quarta-feira, outubro 22, 2008

Serra Negra do Curral - conto de Lázaro Barreto

SERRA NEGRA DO CURRAL


Serra negra do verde mais antigo, do ouro mais brioso (que foi parar em mãos alheias), serra negra dos mares remotos e dos alimentos orgânicos – as matas nativas do século dezoito estendiam-se de um lado até Pium-i, do outro até Congonhas, o verão chovia onde outrora morava uma rosa em cada cálice verde e depois nevava de abril a julho, onde o indiozinho vivia a gangorrar: hoje nos lugares só existe a textura argilosa do solo ondulado, de baixa fertilidade – as serras periféricas e os degraus intermediários converteram-se em leitos de mares mortos e serras sucessivas como as do Mutirão, das Piteiras, do Amaro, da Siriema, das Flechas, das Mamonas, do Repuxo, das Perobas, onde outrora demarcaram-se as primeiras sesmarias do Campo Grande do Espírito Santo das Itapecericas.

O Escrivão.
Ele misturava as palavras na cabeça e no papel, tinha as mãos trêmulas (quando ia tomar café, tinha que segurar a tigela com ambas as mãos, para que não entornasse), o olhar um pouco alheio – gostava de brincar de morrer, sonhar com os sonhos, viver a morte, morrer a vida. As interpolações davam sentido à clareza no emaranhado dos dias e lugares. Gostava de um gole de pinga e de comer angu com quiabo ao molho de frango. Quando ia fazer um registro no livro ou extrair cópia de certidões fazia, antes, uma oração a São Roque, rogando que o mantivesse lúcido e coerente. Escrevia devagar, caprichando nos traços, parava para ler e não raro batia o carimbo de “inutilizado” na página, para se livrar dos erros de gramática e de articulação. Era nervoso e atribulado pelos demônios do realismo mágico.

Quando ia passar uma escritura de compra e venda de terrenos, errava onde não podia errar, baralhava todo o contexto, colocava as medidas e confrontações onde deveriam constar os nomes dos outorgantes. Em outros assentamentos deixava escapar dos dedos pedaços de pensamentos descabidos, intercalados no fluxo peculiar do discurso cartorial frases soltas como “preciso matar o gavião que está acabando com os pintos do quintal”; “deu uma goteira no meu ouvido esquerdo”; “o porco já está com três dedos de toucinho”; “esses meninos vão acabar com meus dias de vida”. A casa era espaçosa e cheia de gente. Casara duas vezes, tinha filhos e netos da mesma idade. Sustentava umas quinzes pessoas, mais ou menos, incluindo genros e noras e irmãos paralíticos e sobrinhos deserdados. As duas salas da frente, destinadas ao Cartório, regurgitavam de pessoas que desejavam lavrar escrituras, extrair certidões, firmar contratos de casamentos e de promessa de compra e venda de imóveis. A família se misturava à clientela e também os gatos, os cães, as galinhas e leitões capados.

O sonho é uma carta enigmática, ele dizia a um de seus botões, no meio da barafunda. O ser humano não está abaixo nem acima de qualquer animal, pois é um animal como outro qualquer, acrescentava ao pensamento, enquanto corria a pena no papel pautado do volumoso livro de suas horas contadas. Uma vez registrou a criança que deveria chamar-se Rodolfo Antunes com o quilométrico nome de Rodolfo Vai Pra Dentro Menino Antunes. No meio de tanta algaravia, a cabeça a rodopiar, seu ofício ficava realmente difícil. A caligrafia se expunha nítida, a descrição ia bem – mas se via o menino de bunda suja, pensava e escrevia no meio dos alqueires e tronqueiras a frase “a maior beleza do corpo é a limpeza da alma”, e em seguida ralhava a plenos pulmões: “Vai pra dentro, macuquento!” Nos últimos anos de vida ampliou a margem dos erros e não acertava, na íntegra, qualquer anotação de fôlego. É por isso que em Serra Negra (e também nas Três Barras e no Tira-Chapéu e nos Marimbondos, povoados vizinhos) tem muita gente com nome esquisito e até espúrio. Ainda vivem nas redondezas os João Ontem Choveu de Castro, o Sebastião da Abóbora de Porco Antunes, o Manoel Titica de Galinha Rodrigues, o Isidoro de Assunção Vale Seis Ladrão de Milho, o Antônio Pasto de Gabirobas da Cruz, a Maria Cotia das Aves de Azevedo, Lucia Crioula Banguela da Silva, o Julio Pagode Sem Sanfona Dias Furtado, a Julia Jurubeba Sem Graça das Graças. Aconteceu até mesmo no casamento da Célia com o Célio, ele casar a noiva com o próprio pai, reservando ao noivo o simples papel de testemunha.

Mas foi muito pranteado, quando morreu. Era um guerreiro, dizia um do lugar; um feijão sem bicho, dizia outro, de outro lugar. O enterro foi ao som de sinos merencórios, banda de música fúnebre, com o tristíssimo solo de clarineta do Eu Zébio da Pedra Rosa – e o choro entoado de toda a numerosa família.