terça-feira, setembro 16, 2008

PALAVRAS DO ALEGRE DESESPERO (*) - Lázaro Barreto.


- Passar da fé ao ateísmo é passar da esperança ao desespero. A esperança é a principal causa dos suicídios – constatam os terapeutas se os psicanalistas, depois de lerem o primeiro livro de André Comte-Sponville, “O Tratado do Desespero e da Beatitude”. Por que? Porque a maior causa do suicídio é a decepção. Só teremos felicidade na proporção do desespero que formos capazes de suportar”, ele afirma.
- A religião é uma ilusão por ser um pensamento derivado não de um saber – pois é evidente que não há um saber de Deus -, mas de nossos desejos!
- O ateísmo provém do fato de a esperança não ser um argumento.
- Crer em Deus, ousar celebrar a bondade e a onipotência dele diante de uma criança que sofre e morre, isso, aceitar o inaceitável, é covardia.
- Se a ciência e a técnica podem controlar a natureza.... Quem controlará o controle? Aí cabe a famosa frase de Rabelais: “ciência sem consciência é a ruína da alma”.
- Assim como o pensamento é produzido por um órgão material, o cérebro: assim é que, segundo Freud, a vida consciente é determinada pela vida inconsciente. O amor é um produto da sexualidade, que é uma parte animal – mas que depois pela educação, pela cultura, pela sublimação, produz nossa vida espiritual. Isso sem a conclusão que a sexualidade tem mais valor do que a arte, isso não.
- O que faz uma civilização não são somente fábricas, indústrias, escritórios: é também e sobretudo, o que se vive de espírito, de amor, de relações humanas... São valores não encontráveis na religião.

- Para aceitar a vida tal qual é, diz Montaigne, é preciso aceitar a idéia da própria morte, uma vez que a vida inclui a morte. É assim que aprender a viver é aprender a morrer.
- Jamais vivemos: esperamos viver – diz Pascal – e daí vem o que o autor (Sponville) chama de seu alegre desespero.
- É preciso amar as pessoas como elas são, ou não as amar. Se amá-las como não são, não são elas que você ama, são seus sonhos... É preciso esperar um pouco menos e amar um pouco mais.
O homem que morreu na cruz pode não ser Deus nem filho de Deus – mas morreu na cruz em nome do amor, do amor sofredor, o amor frágil, o amor mortal.
- Sponville se considera um ateu fiel porque considera fidelidade o que restou da fé quando se perdeu a fé, ou seja, a fidelidade ao espírito de Cristo, que é de justiça e de caridade. Se Deus nos abandonou, só nos resta o amor (creio ser esta, também, a convicção do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, quando ele diz num de seus belos poemas que o sangue dos bodes e dos touros seca nas páginas do Antigo Testamento e que uma nova palavra, em forma de flor: AMOR, brota nas páginas do Novo Testamento).
- Quando temos Amor dispensamos a Fé porque não precisamos de Deus, já estamos em Deus; não precisamos da esperança, pois nada mais temos a esperar. De forma que só resta o Amor. Como diz Espinosa: a única sabedoria é a alegria: a única alegria é a de amar.



Ilações da Leitura: DEUS EM MIM.

Ficar comigo mesmo alguns minutos
no intervalo de horas e horas,
é o que há de melhor em mim
e fora de mim:
é quando me vejo inteirinho
(como uma criança?)
na posse dos dotes e dos dons mais íntimos,
em alguns minutos do tamanha da eternidade.
Subitamente revelam-se em mim
o doce mistério da vida, aproximando,
incorporando-se à minha pessoa.
Às vezes cuido que Deus é uma sombra:
estava tão perto que eu nem via.
Minha sombra depende de mim para existir.
Quando estou em mim Deus abre meus sentidos
para a música em forma de flores.
Sei que não está me seguindo nem perseguindo,
que ele não é como dizem ser:
ele é a luz de meus olhos,
a emoção de meu encantamento,
a beleza que não faz mal a ninguém.
Ele não é o mesmo em todas as pessoa,
e que cada um cuide bem de seu Deus.
Como ele poderia ser alguém longe ou perto
com seus trilhões de olhos e de pernas e de braços,
para fazer o bem e o mal?
Ele é apenas o AMOR das criaturas,
que está em cada uma delas:
o Bem livre do Mal.

(*) - Escrito depois da leitura do pequeno grande livro ANDRÉ COMTE SPONVILLE
- O Alegre Desespero – Editora UNESP, tradução de Maria Leonor F. R. Loureiro – São Paulo, SP, 2002.