terça-feira, março 03, 2009

ATO 5 – Revista de Literatura - Lázaro Barreto.

Michelle Campos:
desprendida, dona de si e mesmo assim atônita. A reparar nas flores despetaladas saindo de dentro dela, que apenas olhava para o dia seguinte.
Luís Serguilha:
o bloco de palavras inescritas, o feixe de versos inamovíveis, o vocabulário hermeticamente fechado a quem dele almeja entrar ou sair.
Amanda Casal:
permanece submersa entre escolhos de navios mineiros
inventando mulheres desnudas
em acessos de espera e vibrações de despedidas.

Carlos Augusto Novais:
a clara e plausível constatação de Flora Sussekind de que “a prosa de ficção brasileira das duas décadas seguintes ao golpe militar de 1964, seja ela naturalista ou fantástica, social ou autobiográfica, encontrou, na alegoria e na parábola, privilegiados procedimentos de comunicação” A literatura é uma faca de muitos gumes, e o mais cortante é o da contestação indireta. Confirmar ou não.

Adrian Munhoz traduz Olga Valeska:
“Toda pétala é uma extensão de teus dedos de mercúrio
Todo inferno merece seus apocalipses
Pois toda flama ilumina e incinera
Toda árvore serve de balanço e de cadafalso”.

E depois vem Max Moreira a comer o “sublime queijo do esquecimento”, agora momentâneo e depois repetente. E depois vem o Camilo Lara resenhando os flashes sonoros dos eternos anos sessenta. Depois o Fernando José Karl com os graves e agudos e lacônicos apontamentos de escorpião que “fora de mim agrilhoa”, considerando que a lua que “é chuva branca caindo nos olhos da meia-noite” – e a dolorosa estrofe da morte da mãe de todas as pessoas:
“Eu só posso pressentir a morte de minha mãe
- dentro de mim, no lado cardíaco da aurora –
Foi tão claro o lúmen de seu olhar”.

E depois de dois textos (de Jovino Machado e de Wagner Moreira) sobre dois poetas emblemáticos (Dylan Thomas: “a metade deste mundo é do demônio, a outra metade é minha”; e Tião Nunes, o poeta que “decompõe o objeto até pulverizá-lo para recompô-lo em outra visada”). E depois, nas últimas páginas, chegamos ao Calabouço e ao Caleidoscópio de Adriana Versiani;
“Quem dera pudesse dissipar a sombra.
A chave esqueceu-se na fenda da cratera”.
E depois vem as acontecências de “68 por 68”, de Marcelo Dolabela: “1968 foi a explosão de um clique. De uma enorme represa. Várias culturas. Várias batalhas”.E vem, também, airosamente, Marco Anhapoci:
“Não estou em nenhuma fotografia: meu corpo todo é língua: o silêncio é seu idioma”.

Sinto e confiro que já passou da meia-noite e ainda falta ler (auscultar as minúcias) do número 06 da Revista ATO, com mais de 20 poetas e prosadores; e os números de dezembro e de janeiro do jornal literário DEZFACES, que já se tornou um ponto de referência e de contribuição (mineiras!) na sedimentação e floração das potencialidades e realidades do criacionismo literário de nosso tempo, tão escorregadio em outras áreas. São oitenta páginas preenchidas com textos de mais 45 colaboradores. Nunca se viu tanta fartura qualificada em Minas, no campo da literatura de vanguarda, não é mesmo? Literatura de vanguarda? Sim, a que abre caminho não para os princípios, meios e fins de rotações, mas sim o caminho em si mesmo, onde a vida vai e vem, vem e vai.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

oi lazaro barreto!!! achei o blog por acaso, q legal.
abraço pra vc
dioli
www.barkaca.blogspot.com

9:13 PM  
Blogger clevane said...

Lázaro:tenho visitado seu blog sempre riquíssimo e instigante.Sinto o amigo sempre jovem e firme.Sempre indico seu blog a outros escritores.
Um abraço de Victor Cravo e Rosa.

12:45 AM  

Postar um comentário

<< Home