quarta-feira, janeiro 14, 2009

DISQUISIÇÕES E INQUISIÇÕES DE BORGES (*) – Lázaro Barreto.


(o texto abaixo procura dar uma idéia sucinta e genérica do conteúdo do livro OUTRAS INQUISIÇÕES, de Jorge Luiz Borges. Reporta-se a uma atenciosa e deliciosa leitura agora mesmo concluída. Meu texto, nesta espécie de resenha, é copioso – e julguei conveniente escrevê-lo ainda no calor da leitura, sem emitir juízos de minha parte. Vai assim em forma de transcrição de notas e fragmentos, sem menção de páginas, parágrafos e aspas, com (algumas palavras de minha autoria revestindo, resumindo e adaptando na medida dão possível, como proporcionalmente ele faz ao longo do livro com as inumeráveis citações dos textos dos mais expressivos autores literários de todos os tempos. Vamos ver se o leitor aceita e me perdoa a ousadia da intenção de resumidamente encaminhar o que em bloco recebi).

- Todas as artes aspiram à condição da música, que não é senão forma. Ela e os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares querem nos dizer algo.... Platão assegura que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme. Porque todos os pontos da superfície são eqüidistantes do centro. Giordano Bruno proclama que a divindade está dentro de nós mais ainda do que nós mesmos estamos dentro de nós. Shelley declara que todos os poemas do passado, do presente e do futuro são episódios ou fragmentos de um único poema infinito, construído por todos os poetas do mundo. Escrever um belo poema, como Coleridge conseguiu com o fragmento lírico. “Kubla Khan”, na opinião de Swinburne, é como destecer um arco-íris.

- Schopenhauer escreve que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro: lê-las é viver; folheá-las, é sonhar. O conhecimento perfeito de um ”instante” (argumenta John Stuart Mill) é suficiente para que uma inteligência infinita soubesse a história do universo, passada e vindoura. Empédocles de Aprigento afirma: “fui um menino, uma moça, uma moita, um pássaro, um peixe mudo surgido do mar”. A linguagem, observa Chesterton, “não é um fato científico, mas artístico: foi inventada por guerreiros e caçadores e é muito anterior à ciência”. Joseph Conrad escreve que excluía de sua obra o sobrenatural porque admiti-lo seria como negar que o cotidiano fosse maravilhoso. A alma quando sonha (Addison assegura – é teatro, atores e platéia. Jung, por sua vez, equipara as invenções literárias às invenções oníricas, a literatura aos sonhos. Um grande escritor cria os seus precursores. Cria-os e de certo modo os justifica. O que seria de Marlowe sem Shakespeare?

- Emerson acreditava que o universo é uma projeção de nossa alma e que a história universal está em cada ser humano. O passado não pode ser abolido, é indestrutível – cedo ou tarde todas as coisas voltam, e uma delas é o projeto de abolir o passado. Paul Valéry simboliza infinitas destrezas e infinitos crepúsculos, personifica os labirintos do espírito; Walt Whitman é o símbolo de uma vocação de felicidade quase incoerente, porém titânica. O primeiro é o delicado crepúsculo europeu, o segundo representa o amanhecer dos Estados Unidos. No Rubaiayat, de Omar Khayyam há uma melodia que escapa e uma inscrição que dura.

- Oscar Wilde diz que a música nos revela um passado desconhecido. Deus, escreveu Espinosa, não quer mal a ninguém nem quer bem a ninguém. O mundo, segundo Mallarmé, existe para um livro; segundo Leon Bloy, somos versículos ou palavras ou letras de um livro mágico, e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo: melhor dizendo: é o mundo. Falando sobre Hitler, ele cita Mark Twain: “eu não pergunto de que raça é um homem; basta que seja um ser humano, ninguém pode ser nada pior”. Tão complexa é a realidade que um observador onisciente poderia redigir um número indefinido e quase infinito de biografias de uma pessoa, destacando fatos independentes, de modo que teríamos de ler muitos deles antes de entender que o protagonista é o mesmo. Martin Buber escreve que viver é penetrar numa estranha moradia do espírito, cujo chão é o tabuleiro em que jogamos um jogo inevitável e desconhecido contra um adversário cambiante e às vezes horrível. Ninguém viveu no passado (Schopenhauer diz) e ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda vida, é um bem que nenhum mal consegue arrebatar. A glória de um poeta depende da excitação ou da apatia das gerações de pessoas anônimas que a põem à prova, na solidão das bibliotecas.

- Borges, ao dizer que só se perde o que não se teve, me enche de recompensas – e posso dizer que se tive um amor, ainda o tenho! Estou rico, milionário em mim: tudo de bom que tive (e não apenas o de ruim), ainda tenho, vivo, disponível na memória, que é um bolso onde encontro o que não poderia ter perdido. O momento passado é sempre contemporâneo do momento presente: o pensamento é a chave da alma e atualiza, sempre, a memória. Ler Borges é encantar e aprender – é chegar a um lugar físico e mental do planeta e da história em que convivem as mais afortunadas mentes e corações (Platão, Aristóteles, Shopenhauer, Keats, Coleridge, Espinosa, Milton, Swinburne, Chaucer, Shakespeare), pessoas por assim dizer encantadas, que encantam. Como os rouxinóis e os gatos.

(*) – Jorge Luiz Borges (24/08/1899 - 14/06/1986), autor argentino de abrangência internacional. Um dos mais abalizados escritores eruditos (em prosa e verso) do século vinte.