sexta-feira, junho 05, 2009

SITUAÇÕES INVOLUNTÁRIAS - Lázaro Barreto.


Os versos que se perderam na surdina,
entre o clarão e a névoa
dos instantes lembrados e não colhidos...
A lembrança é coerente, o olvido é indeciso.

O som de um violão ou de uma flauta
pode ser reconhecido (audível, palpável)
numa voz humana, se bem afinada.
Assim como os olhos que flertam
e não simplesmente olham.

A escuridão do tempo
extirpa até a memória
do antigo amor,
que julgávamos eternizado?

A crosta terrestre boiando sobre o magma...
A colisão dos asteróides aproximados...
O encontro fatal das placas tectônicas do subsolo...
O vulcão a explodir, a liberar seu gás carbônico,
seu dióxido de enxofre,
a brasa viva...
Viver é muito perigoso, mesmo!

O medo
é o novo nome do país?
Se saímos de casa, somos assaltados;
se ficamos em casa, estamos aprisionados.

O vento sacode as árvores do quintal:
pode ser o sopro de nossos obsessores
da baixa atmosfera,
que azucrinam nossas idéias,
aguçam os nossos males,
disparam infartos e derrames contra a nossa debilidade?

Se ainda estamos neste baixo astral de terra magoada,
amassando o barro do dia enfadonho,
expiando culpas no cartório e pecados na sacristia,
é porque não somos flores que se cheirem.
Somos o ranzinza caído e pisoteado:
o torpe vencedor ou o inocente vencido?

O dia longo neste envoltório de gazes densos
atravessa o rio das fezes e das urinas...
Por que a morte definitiva não vem logo de uma vez?
Em seu lugar vem o tempo retrógrado,
uma eternidade em pedaços esfarrapados.