sexta-feira, julho 03, 2009

A BRASA DA FOGUEIRA - Lázaro Barreto.


A meninada do Arraial não perdia uma festa popular regada fartamente de chás, doces e quitandas. Eu participava da Turma da qual constava os amigos Remundo do Zequinha, o Nego da Fia, o Zózimo do Varisto e o Zezinho da Zica. Contumazes nas estrepolias, não poderíamos perder a Festa da Fogueira de São João na Fazenda do Lavapés, situada a uma légua do Arraial, naquele ditoso ano de 1945..

Chegamos pelas oito horas da noite com a festa já em andamento – e começamos a bisbilhotar as dependências do casarão, comendo e bebendo as iguarias servidas numa mesa imensa do alpendre, de onde apreciávamos as enormes labaredas da fogueira e os pares de jovens e adultos dançando sob o toldo de estacas de pau-pombo e a cobertura de folhas verdes de bananeiras. O som esfuziante e melodioso da sanfona do Joviano, e do violão, do cavaquinho e do pandeiro, respectivamente do Didico, do Idelson e do Jefinho, ecoava na região rural anoitecida da Noite de São João, considerada a mais longa do ano, sob o ar iluminado de estrelas no alto, de lampiões em estacas nas imediações e sobretudo pela enorme fogueira no centro do terreiro de chão batido.

Chegada a hora dos sortilégios e do encantamento da Festa, à meia-noite, com a fogueira agora transformada em brasas vivas esparramadas no plano nivelado do terreiro, o pessoal começava a tirar os calçados para atravessar com os pés desnudos do imenso braseiro faiscante e vermelhíssimo. O primeiro a passar foi o tal de Isaltino – e ninguém importou, pois ele era considerado um feiticeiro de marca maior na região. Depois o filho dele e um apaniguado também passaram, ilesos e faceiros. Depois uma senhora idosa, fazendo o “pelo sinal da santa cruz”, também passou. Aí muitas pessoas tiravam os calçados, ameaçavam passar, iam até à beirada e recuavam. Eu nem cogitava de aventurar-me. Mas, quando vi o Remundo do Zequinha passar ileso e até sorridente, - ele que era meu exemplo de possibilidades vitais, ah, aí, senti um ímpeto estranho de inaudita coragem, tirei os sapatos e as meias e, sem titubear, passei de um só fôlego o diâmetro de três metros de fogo vivo do braseiro vermelhíssimo, chegando do outro lado com as brasas encastoadas na sola dos pés, sem o menor sinal de dor ou de queimadura. Palavra de honra que é a pura verdade.

Hoje, passado tanto tempo, eu mesmo custo a crer na veracidade, mas o que estou a dizer é a pura verdade. Passei mesmo no imenso brasileiro crepitante, com os pés completamente despidos, naquela Noite de São João de 1945, quando contava meus saudosos onze anos de idade.