segunda-feira, fevereiro 23, 2009

OS RETALHOS DO TECIDO III - Lázaro Barreto.


- As figuras bíblicas do fariseu e do publicano representadas nos dias atuais? O primeiro orgulha-se de pertencer à classe dirigente – e sem mover uma palha é a favor da Justiça e da Virtude, julgando-se superficial e sorrateiramente um justo e um virtuoso. O publicano, coitado, drasticamente rebaixado na escala hierárquica social, alimenta-se de cabeça baixa de retalhadas sobras, consumindo-se aos poucos entre a inveja e a rebeldia arraigadas no subconsciente. O cristão verdadeiro não é o primeiro nem o segundo. Quem será? Alguém aí conhece ao menos um deles?

- A presença online da literatura vem suprir, com muita limitação e até certo ponto, a ausência de novos autores publicados nas editoras comerciais, que preferem publicar os autores bafejados pela mídia, entre os quais figuram uma porção de verdadeiros não-escritores (políticos, artistas de cinema e de TV, jogadores de futebol, criminosos famosos). Ao autor sério o que interessa e encanta é o leitor com o livro nas mãos e nos olhos, onde quer que esteja em seus momentos disponíveis – e não apenas diante do computador, numa feição um tanto abstrata e principalmente mecanizada.

- O conceito de homossexualismo não se restringe ao pederasta, simplesmente. Os ficcionistas que “capricham” na descrição dos personagens masculinos (posso citar, de relance: Homero, Goethe, Thomas Mann, Wilde, Gide, Cocteau, Joyce, Lawrence, Whitman, Proust, Gide, Borges, Machado de Assis, Cervantes, Guimarães Rosa), evidenciam a “elegância” dos gestos e das ações e feições dos homens e não apenas das mulheres. Ao contrário dos empedernidos machões de plantão, que “divinizam” o que chamam de sexo frágil e “demonizam” seus parceiros, os outros autores teriam uma tendência complacente, quase feminista (ou aqueles camuflam a mesma tendência com a virulência de um porco chovinista?). Conheci um rapaz “assumido”, que sempre respondia a quem estava na dúvida sobre a sua propensão, com as palavras: “sou, sim – e quem não é?” Na situação de um simples leitor, prefiro os autores “isentos”, ou seja, os que tratam com a boa vontade e o mesmo espírito carinhoso os personagens de ambos os sexos (que afinal são o princípio, o meio e o fim da mesma sexualidade).

- René Descartes é cartesiano é demais, racional demais. É o dono da razão (e com toda a razão?), não deixa nem um pouquinho de dúvida para o leitor questionar, levar para o momento de avivar a mentalidade. Não me furto aqui da tentação de anotar minhas ilações leiturísticas que fiz até a página 55 no livro de 143 páginas. Depois eu conto o restante? O livro é “As Paixões da Alma” (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal – 6, tradução de Ciro Mioranza, editora escala, São Paulo, SP, sem data).

- Respirar e aspirar: um pouco de nossa alma que vai e que vem. Vai para diminuir o excesso; vem para suprir a escassês. De vitamina polivalente!

- O corpo e a alma: as diferenças inseparáveis. A união harmônica resulta na felicidade.

- A alma perde seu alojamento quando o corpo esfria na morte.

- É belíssimo o sistema fluvial da circulação do sangue no corpo: os riachos que banham as cavidades, alimentando-as de vigor e delas recebendo impulsos para a contínua rotatividade da vitalização.

- Os dois braços da alma manejam os pensamentos, mormente os que se referem às ações da alma e às suas paixões.

- A sede da alma é uma glândula instalada no cérebro. Movida pela alma a glândula impele o espírito através dos nervos, passando aos músculos, movendo os membros.

- Um objeto externo assustador pode causar medo, pode também excitar a ousadia e a coragem.

- O desejo é o caminho das ações da alma.

- O significado das palavras que desejamos dizer é que movimentam nossa língua e nossos lábios.

- Há mais segurança na defesa do que na fuga; – e alegria no vencer em vez do pesar e da vergonha de ter fugido.

Finalizando, por ora, as inferências, posso dizer, admirado, que existem novidades muito e tão antigas. A leitura do bom livro é sempre conflituosa. Muitas vezes o leitor fica sem saber se já sabia ou se apenas tinha esquecido do que agora está reavendo. O ponto nodal da importância é dado no momento físico da leitura? Entre o céu e a terra..., como diria Shakespeare, outro autor hetero, ou melhor, bi-sexual no melhor dos sentidos.