sábado, junho 20, 2009




COMPUTAÇÃO GRÁFICA - Lázaro Barreto.


Desde que, ainda na juventude, comecei a estudar anotando (década de 50 em Belo Horizonte), devo ter percorrido muitas léguas com os dedos nas infinitas linhas dos caminhos da ignorância para os do conhecimento. Comecei com a leitura da História da Civilização, de Will Durant (12 massudos volumes capa dura de centenas de páginas cada). Na medida que lia, entendia que a ação humana no mundo físico produz dois comportamentos essenciais que se opõem e complementam ao mesmo tempo: o da piedade (poesia) e o da violência (política). Sentia que a relação dos fatos narrados da antiguidade até os tempos modernos não podia passar apenas pelos olhos e pelos outros sentidos de nossa pessoa. E para evitar essa passagem instantânea e a conseqüente evaporação, comprei dezenas de cadernos de páginas pautadas e assim, ao longo de três ou quatro anos transcrevi onde encontrava nas páginas do livro, as passagens referentes aos atos humanos temperados de piedade num grupo de cadernos e os embebidos de violência em outro grupo. Resultado: 10 cadernos de 100 páginas cada, preenchidos a lápis-cópia nos versos e anversos, que estão bem ali na estante, dormindo o sono da empreitada cumprida (e comprida!).

Na década de 60, quando trabalhava na CEMIG, depois de dedilhar anos a fio à máquina de escrever, passei a operar na área da mecanografia, com a máquina de cano longo, elétrica, precursora, ao que parece, do atual computador, que hoje é o debulhador e o receptáculo de toda a escrita em todos os seus desdobramentos em forma de e-mails (missivas), blogs (diários), sites (jornais, revistas), arquivos (crônicas, artigos, contos, poemas, livros de todos os gêneros, incluindo generosas enciclopédias). A tal propensão online de contatar (dar e receber) o que há no fundo e na superfície do conhecimento humano. Relutei muito em adotar novidades tão alvissareiras. Para falar a verdade, só desisti da máquina datilográfica quando ela não tinha mais conserto nem consertador. Meus filhos, que, então, já eram peritos em termos de words, windors, google, orkut e da internet de um modo geral, e de tudo o mais que comporta esse mundo virtual de nossos dias, convenceram-me aceitar e adotar esse manejo do menor esforço, que é a tal arte digital na agilização das leituras e escrituras de uma arte que antes era apenas gráfica, ou seja: mais dura e inamovível, mais demorada e inflexível. Meu filho trouxe o computador e a filha criou um blog literário, em que passei a publicar meus textos, que já somam a quase setecentos. O blog é: http://www.lazarobarreto.blogspot.com.

Confesso que tive de vencer a instintiva relutância de mudar uma forma de escrita e de leitura longamente eleita – a dos jornais , revistas e livros. Mas não posso nem pensar na morte definitiva dessa forma, já não vou dizer de toda a escrita, mas de toda a leitura. O livro perto dos olhos, a cabeça no travesseiro ou na cadeira inclinada é algo realmente insubstituível. Caso idêntico é o da inaceitável substituição do cinema pela televisão, o que muitos julgavam que ia acontecer e não aconteceu. Uma coisa pode até restringir o campo da outra, mas nunca eliminá-lo. O cinema está aí, vivo e palpitante, depois de dezenas de anos. O livro, da mesma forma, não morrerá.

Mas continuo leigo na técnica digital. Mal-mal recebo e respondo aos e-mails de alguns parentes e amigos. Mal-mal digito, salvo e gravo meus textos literários. Quando o trabalho exige alguma habilidade técnica, ah, deixo tudo de lado e volto ao meu feijão com arroz. Tenho um amigo e cunhado, que é perito nessa forma de expressão do pensamento. Ele mora em Manaus e seu nome é José Belém – e o texto dele que dá uma idéia da sabedoria online é o que abaixo transcrevo.

INTERNET – VANTAGENS E RISCOS – José Belém.

Vejo hoje, após anos a fio de acesso à internet, que seria impossível, talvez omisso e imaturo, não reconhecer tamanha transformação, evolução, crescimento globalizado, aproximação dos continentes, enfim, tudo o que a principio necessitávamos, desejávamos e porque não dizer, merecíamos.

Muito bem. Comércio aquecido e multiplicado, distâncias diminuídas, tecnologia compartilhada – e lembremos também dos corações flexados, apaixonados e alimentados virtualmente. Bom seria traduzir virtualmente como pura virtude... Mas deixemos o trocadilho e sigamos enumerando descobertas e acessos.

Dúvidas tiradas com um simples apertar de teclas, sites de buscas, e-commerces, sites de relacionamentos e tantos outros gêneros se multiplicando com a mesma velocidade com que se multiplicam os multimilionários, geralmente precoces – o mundo se tornou precoce, imediato e até frio: no meu entendimento posso dizer mercenário e cruel.

Viremos a página e enxerguemos a outra face. Internet: acesso ilimitado à pornografia, até a pior delas que é a infantil, deixando nossos filhos expostos e muitas vezes impostos por manipuladores virtuais de comportamentos modificados, de vidas comprometidas. Já não se consome livros como antes, bibliotecas são recortadas e coladas.

Hachers, piratas virtuais, novas gerações de gansgsters...É isso. Tempos modernos, globalização – nem tudo o que necessitávamos, nem tudo o que desejávamos: será que merecíamos??