. Tanto nos interiores requintados, brilhantes e encantatórios, como nos arredores ajardinados de tal maneira que a mão do homem se confunde com a própria mão de Deus – por assim dizer. Leopoldina era sobrinha de Maria Antonieta (mártir da Revolução francesa) e da Imperatriz Sissi (famosa pela série de filmes holliwoodianos), tinha 12 irmãs, uma das quais, a Maria Luiza, era casada com Napoleão Bonaparte. Seu nome completo é Maria Leopoldina Carolina Francisca Fernanda Beatriz, nascida em 23/01/1797. Sua filha Maria da Glória (1819-1855) casou-se com o tio Dom Miguel e foi sagrada Rainha de Portugal em 1828, com o nome de Maria II. Seu avô, Leopoldo II, foi Imperador da Alemanha e da Áustria, Rei da Hungria, Boêmia, Lombardia e Veneza. Uma biografia ilibada, a dela, pelo que se nota. Já o marido, Dom Pedro II (com o perdão da opinião) não primava pelas mesmas virtudes biográficas. O próprio pai de Leopoldina, sabedor da galinhagem sexual do genro, escreveu à Metternich que ele “é uma pessoa digna de pena”. O primeiro adultério aconteceu com a Domitilia de Castro (que era casada com Felício Pinto Coelho), a partir de 1822. Em 1825 ela foi nomeada Primeira Dama da Imperatriz, a quem confidenciara sofrer de morféia, “certamente com o intuito de afastar a imaginação da Imperatriz de ter seu esposo qualquer idéia de um contato mais íntimo com ela”, conforme está na página 518 do livro “CARTAS DE PEDRO I À MARQUEZA DE SANTOS – NOTAS DE ALBERTO RANGEL (Editora Nova Fronteira, RJ, 1984), que descreve as vicissitudes conjugais do infausto casal - algumas das quais citaremos nesta resenha. Outras amantes dele, o incontentável: a dançarina francesa Noemi (com quem teve uma filha, morta precocemente), Mariquinha Campos, Ana Rita (esposa de Plácido de Abreu), Ludovina (esposa do general Avilez), atriz Carmem Garcia, a esposa do naturalista Bompland, Maria Joana (filha de um capitão e casada com um general), Regina de Saturville (esposa do judeu Luciano), Carlota Ciríaco (filha de um rico industrial), Madame Saisset (costureira da Corte e esposa de Pedro Saisset, comerciante da Rua do Ouvidor – é de tradição oral que um filho dele (com ela) foi criado por amigos na Província de Minas, onde constituiu renomada prole com o sobrenome Pedro de Alcântara, em Pedra do Indaiá, conf. consta no livro “Família Oliveira Barreto”, página 161, deste resenhista), Joaninha Mosqueiro, Luizinha Mosqueiro, Andreza Santos, Gertrudes Meireles, Ana Sofia e Ambrosina Carneiro Leão. Na página 140 do citado livro de notas de Alberto Rangel, consta que “a voz pública espalhou que Dom Pedro tivera uma forte discussão com a esposa a propósito de dona Domitilia e que, chegando a maltratá-la fisicamente, dera causa à moléstia de que viera a falecer Dona Leopoldina. Fala-se até num pontapé que ele aplicou no ventre pejado da esposa”. Baixaria indigna de um imperador, não? Na página 167, do mesmo livro, menciona que Leopoldina era feia e desmazelada – mas o retrato dela estampado na capa do livro “D. Leopoldina – As Cartas de Uma Imperatriz”, contradiz essa falácia; ali ela aparece elegante e bonita, com uma leve expressão magoada no rosto, que não chega a sombrear a doce formosura dos traços de pessoa formosa, altiva e generosa, apesar de tantas vicissitudes sofridas. O pesar que me fica ao tomar conhecimento de tais desditas na leitura dos dois livros é constatar que o nosso país perdeu o lado afável e civilizado da influência austríaca para, desastradamente, adotar o lado intempestivo e malcriado de um imperador mais preocupado em namorar do que em governar. Se a nação brasileira tivesse admitido a boa influência dela em vez da má influência dele, a história de nosso país seria outra, muito melhor, mais honrosa e esclarecida. Mas, enfim (o que se pode fazer agora?), estamos aí na infindável enrascada de intermináveis desgovernos nacionais.